quarta-feira, 11 de março de 2015

Você Tem Medo De Quê?





Sempre fui uma pessoa muito medrosa. Tenho algumas lembranças bastante fortes de momentos medo da infância: na minha primeira casa, acordando de madrugada e olhando para a porta, com a sensação de que havia alguém à espreita; ou quando foi dormir na casa dos meus tios e vi a luz do corredor piscando sem parar, como num livro de Stephen King; ou quando assisti a um episódio especial de Jaspion em que o vilão se transformava num mega monstro (essa então é uma lembrança muito vívida, porque me recordo que não consegui dormir direito aquela noite e, a partir daí, meu medo do escuro na infância se intensificou – e eu tinha somente uns cinco anos). Engraçado que na adolescência, mesmo ainda muito medroso, foi logo o Stephen King se tornar um dos meus autores favoritos à época. Filmes de terror entravam constantemente na minha lista para ir ao cinema. 

Passam-se os anos, as fobias de criança e da juventude se vão. O medo se transforma e passa a povoar nossas personalidades com novas roupagens, seja através de crimes violentos, vírus ou cânceres que podem abreviar uma vida, fanatismo religioso, um amor que pode partir e nos deixar sem chão, a possibilidade do desaparecimento ou morte de um filho... 

O medo é uma prova inconteste de que somos imperfeitos e mortais. É algo que nos acompanha desde o mais tenro Paleolítico: para sobreviver às grandes ameaças da época, era preciso temê-las e saber lidar com elas, em doses cavalares de adrenalina e, por vezes, sebo nas canelas. E medo é meio que como aquela camisa antiga, desbotada e fora de moda que está lá no fundo do armário: ninguém sabe por que você tem, nem você mesmo, às vezes, mesmo assim é só seu e só você pode se livrar dele. 

Eu, por exemplo, tenho medo da Lua. Sim, meus caros. Isso existe e tem nome: selenofobia. E acontece logo com o dono dessas mãos que vos digitam. Para falar a verdade, eu demorei a identificar que tinha esse medo. E não é sempre que ele ocorre: somente quando a lua está com cor ou tamanho aparentemente fora do normal. Acho lindo quando ela está lá no alto, branquinha, seja cheia, minguante, nova ou crescente. Mas quando ela está amarelona perto do horizonte, parecendo o sorriso do gato da Alice ou aqueles takes do Jayme Monjardim... eu fico em cólicas e agonia. De verdade, me viro para o lado contrário, escondo com a mão ou faço qualquer outra coisa que a tire do meu raio de visão. Não sei de onde isso surgiu, nem sei se um dia vou superar. Acho que pode ter algo com sensação de Apocalipse, embora eu não acredite no Apocalipse (pelo menos, não no sentido bíblico). 

Outra coisa estranha que descobri foi a onfalofobia. Trata-se do medo de que mexam no seu umbigo. No meu, no caso. Tenho pânico quando alguém chega perto de poder tocar no meu umbigo. Até mesmo eu: fazer a higiene (juro que faço, gente!) é um momento de suplício. E quando os que já sabem dessa fobia teimam em fazer gracinha e enfiar o dedo, o incômodo persiste por horas... 

Houve uma época na adolescência que eu tinha pavor de ET e, em menor escala, de chupa-cabra. Lembram daquela suposta necropsia em um extraterrestre que foi exibida pelo Fantástico e rendeu pauta para domingos e mais domingos? Era desesperador. E minha mãe sempre tirava um sarro da minha cara com isso. Em compensação, ela também tinha seus medos. Cresci vendo o seu horror fora do comum a anfíbios. Sapos, pererecas, rãs e familiares sempre a causaram um pânico que, admito, nunca dimensionei. Bastava ela ver na televisão para soltar um berro e sair correndo; se fosse uma revista, o grito vinha junto com o arremesso à distância do tal impresso... Hoje aprendi que esse medo também tem nome (aliás, qual não tem?): batracofobia. Inclusive, procurando esses termos, tive a relevante descoberta de que existe a hexacosioihexecontahexafobia, que é o medo do número 666. 

Não importa o que se tema, desde o Lobo Mau até a Terceira Guerra Mundial, o mais importante é conhecer os seus medos para se conhecer. Faz parte da nossa personalidade e não tê-los é contra a nossa natureza. Seja algo no céu ou no mais íntimo pedaço do próprio corpo, ter medo é humano, pessoal e intransferível.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: