segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Um Olhar em Duas Vidas





So excuse me forgetting, but these things I do
You see I've fogotten, if they're green or they're blue
Anyway, the thing is, what I really mean
Your are the sweetest eyes I've ever seen...
Your Song (Elton John)

Anos 50. As mulheres ainda eram muito recatadas e (alguns) homens muito cavalheiros. Andando pelo centro da cidade, em meio a bondes e a um insinuado progresso, ele seguia distraído. Pensava na vida, nos problemas do cotidiano, nos seus vinte e três anos. Ainda distraído, pegou o bonde. Sentou-se e desviou sua atenção para a paisagem. E ficou a pensar no tudo e no nada. Da paisagem, passou a observar os passageiros e foi então que seus olhares se encontraram. 

Ela era linda. A mais linda que ele já havia visto. Estava sentada e, quando se virou, firmou o olhar. Era um olhar penetrante, fixo, envolvente. E ficaram assim, olhando-se. E apenas olharam-se, já que ele teve de descer no seu ponto e ela seguiu no trajeto do bonde. 

Durante muito tempo ele pensou nela e lembrava-se daquele olhar. Mas, com o passar dos dias e dos meses, aquele olhar se transformou naquilo que efetivamente era: uma lembrança de um pequeno flerte e nada mais. 

Muito tempo se passou. Até que em um belo dia de sol, caminhando pelo calçadão, ele estacou. Era ela. Vinha gargalhando com um grupo de amigas, muito feliz. Era ainda a mesma garota daquele dia no bonde, exatamente como ele se lembrava. A lembrança adormecida foi despertada e ele se viu envolto novamente naquele encanto. Parado no meio do calçadão, sem saber o que fazer, viu o grupo de garotas passar e ela, sem perceber sua presença, seguir junto com as amigas. Mas não importava. Somente vê-la novamente havia sido muito bom. E enquanto acompanhava com o olhar o grupo de meninas afastar-se, ela subitamente virou-se para trás. E mais uma vez seus olhares se encontraram. Não deve ter durado mais do que alguns segundos, mas pareceram anos. O mesmo olhar da outra vez: penetrante, fixo, envolvente. A certeza veio naquele momento: ela também lembrava-se dele. Mas seguiu seu caminho, deixando-o mais uma vez a pensar naquele olhar. 

Agora a lembrança dela e de seu olhar eram frequentes. Bastava fechar os olhos que ele conseguia visualizar o contorno do rosto e deixava-se invadir por aquele olhar que lhe causava uma sensação tão reconfortante e que ele sequer conseguia explicar. Quando contou para um amigo a história, foi chamado de maluco. O amigo zombou e perguntou se ele estava apaixonado por uma mulher que havia visto apenas duas vezes na vida. Desconversou e riu junto. Era bobagem, é claro! Apenas cruzaram o olhar. Por duas vezes, é verdade, mas não havia sido nada demais. 

Ele nunca foi religioso. Nos seus trinta anos, passara diversas vezes na frente daquela igreja e nunca tivera vontade de entrar. Entretanto, nesse dia em especial, sentiu uma necessidade. Eram quase dezenove horas e havia um movimento enorme na entrada da igreja; um casamento era evidente. Ele não se importou e subiu as escadas. A igreja estava belamente adornada e ele se dirigiu para um dos primeiros bancos. Sentou-se, olhou para o altar e só então se perguntou o que fazia ali. Foi apenas quando a marcha nupcial começou a tocar e todos se levantaram para acompanhar a entrada da noiva que ele sentiu-se ridículo. Estava na cerimônia religiosa de um casamento de pessoas que ele sequer fazia ideia de quem eram. Levantou-se com o propósito de ir embora sem chamar a atenção. Foi quando viu a noiva entrar. Num andar gracioso ela esbanjava felicidade. Ele sentiu um aperto no coração, a boca secou e sentiu uma vontade enorme de enfiar-se num buraco: era ela! Pela terceira vez se cruzavam. Ele queria ir embora, mas não conseguia se mover, apenas encarava aquela beleza que tanto o envolvia. Foi aí que percebeu que ela vacilou nos passos e seus olhos novamente se encontraram. Ela recuperou o ritmo, seguiu com seu caminhar, mas manteve o olhar fixo nos olhos dele até chegar próxima ao altar. Aquele olhar mais uma vez. Apenas mais uma vez. Assim que o padre começou a cerimônia ele foi embora atordoado. 

Como podia ficar assim por uma pessoa que nem mesmo conhecia? Aquilo era loucura e ele resolveu esquecer. Não conseguiu. 

Mas o tempo passou. Ele também se casou, viu os filhos crescerem, formarem famílias e, quando a esposa faleceu, viu-se novamente sozinho. Agora, em plena velhice, não queria dar nenhum tipo de trabalho aos filhos e decidiu mudar-se para uma casa de repouso. Os filhos não queriam aceitar, mas ele sempre fez o que quis e dessa vez não seria diferente. Encontrou o local ideal, um lar para esperar a sua hora chegar. Mudou-se e passou a viver sua velhice como vivera sua vida até então: ativamente. 

Na casa de repouso havia muitas atividades para seus moradores e ele se empenhava no máximo que podia. Um dia, sentado no jardim que margeava toda a propriedade, observou um taxi parar e uma senhora que, altiva, abriu os portões e desfilou seu andar firme e elegante. Ele levantou para ajudá-la com as malas, afinal, ainda era um cavalheiro. Quando aproximou-se, ficou lívido: era ela! O tempo, claro, também passara para ela, mas ele nunca se esqueceu daquelas feições. E, quando seus olhares novamente se cruzaram, ele teve a certeza. Era o mesmo olhar daquelas outras três vezes. O olhar que ele se lembrara por toda sua vida. 

E ali, no jardim da casa de repouso, pela primeira vez se falaram. E falaram, falaram e falaram mais um pouco. Contaram detalhes de suas vidas um para o outro e a conversa fluía solta, como se fossem amigos de uma vida inteira. Até que em um determinado momento, reinou o silêncio. Mas não era um silêncio pesado e sem palavras. Era um silêncio leve e que dizia tudo em sua mudez. Um silêncio sustentado pelo olhar de ambos. O olhar de duas vidas que, mesmo distantes, haviam sido unidas. Por um olhar...

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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