quarta-feira, 18 de março de 2015

Manifestações, Memória e Preconceito




O Brasil foi às ruas nos últimos dias. Na verdade, já há algum tempo isso tem se tornado um pouco mais comum. Nas eleições, vimos diversas manifestações nas redes sociais. Panelaços pelas janelas mais recentemente. Diversas são as reivindicações. Contudo, esse movimento trouxe à tona uma série de intolerâncias, preconceitos e agressões que, para mim, só demonstram o quanto a nossa sociedade anda sem memória e está longe da maturidade necessária para discussões tão vitais como as que de fato precisamos.

Primeiro de tudo: creio que as reivindicações só são legítimas quando não afetam direitos da coletividade. Fazer alusão a nazismo ou fascismo, definitivamente, não se enquadram nessa categoria. E desculpem os saudosistas de uma Ditadura Militar que nunca viveram – pois é impressionante a quantidade de pessoas com menos de 30, 35 anos, que sequer presenciaram a Ditadura ou eram apenas crianças naquela época –, clamar por um regime de exceção, tampouco.

Canso de ouvir que o Regime Militar só foi duro para quem foi subversivo. Primeiro, é necessário debater o que seria subversão. Mas, vamos lá, vamos utilizar o senso comum a respeito do termo: ainda assim, foi uma ditadura que cerceou a nossa sociedade de todas as formas. Meus pais eram crianças quando a ditadura militar começou. Atravessaram toda a sua adolescência e juventude, até se casarem e terem seu primeiro filho (eu, no caso) durante o governo dos militares. Nunca foram o que se convenciona como subversivo; nunca tiveram intenções políticas, nunca se engajaram em movimentos estudantis, nunca foram a passeatas nas ruas, não usavam drogas, nunca foram fichados na Polícia. Até hoje, têm claras inclinações políticas de direita. E se qualquer um perguntar a eles se eles gostariam de voltar àquele tempo, a resposta será NÃO.

Nada justifica um regime que tinha como prerrogativa ser a antítese da democracia. Realmente queremos não poder escolher o nosso governante maior? Goste-se ou não da atual presidente, ela foi escolhida pela maioria. Como dizia Churchill, “a democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais”. Relembro mais uma vez a frase de John McCain, ao ser derrotado por Barack Obama em sua primeira eleição: “Até ontem ele era meu adversário. Hoje ele é meu presidente. Desejo a ele sorte”. Democracia é isso: aceitar o desejo da maioria, mesmo que não seja a minha opinião, necessariamente. E, claro, não é preciso compactuar com tudo o que acontece, calado, mesmo aqueles que votaram na presidente ou em qualquer outro governante. Protestar por melhoras é um direito sagrado. O que não podemos é sermos massa de manobra para retrocessos.

Saindo do campo político, também vemos o quanto essa inflamação geral aflorou preconceitos em todos os cantos do país. Discriminação aos nordestinos, racismo, sexismo, homofobia, intolerância com discordâncias políticas, agressividade contra os indivíduos e as instituições. “A barca não funciona direito? Vamos quebrar tudo!”, ouviu um colega esta semana. Em outro episódio lamentável, um dissonante da opinião da cantora Pitty mandou ela, como mulher que é, “voltar para a cozinha”. É sério isso, Brasil? É para isso que o país está protestando?

Se for, lamento lhe informar que, como a própria Pitty respondeu, “eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário. O choro é livre (e nós também)”.

Que assim seja. Sempre.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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