sábado, 21 de março de 2015

Das Pequenas Ignorâncias





Babilônia, a nova novela das 9, estreou essa semana, já causando burburinho por causa de um longo selinho entre o casal lésbico vivido por Fernanda Montenegro e Natália Thimberg, no primeiro capítulo. Causou tanto ou mais alvoroço nas redes sociais, do que as manifestações pelo impeachment da Dilma nas ruas do Brasil, no domingo anterior a sua estreia. 

Seria maravilhoso constatar que todas as reações ao beijo surpreendente das duas senhoras fofas e elegantes foram positivas. Mas para minha total e desagradabilíssima surpresa, não foi bem assim. 

Não sou ingênuo de achar que todos aplaudiriam essa pequena ousadia da Rede Globo, mas também não esperava ouvir a quantidade de asneiras que ouvi. Não depois de Félix e Niko, Marina e Clara, Cláudio e Leonardo. Pensei que os homofóbicos de plantão já haviam gastado seu arsenal de ignorância, mas me enganei, eles são incansáveis. A cada nova tentativa de quebrar tabus e preconceitos inúteis, eles se munem com o velho, batido e cansativo texto de sempre. São mais clichês do que novela mexicana. As pequenas ignorâncias de serezinhos de igual tamanho, parecem não ter fim. O pior de tudo, é que os argumentos nunca se renovam, é sempre a mesma ladainha enojante. Pior é quando deixam de ser discursos falso-moralistas e convertem-se em machismo grosseiro e torpe. 

Algumas das “pérolas” que li, ouvi e me contaram na terça-feira logo pela manhã foram as seguintes, referentes as personagens Teresa e Estela: 
“Eu adorava a Fernanda Montenegro, achava-a uma grande atriz. Agora, depois desse papel que ela tá fazendo, fiquei decepcionada. Uma atriz como ela devia ter recusado esse papel, não devia aceitar de jeito nenhum. Que ridículo, fazer papel de sapatão depois de velha!” 
“Eu não vi a novela, mas já sei o que aconteceu. Não perco meu tempo vendo bobagem. Que país ridículo esse que a gente vive, colocando duas velhas pra se beijar na televisão e processando um cara (Levy Fidélix) porque disse a verdade. Vou fazer um crowdfunding para arrecadar o dinheiro que ele vai ter que pagar de indenização.” 
“Na minha época não tinha isso. Tudo bem que foi só um selinho, mas foi um beijão. Não sou contra, mas acho que confunde um pouco a cabeça das crianças.” 
“Vai chupar uma P*C* sua p*t*. Tem que ser muito 13 pra dar ibope pra essa vagabunda.” 
O primeiro comentário, um amigo me contou que ouviu de uma colega de trabalho, uma mulher de meia idade, evangélica e cretina, pra variar. O segundo foi dito por um colega da faculdade, um babaquinha de 21 anos, fã de Harry Potter, frequentador de uma igreja chamada Bola de Neve (que se diz moderna e mente aberta) e que me parece muito um gay enrustido. A terceira citação foi feita por uma moça jovem e bonita na faixa dos 30 anos, mas que deveria ler e se informar mais sobre crianças e homossexualidade, pois minha decepção com ela foi a maior de todas, tamanha bobagem que saiu de sua boca, não combina com seu jeito. 

E a mais lamentável e grotesca opinião, exposta no Facebook da criatura em questão, não referiu-se às personagens de Babilônia, mas à notícia de que Thammy Gretchen escreverá sua autobiografia. O sujeito ignóbil postou o link da matéria em sua página e fez o abjeto comentário. O infeliz também é meu colega de curso, mas só pode estar perdido no curso de Letras, tamanha é sua estupidez e ignorância. Sempre o tratei com educação, cumprimentando-o e sendo simpático, mas depois do show de horrores que ele proporcionou com seu comentário sujo, não passarei nem mais perto dele. 

Diante de tanta barbaridade, penso no quanto ainda vai demorar para se extirpar da sociedade tanto preconceito. Ainda temos muito, apesar da falsa sensação de que eles estão desaparecendo. Não estão. Continuam por aí, velados, disfarçados em pequenas ignorâncias, que no fundo são grandes, enormes. Talvez sejam exterminados até a próxima geração, daqui a 50 ou 100 anos. Talvez não acabe nunca por completo, pode ser um mal, que humanos de bem, tenham que lidar pra sempre ou enquanto houver vida na Terra. 

Diante de tanto absurdo, penso nas mais remotas e longínquas possibilidades. E é engraçado como a cada novela que estreia, esses mesmos imbecis pronunciam-se indignados, bradando: 
“Mas agora toda a novela tem que ter gay!” 
Sim, seu idiota, tem que ter gay sim! Porque mesmo tendo dois ou três míseros personagens em cada novela, a sua maldita ignorância não cessa. E não, ela, a sua ignorância, não é legal, nem bonita, muito menos um exemplo de virtude, caráter, moralidade, decência ou qualquer coisa que o valha, muitíssimo pelo contrário. A sua ignorância é menos que o dejeto que a gente higieniza quando faz a “chuca” pra não “passar cheque”. 

E sim, vai continuar tendo gays nessa e em todas as próximas novelas! Porque não somos um chiste, que aparece de vez em quando pra fazer você rir ou causar polêmica ou amenizar a má impressão que causamos à tradicional e ilibada família brasileira. Vai ter gay na sua televisão, no seu trabalho, na sua escola, no seu curso superior, no seu bairro, na sua igreja. Vai ter gay próximo a você na fila do banco, do supermercado, da lotérica, sentado ao seu lado no metrô, no ônibus, na sessão de cinema. 

E vai ter gay sentado ao seu lado no sofá da sua casa, assistindo a novela junto com você e morrendo um pouquinho por dentro a cada comentário homofóbico que você fizer, mas ele também vai ter um pouquinho de esperança sempre que vir um gay na novela, esperança de que a sua pequena e avassaladora ignorância um dia acabe.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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