quinta-feira, 26 de março de 2015

A Vontade de Ter a Quem Odiar




Hoje em dia, todo mundo tem argumento. É beijo que faz o mundo questionar a sexualidade de um lado. Um partido político que representa tudo de pior que o país vive e já viveu do outro. E um bando de gente que acha que sabe tudo bem no meio. 

Mas vocês já pararam para pensar que tudo isso é só uma necessidade? Sim, as opiniões inflamadas, os argumentos infalíveis de todos os lados. Tudo. Mas tudo mesmo, que quer fazer uma só coisa por você: sentir-se dono da razão. Seja a esquerda, a direita ou em frente. Eles só querem estar certos. Afinal, isso dá uma falsa ilusão que estar correto sobre algo faz com que tenha uma razão pelo todo. É meio complicado esse raciocínio, mas é mais fácil de ser compreendido do que todo o burburinho causado por conta de um beijo de milésimos de segundo no ar.

Se vocês pararem para pensar, vão perceber que eu falei sobre beijo recentemente e a polêmica nem era nossa. Na verdade, nem polêmica era e muito menos se tornou. O beijo foi exibido na terra do tio Sam e acredito que não chegou, ainda, nas mãos de nenhum pastor aqui do Brasil para que, eventualmente, deturpe o que aconteceu ali, dramaturgicamente.

Meu senhor, minha senhora, chegou o momento de ter um choque de realidade. Ter menos um beijo entre pessoas do mesmo sexo, não vai dar a falsa tranquilidade que os gays sumiram do Brasil e foram visitar Cuba. Certas coisas mudam e mudam pra sempre. E não sou do tipo de cara que acha que tudo deve ser “enfiado” goela abaixo da simples dona de casa. Acredito sim, que é complicado para muitas terem que aceitar, em um primeiro momento, que duas mulheres com mais de sessenta anos estão juntas e nutrem um amor profundo uma pela outra. Mas, se minha avó podia torcer por Clara e Rafaela na época de Mulheres Apaixonadas, tem alguma coisa errada com a cabeça de muita gente, então.

Posso até dizer que compreendo a demora em “perceber” que para o preconceito morrer de vez é preciso um grupo bater no peito e assumir tudo aquilo que sente. E nossa dramaturgia apoiar todo esse enfrentamento e até tentar dialogar com as dúvidas que esse grupo carrega, mas não tem coragem nem de perguntar.

Aproveitando, sei que muita gente vai dizer que novela é ficção, não é vida real. Mas, muitas vezes, fico sem entender se é a vida que imita a arte ou a arte é quem prepara a vida para as tramas que serão vividas pelos telespectadores das boas e velhas novelas das 20h30, assinadas por Janete Clair.

Seja como for, não importa se mude de governo, acabe o beijo entre iguais no horário nobre do nosso povo. Tem gente que só espera ter um simples motivo para ter o que odiar. 

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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