domingo, 8 de fevereiro de 2015

Sobre o Amor Definitivo





Rogério,

Ao ler esta carta, você terá dúvidas. Escreverei além do que sua personalidade cética poderá assimilar. No entanto, quero afirmar que sua traição foi um impulso que recebi na vida. Quando você disse que não me queria mais e só não terminara antes por inércia, me senti um homem desprezível. Na verdade, você estava me presenteando e me jogando nos braços de um barbudo lindo, de olhos penetrantes e pele bronzeada.

Na noite do rompimento, voltei para casa relembrando a frieza de suas palavras. Pensei em tomar um porre até entrar em coma alcoólico, mas só havia um resto de Martini, então fui para um boteco das redondezas. No caminho, passei por uma igreja evangélica onde alguns "irmãos" se reuniam com as bíblias nas mãos. Meu andar cadenciado e meus braços pouco másculos - pelos padrões estabelecidos - despertaram olhares desprezíveis nos que estavam diante do templo. Pensei: Como seus servos são preconceituosos, Jesus!


Ao chegar no bar, mudei de ideia e não tomei o porre em homenagem ao grande fora que levei. Lembrei que, depois de uma noite de porre, sempre vem um dia de ressaca. Bebi apenas um suco e voltei para casa, decidido a acender uma vela para meu anjo da guarda e outra para Deus. Nos momentos difíceis, ainda aflora minha herança católica.

A noite se arrastava e minha angústia aumentava entre lágrimas e pensamentos obscuros. Na madrugada, ele chegou. Com os olhos arregalados e totalmente paralisado, sequer me levantei do local onde eu e você trocamos juras de amor. Ele sentou-se na beirada da cama, acariciou meus cabelos e disse:

- Você não está sozinho, estou aqui para ampará-lo e não deixá-lo cometer loucuras. 

Respirei fundo, já não estava tão assustado como no momento de sua chegada e respondi:

- Não vejo graça na vida sem o Rogério. 
- Deixe de tolice; existem milhões de homens no mundo, logo você estará suspirando por um novo amor. 

Ouvindo isso, sentei-me e fiquei de frente para aquele homem fascinante que me olhava com ternura. Notei que seus olhos eram escuros e não azuis como mostrado nas pinturas. Sua pele também não era clara como as imagens. Sua tez parecia curtida pelo sol em um tom bronzeado, os cabelos médios e escuros.

Ele aproximou-se, deu-me um abraço forte e disse baixinho em meu ouvido:

- Eu te amo, César. 

Senti um tremor percorrer meu corpo e, no momento em que ele voltava pra a posição anterior, olhei enternecido aquele semblante admirável:

- Você me ama! Então por que nunca percebi isso? 
- Tentei demonstrar várias vezes, mas sua incredulidade o deixava inacessível. 
- Mas viviam me dizendo que você não me aceitava do jeito sou e nem aprovava a vida que levo. 
- Dizem muito sobre mim, falam em meu nome e até exploram inocentes que acreditam na minha mensagem pacífica, muitas vezes deturpada. Quando você quiser saber a meu respeito, venha direto a mim, sem intermediários. 
- Como farei isso? Onde posso te encontrar? 
- Você sempre me encontrará dentro do seu coração. Sei que você não acreditará, Rogério. 

Após dizer isso, ele tocou meu rosto com a ponta dos dedos e encerrou a conversa dizendo:

- A propósito, meus servos podem ser preconceituosos mas eu não sou. 

Até agora não sei se foi sonho ou delírio, a sensação é algo real que me transformou internamente e retirou a angústia. Acordei animado e fortalecido. Descobri que sou verdadeiramente amado exatamente do jeito que sou.

Quanto a você, faz parte do passado. De você não quero nada, ou melhor, quase nada. O DVD daquele filme antigo, A Última Tentação de Cristo, faço questão de receber de volta.
César 

P.S.: Pensando bem, pode ficar com o DVD. Entrei em uma fase de total desprendimento.

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Leandro Faria  
Anita Costa Prado é paulistana, formada pela Faculdade de Educação Campos Salles. Elabora roteiros de humor e reflexão sobre diversidade sexual e, desde 2006, publica a personagem lésbica Katita pela Marca de Fantasia, selo editorial que lança (entre outros temas) quadrinhos de personagens LGBTs. É detentora de 3 prêmios Angelo Agostini, considerado o Oscar do quadrinho nacional.
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Um comentário:

melo disse...

Lindo, simplesmente lindo!