segunda-feira, 23 de março de 2015

Pertencimento e Desapego





"Um barco sem porto, sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela, um bicho solto, um cão sem dono
Às vezes me preservo, noutras, suicido..."
Flor da Pele (Zeca Baleiro)

Fim de semana longe do Rio, revendo a família no interior do estado, curtindo a casa dos pais, a comida e a preguiça. Tem coisa melhor que isso? Para muitas pessoas, não, mas eu sou estranho, diferente e adoro a minha vida no Rio, a minha casa, o meu espaço. Eu amo meus pais, morro de saudade deles. Mas, sendo bem honesto, essa saudade é apenas deles e nem um pouco da minha antiga cidade e de tudo que ela representa.

Acho que falo de pertencimento. Aquele sentimento de fazer parte, de amar um local, de não se imaginar longe dele. E Smallville (ok, sou de Paraíba do Sul/RJ, mas é como Smallville que eu me refiro a ela), para mim, nunca foi esse lugar. Apesar de nascido aqui (e escrevo esse texto na cidade, por isso as emoções tão à flor da pele), nunca gostei da cidade. Aqui é de onde eu sempre quis sair, desde que me entendo por gente. Aqui era a minha barreira, onde estavam os meus muros, onde me sentia limitado.

E, aos pouquinhos, eu consegui meu objetivo. Tracei um plano, o segui à risca e, aos vinte e poucos anos, formado e trabalhando, dei adeus a essa cidade, sem nenhuma dor ou culpa, apenas alívio. Sabem o que é sentir-se aliviado por estar finalmente realizando um sonho? Eu sei, porque o meu sonho sempre foi sair de Smallville, não ter que viver aqui e com a mentalidade da maioria das pessoas que me rodeavam e eu tanto desprezava.

De Smallville para Petrópolis, de Petrópolis para o Rio e, aí sim, a realização pessoal. Apesar de fluminense, sou carioca de coração. É no caos carioca que eu me sinto vivo, feliz e em paz. Amo o Rio, as praias, o Aterro, a minha vizinhança. Já me adaptei ao "vamos marcar qualquer hora dessas", "nos vemos em breve" e ao "passa lá em casa" que significam, em sua maioria, um "oi, beleza, outra hora nos esbarramos casualmente e botamos o papo em dia". Por mim, esse desprendimento carioca é natural, bem visto até.

Sendo bem sincero, o mundo ideal seria aquele em que eu nunca mais teria que colocar os pés em Smallville. Estar aqui é mais como um dever do que um prazer. E eu odeio deveres e obrigações. Mesmo não fazendo absolutamente nada e curtindo o ócio sem culpa, eu me pego olhando no relógio, contando as horas para o domingo à tarde, quando finalmente serei feliz e retornarei ao Rio.

Meus pais não devem entender esse meu desapego. Normal, eles não entendem muita coisa em mim. Sou o ponto fora da curva, o diferente, aquele que não seguiu o plano deles. Mas, aos pouquinhos, vou mostrando a eles que eu segui o scrip sim; o MEU script, o MEU plano, os MEUS sonhos. E deve ser inegável, até para eles, como até mesmo nosso relacionamento mudou depois que eu me libertei.

Sentado no sofá na sala da casa em que fui criado, ouço o riso das crianças na rua, as conversas abafadas dos vizinhos pela vizinhança. E agora, redigindo esse texto, eu me sinto muito bem e feliz. Porque eu venci, eu saí daqui. E hoje, mesmo não sendo meu passatempo preferido, estar aqui é apenas circunstancial, o que faço vez e nunca e sigo minha vida.

Na minha cidade, no meu mundo, com a família que eu construí e rodeado dos amigos que me receberam e acolheram. Desapegado, é claro, mas me sentindo parte de algo, parte daquilo que eu quis pra mim...

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Homem, Homossexual e Pai disse...

OLA! muito legal seu blog! não conhecia e já li um monte de textos... parabens!

Eu acredito que tem gente que NASCE NO LUGAR ERRADO e que acaba descobrindo que pertence a outro lugar, como te aconteceu! Eu sou paulistano e realmente amo esta cidade, eu pertença a ela! Ja morei em outros lugares - sempre provisoriamente - e nunca me vi morando fora daqui!
Abs! bela reflexão!

Panguá disse...

Parabéns pela forma que transcreveu seus sentimentos de maneira clara e com tamanho desapego.
Assim me sinto qdo sai de TR e tracei minha história em BH.