sábado, 14 de março de 2015

Pessoas Inconvenientes




Como se livrar de uma pessoa inconveniente? Tenho tentado de todas as maneiras educadas fazer com que certo sujeito, que chamarei de M., fique bem longe, mas tem sido tarefa árdua. 

Um breve relato do que acontece é o seguinte: M. é a bicha mais louca que já conheci, e se você o conhecesse, tenho certeza que pensaria o mesmo. Nenhum problema em ser bicha louca, acho ótimo, como diria a finada Leila Lopes. O problema é ser inconveniente. E M. o é até a tampa, com gosto, convicção e vontade. Não sei se ele tem algum problema mental, mas o prazer em esfregar sua bichice na cara do mundo e constranger qualquer um que esteja perto, é enorme. Até aí tudo bem, se eu tivesse escolhido ficar perto dele e andar em sua companhia. Só que a história não é bem assim. 

M. é amigo de um amigo e o conheci através deste. Assim que me viu pela primeira vez, M. não se fez de rogado e já saiu destilando todo seu repertório “viadíssimo” e hilário, por sinal. Eu adorei conhecê-lo, pois divertido e engraçado ele é, sem dúvidas. Com um arsenal de piadas, tiradas e timing de humor perfeito, M. me arrancou fartas e deliciosas gargalhadas num primeiro momento e me deixou ainda mais fascinado quando contou que era pai de dois filhos, dois meninos de 7 e 4 anos. Pensei em como essa pessoa poderia ser interessante e cheia de histórias sendo uma gay louquíssima e um dedicado pai de duas crianças. Com o tempo, no entanto, descobri que M. era apenas uma pessoa vazia e cansativa.

Nos afastamos e ficamos longo tempo sem nos ver. Um belo dia, de repente, me deparo com M. na rua. Foi gostoso revê-lo, depois de tanto tempo, com seu humor rápido e ácido na ponta da língua. Trocamos telefones, que já tinham mudado depois de tanto tempo distantes, e seguimos nossos caminhos. Mal viro a esquina, uma, duas, três mensagens de texto com piadinhas e bobagens. Engraçadinho, ok. 

Alguns dias depois, no ponto esperando o ônibus pra ir trabalhar, novamente dou de cara com M., que me avistando a distância, começa a fazer caras e bocas e se requebrar. O ponto está cheio, e M. adora um público. Começa a soltar asneiras em alto e bom som. Eu, educadíssimo, rio, implorando por dentro que meu ônibus brote do chão. O ônibus chega e M. me segura pela mochila gritando: “Não, a senhora não vai. Fica aqui, conversando comigo!” A vontade de dar uma bicuda no sem noção invadiu meu ser nesse momento, mas me contive como sempre. 

Dois dias depois, no mesmo ponto de ônibus, o reencontro. Descubro que duas vezes por semana ele leva os filhos pra escola, perto da minha casa. Na verdade, a ex dele mora próximo a minha casa. Entendo que o verei muitas vezes por acaso, se não souber exatamente quais são seus horários. Consigo evitá-lo por algum tempo nesses dois dias em que ele leva as crianças à escola. Mas isso dura pouco. Certo dia, tarde da noite em frente de casa e conversando com um vizinho, a criatura surge das trevas fazendo seu peculiar escândalo. Meu vizinho, que não o conhece, acha-o divertido. Da mesma maneira que eu o achei quando o conheci. Mas já conheço o seu repertório e tudo pra mim não passa de uma grande e chata repetição. 

Trocamos telefones mais uma vez, pois o querido perdeu meu número. Não consigo pensar rápido e dou o número certo. Me arrependo minutos depois, quando ele liga pra despejar um monte de besteiras em meus ouvidos. No dia seguinte, liga novamente, insistentemente. Não atendo. Mais alguns dias se passam. Volto do trabalho tranquilamente por uma rua que não é a de costume, esqueço completamente que é a rua de Gretchen (sim, é esse o nome dela), a ex de M., e quem berra por mim ao me ver passar? Sim, meus caros, o próprio. Sou simpático, sorrio e M. me acompanha até a porta de casa. Conta que foi assaltado, perdeu o celular com todos os contatos e pede meu número novamente. Não titubeio e passo o número errado. 

Essa semana fui ao mercado, vi M. de costas e fugi. No dia seguinte, indo pro trabalho distraidamente, viajando com meus fones de ouvido, passo em frente a uma loja e vejo M. de relance e muito rápido, finjo que não reconheci e aperto o passo. A bicha grita e, como não atendo, sai correndo da loja aos berros de “volta aqui, que a senhora não está atrasada coisíssima nenhuma”. Estou à passos de distância, mando beijos e digo por mímica que não posso conversar no momento. O veado do capeta vai atrás de mim, arranca meus fones e começa um blá blá blá que já me deu no saco. Ele me acompanha até o metrô. São 15 minutos da minha casa até o metrô. Quinze longos minutos e uma subida que acaba com a minha vida (sim, sou sedentário), ao lado de uma pessoa inconveniente e cansativa, que não se toca que não tá agradando e me dá vontade de gritar, mandar pra PQP e dizer pra desaparecer da minha vida. Porque não somos amigos, nem nunca seremos. Mas eu não faço isso, não falo nada e espero que o destino se encarregue de mandá-lo pro raio que o parta.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Leandro Faria disse...

Olha, você é muito paciente. Eu já teria mandado se fuder e deixado claro que não, não sou amigo dele. Jä fiz isso algumas vezes e faço quantas vezes for necessário.

Gente sem noção e inconveniente: longe de mim, por favor!

E que texto gostoso de ler, viu criatura! Como sempre, aliás!