quarta-feira, 1 de abril de 2015

A Mentira Nossa de Cada Dia




Ah, a mentira. Quer coisa mais humana do que ela? Afinal, que outra espécie é capaz de agir contrariamente à verdade de forma racional e voluntária? E olha que, segundo neurologistas, a tendência do ser humano é, primeiramente, sempre ser sincero. Por isso, geralmente não ficamos tão confortáveis para mentir e a fofoca se prolifera tanto.

Chegamos a tal ponto de relação com a mentira que ela até tem um dia no calendário (que vem a ser hoje)! Quem nunca caiu numa brincadeira de 1º de abril? Eu sempre odiava quando alguém no colégio dizia: “olha, estão te chamando lá no portão!” e eu ia que nem um idiota, sem encontrar ninguém. Nunca fui de pregar peças na data e nunca achei graça nela – até chegar a internet e fazer uns gracejos no dia que, vai lá, têm o seu bom humor.

A principal história para a origem da data é que a brincadeira teria surgido na França: desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado no dia 25 de março, que marcava a chegada da Primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1º de abril. Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX determinou que o Ano Novo seria comemorado no dia 1º de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1º de abril. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Os franceses, sempre vanguardistas, dando origem aos eventos imaginários um pouco mais engajados do Facebook...

Como diz o livro As Mentiras que os Homens Contam, de Luís Fernando Veríssimo, “os homens não mentem. No máximo, inventam histórias para proteger as mulheres. (...) Começa com a mãe, é científico. Sabe aquele dia em que você acorda sentindo uma coisa estranha no peito e não pode ir à escola? Você não vai dizer pra sua mãe que não fez o dever, mas sim que está muito doente, com um mal-estar terrível. Vai deixá-la feliz, cuidando de você. Afinal, alegria de mãe é se preocupar com o filho”. Tudo sempre tem origem na mãe, como diria Freud.

Fato é que a humanidade convive com mentiras faz tempos. Afinal, Adão e Eva nunca existiram – ou alguém acredita que eles viveram cento e poucos anos, falaram com uma cobra, comeram um fruto (que também nunca foi dito que seria uma maçã, logo uma mentira dentro da outra mentira), tiveram dois filhos homens, um matou o outro e a humanidade teve prosseguimento através daí. Como? Por partenogênese? Ou por incesto?

Aliás, a Bíblia é recheada de fatos, no mínimo, questionáveis (não chamarei de mentirosos diretamente para não levantar ainda mais a ira dos fundamentalistas). Mas alguém realmente acha que Jonas foi engolido por uma baleia? Basta ver que a baleia é um mamífero e que, por maior que seja, por sua garganta só passam, no máximo, peixes. Ou que Moisés abriu um mar com seu cajado? Ou que ele recebeu os Dez Mandamentos diretamente de Deus do alto do Monte das Oliveiras? Ou que Noé pegou uma espécie de cada animal do mundo e colocou numa arca? Calcula-se que existam mais de 8,7 milhões de espécies no mundo todo. E, mesmo se a gente acreditasse na veracidade da história, novamente voltaríamos para uma só família e um só casal de animais que deu origem a todos os outros a partir de então – haja problema genético nesse incesto forçado.

Nosso dia-a-dia está recheado de pequenas mentiras. “Não vai doer nada”. “Essa é a saideira”. “Tomar manga com leite mata”. “Se tocar o disco da Xuxa ao contrário você vai ouvir uma evocação diabólica”. “O boneco do Fofão tem um punhal dentro e é assassino”. “São mais de cem canais por R$ 39,90”. “Pra você serve tamanho 36, querida”. “Tudo a preço de fábrica”. “O patrão ficou maluco”. “Sem conservantes”. “Único dono”. “Meu casamento está falido, estamos perto de terminar”. “Não é nada disso que você está pensando”. “Não sou gay, é só uma fase”. “Não sou viciado, só não consigo dormir sem fumar um”. “É só a cabecinha”. “Não vi sua ligação”.

Como também bem lembra o livro de Veríssimo, “as mentiras se justificam, algo inevitáveis, para o convívio social. As pequenas mentiras, claro: aquelas que percorrem o dia-a-dia sutilmente sem causar estragos. Aliás, evitando grandes e irreversíveis estragos”. Mas como lidar com essa linha tênue do que é socialmente aceitável ou, até mesmo, necessário? E como se cuidar para isso não se tornar uma compulsão? Conheço pessoas que mentem compulsivamente, de forma até banal de serem desmascaradas, mas ficam tão imersas nas suas mentiras que chegam a se tornar verdades para elas. E, infelizmente, os seus respectivos narizes não crescem, como com o carismático Pinóquio.

Na época em que fiz terapia, ouvi do meu psicólogo: “A verdade dói, mas não fere. A mentira fere”. Todas as vezes em que me deparo com uma situação de inverdade, lembro-me disso. Por mais que a verdade possa ser dolorosa, nunca deixa uma ferida como quando uma mentira é descoberta. E para essa regra, não há exceção. Voltando à Bíblia, como teria dito Jesus: “conheça a verdade e a verdade vos libertará”.

Sem querer bancar a Poliana ou o Papa Francisco, torço para que tenhamos um mundo em que a mentira possa ser cada vez mais apenas uma brincadeira tola de 1º de Abril. Afinal, viver na mentira, por mais confortável que seja, é viver na escuridão.

P.S: Como não poderia deixar de entrar na brincadeira, há uma mentirinha solta no meio desse texto. Espero que não me julguem de pouco instruído antes de perceber que não passa de uma pilhéria. 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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