segunda-feira, 9 de março de 2015

De Quem Mesmo é a Culpa?





Não, a culpa não é das estrelas. E a cada dia que passa, fico mais desiludido com a espécie humana e as bárbaries que somos capazes de cometer, em nome do que mesmo? 

Digo isso baseado no ocorrido divulgado nessa semana, que me fez começar a rascunhar a coluna de hoje. Uma situação absurda e que poderia ser notícia do Sensacionalista mas que, infelizmente, parece fazer parte do nosso bizarro mundo real. A que notícia me refiro?
Adolescente de 14 anos está em coma no Hospital Regional Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, após ter sido espancado dentro de uma escola pública na Vila Jamil, na manhã de quinta-feira (05/03). O motivo? Porque é filho adotivo de um casal gay e os agressores queriam mostrar que alguém criado por pais gays pode se tornar um monstro. Fonte: O Dia e Extra
Sério, se essa lógica não fosse tão estúpida, ela seria incrível. Afinal, nada mais coerente do que agredir alguém para provar que o agredido pode ser um monstro. Maravilhoso e diretamente da Idade Média, quando uma mulher era acusada de bruxaria e jogada amarrada dentro de um lago para provar que, se sobrevivesse, era uma bruxa. 

Mas, pesquisando para escrever esse texto, me vi com algumas discrepâncias. Como parece acontecer com tudo hoje em dia, as notícias não são muito claras e o que realmente aconteceu nesse caso da Vila Jamil não está totalmente esclarecido. A Secretaria de Educação desmente a agressão dentro da Escola, e a Secretaria de Segurança de SP ainda está investigando o que efetivamente aconteceu.

Entretanto, o que me assusta, são os comentários em algumas das matérias. Não sei vocês, mas há tempos tenho verdadeiro nojo do ser humano que acha que, por estar no anonimato da internet, pode dizer o que bem entende sem sofrer nenhum tipo de auto-censura. 

Querem dois exemplos da idiotice humana sem limites? Seguem abaixo duas transcrições, exatamente como foram redigidas na área de comentários da notícia do jornal Extra:
"CASAL QUE EU CONHEÇO É UM MACHO E UMA FEMEA, SEJA ANIMAL RACIONAL OU IRRACIONAL.. NO CASO DE VCS, O CERTO SERIA UMA DUPLA DE HOMESSEXUAL QUE RESOLVERAM VIVEREM JUNTOS...GOSTARIA DE SABER QUEM É A MAE DESSE GAROTO NO DIA DAS MAES.."
Tenho pena da criança, o responsável é quem autorizouessa adoção, a criança vai sofrer discriminação sempre, não existe casal gay, existe é dois vi@dos querendo brincar de PAPAI e MAMÃE, por nao adotaram um cão, um gato."
Eu já deveria estar acostumado com esse tipo de absurdo, afinal, trabalho rodeado por um bando de homofóbicos disfarçados de pais de família, mas não consigo. Independente do que aconteceu naquela escola, a forma como as pessoas justificam o injustificável, culpando as vítimas, é assustador.

Isso é semelhante aos machistas que culpam as mulheres por serem estupradas, porque provocaram o estuprador. Que justificam a própria corrupção, porque todo mundo também é corrupto. Esse mundo que estamos vivendo, meus caros, me desanima profundamente. Afinal, que sociedade é essa que vivemos em que a culpa é sempre do agredido e nunca do agressor?

Sinto informar, mas a culpa não é do casal gay (sim, eles são um casal, eles são o que eles quiserem ser, aceita que dói menos!), não é do filho espancado, não é da mulher que resolveu colocar um vestido colado para se sentir bem e foi estuprada por isso. Não, não é. A culpa NUNCA é do agredido. 

Nesse caso, caro leitor, a culpa é SUA. Afinal, é você que bate palma para pastores mal intencionados e que propagam pensamentos homofóbicos e machistas. É você que educa seu filho com frases do tipo "menino pode isso, menina não pode aquilo". É você que aceita sim a homossexualidade, mas Deus me livre ter um filho gay. A culpa é SUA e de quem mais à nossa volta assiste a tudo de camarote porque, ainda bem, ainda não aconteceu na sua casa, na sua família, nos seus domínios.

Mas uma hora, meus caros, o jogo vira e podemos pagar pelo nosso silêncio e braços cruzados. Dessa forma, não consigo pensar em outra forma para fechar a coluna do que citando o famoso poema Intertexto, de Bertold Brecht:

Primeiro levaram os negros, 
mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida, levaram alguns operários, 
mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis, 
mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados, 
mas, como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando, mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém, 
ninguém se importa comigo...
Intertexto (Bertold Brecht)

Porque no fim das contas, eu peço por você, e por mim. Peço que alguém se importe, qualquer um. 

Porque eu, juro, me importo. E mesmo que pouco, estou fazendo minha parte. Com esse texto, com a minha revolta, com a minha resposta aos discursos de ódio disfarçados de boa vontade à minha volta. Mas está difícil, viu, muito difícil. 

Mas não podemos desistir, porque se fizermos isso, eles vencerão. E eles são muitos e estão disfarçados. Porque eles podem ser, inclusive, você.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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