quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Samba, Título e Contravenção




Existem poucas coisas nessa vida que eu posso dizer que odeio. Uma delas é a Beija-Flor. Sei que não estou sozinho. Já ouvi uma vez que a Beija-Flor é muito odiada porque ganhou muitos títulos, a exemplo da Imperatriz no início dos anos 2000. Mas fato é que eu não gosto da dita-cuja de Nilópolis desde muito criança – e olha que criança não gostar de coisa com nome de bichinho bonitinho é raro. E quando eu era pequeno, a Beija-Flor era o Botafogo das Escolas de Samba: não ganhava nada por décadas – o primeiro título dela que eu fui ver foi com 14 anos, em 1998, dividido com a Mangueira.

Logicamente que eu não fiquei contente com o resultado da última apuração. Até porque minha escola do coração, a Viradouro, foi rebaixada novamente. E também achei um acinte um enredo que exalta uma ditadura reconhecidamente cruel ter sido convertido em um desfile cheio de belezas e se tornado campeão. Mas, convenhamos, esse motivo pode apenas se somar a uma série de outros que tornam o Carnaval do Rio de Janeiro um grande caldeirão de fatos ignóbeis.

Todo mundo sabe que a grande sustentação dessa festa, há décadas, são contraventores. O Jogo do Bicho sempre foi o manancial maior das escolas, ou pelo menos dos poderes delas. Foi, inclusive, enredo de um dos campeonatos da Beija-Flor, Sonhar com Rei dá Leão, em 1976. Quem gosta de Carnaval constantemente vê figuras como Anísio Abraão David, Capitão Guimarães ou Rogério Andrade frequentarem as páginas policiais dos jornais – isso quando não têm sua prisão decretada e passam dias na cadeia. Natal, sob cuja batuta a Portela foi campeã em 19 de seus 21 títulos, era bicheiro. A Viradouro mesmo, escola que teve entre fundadores o meu avô, foi capitaneada por anos por José Carlos Monassa, que reconhecidamente controlava o jogo em Niterói e São Gonçalo. E foi na sua gestão que a escola brilhou mais: foi campeã em 1997 e só ficou de fora do desfile das campeãs no seu último Carnaval antes de morrer, em 2005. Quando Monassa faleceu, assumiu Marco Lira, um policial. Em mais cinco Carnavais, passava ao grupo de acesso.

Reza a lenda que após um enredo mal-desenvolvido em 1996, que quase culminou com a queda da Viradouro, Monassa chamou Joãosinho Trinta em sua sala e o destratou imensamente, inclusive jurando-o de morte caso ele não desse a volta por cima. Esse episódio teria desencadeado o primeiro AVC de Joãosinho – que, sabe-se, também não era nenhum santo. No ano seguinte, a escola de Niterói era campeã com Trevas! Luz! A Explosão do Universo.

Estive uma vez com Monassa, a trabalho, para uma entrevista a um jornal. Fui recebido pelo então carnavalesco, cujo nome preservarei, que foi quem me encaminhou até a sala da presidência. Tudo parecia uma imensa atmosfera de filme de máfia italiana, só que menos noir e com mais plumas e paetês. Poucas vezes conheci uma pessoa tão rude e antipática como o então presidente. Mas não deixei de comprovar também o quanto ele amava aquela agremiação e o quanto a comunidade o adorava consequentemente.

Na verdade, reside aí a grande questão: os patronos ou presidentes dessas escolas muitas vezes estão mais próximos e cumprem muito mais o dever de suprir as necessidades de comunidades carentes do que quem, de fato, deveria ter essa função. Após décadas de abandono – e põe décadas nisso! – os morros e favelas, berço da grande maioria das agremiações, ficaram à margem de nossa sociedade (não que estejam inteiramente integrados hoje em dia, mas de fato houve momentos mais críticos), com parcial ou mesmo total ausência do Estado. Fortaleceram-se nesses grotões aqueles que conviviam com as suas realidades. E nelas encontraram uma forma de lavar o seu dinheiro, considerado contravenção. Hoje vemos não só bicheiros, mas milicianos e o próprio tráfico envolvidos em escolas. Todos irmãos de uma mesma gestação, embora esses dois últimos representem criminosos de fato, e não apenas contraventores.

Junte-se a isso o fato de que muitos outros encontraram uma forma de, através de patrocínio, usar as escolas como verdadeiras propagadoras de seus ideais. O belo carnaval da Vila Isabel, em 2013, com um dos melhores sambas-enredo dos últimos tempos, foi financiado pela Basf, produtora de agrotóxicos que é reconhecidamente uma das maiores poluidoras do mundo e que era partidária de Hitler na Alemanha nazista. Ainda exaltou o agronegócio, um dos setores que mais gastam recursos naturais do país, além de desmatar e até mesmo contratar pessoas em regimes análogos à escravidão. Lembro de uma ou outra crítica à Vila naquele ano. Mas ela foi unanimidade na Avenida e pouco se falou. Diferentemente da Beija-Flor, que dessa vez não saiu ovacionada como campeã das arquibancadas e foi claramente inferior a outras co-irmãs que desfilaram na Sapucaí.

Quem vive no mundo do samba carioca sabe que existem as “bolas da vez”. Seja para levar o campeonato ou pra cair ao acesso. Anísio não ficou nada satisfeito com o seu sétimo lugar ano passado e bateu na mesa: “esse ano é meu”. Assim como quando Brasília anunciou que daria um belo patrocínio em 2010, pelos seus 50 anos, ele também mandou avisar que não aceitaria concorrência, pois já seria da Beija-Flor. Em 2015, ainda havia uma disputa de poder velada:  foi um ano no qual o herdeiro de Castor de Andrade voltou ao noticiário e prometeu uma Mocidade à moda antiga, ou seja, moderna e brigando pelo campeonato (aliás, alguém notou que o carro do sexo da agremiação de Padre Miguel tinha um “Castor Motel”?). Acabou dessa vez a Mocidade no sétimo lugar, o mesmo da Beija-Flor no ano anterior.

Para quem gosta do Carnaval das Escolas de Samba, resta acompanhar, ano após ano, o trabalho dos barracões para nos criarem belas ilusões em 82 minutos, independentemente de colocações na tabela. Às vezes, faz-se a justiça. Mas quando não se faz, não adianta se abater. Nem mesmo apedrejar. Nesse meio, infelizmente, o telhado da maioria é de vidro. 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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