segunda-feira, 13 de abril de 2015

Catarse





"Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio, não sei mais o que dizer..."
Meninos e Meninas (Legião Urbana)

Em outubro de 2015 já serão dezenove anos desde a morte de Renato Russo. Quando ele morreu, eu tinha exatamente quinze anos e, confesso, não era nenhum fã enlouquecido da Legião Urbana, apesar de conhecer uma ou outra música. Mas o tempo passa e, vejam você, hoje eu sei muitas das músicas da banda que era comandada por Renato e tinha, em sua voz, sua verdadeira face.

E acredito que isso aconteça porque as músicas de Renato Russo são atemporais. Políticas ou simplesmente cantando as dores de cotovelo de forma intensa, é impossível não se identificar com as letras da banda que é, inquestionavelmente, a maior que o país já teve e serve de modelo para todo grupo de garagem que tenta a sorte por aí e quer se tornar relevante. De personalidade polêmica e sem papas na língua, Renato Russo foi um ícone de mais de uma geração. E seu nome está gravado na história da música brasileira, não importa a idade de seus fãs, que podem ter oitenta ou oito anos.

A introdução, dessa forma, se faz necessária, porque no último sábado me vi levado a pensar em tudo que Renato Russo e a Legião Urbana foram e são, apesar dos dezenove anos desde o seu fim. Para a comemoração de aniversário de uma amiga, um convite para o show da banda Mais do Mesmo, cover da Legião, que eu já conhecia de um outro show no ano passado. E assim, mesmo bastante gripado, me vi no Teatro Rival Petrobrás, no centro do Rio, cercado por uma multidão de todas as idades, que berravam as letras da Legião Urbana junto com o vocalista da Mais do Mesmo como se não houvesse amanhã.

O mais legal da experiência, que eu tratei quase como que antropológica na noite de sábado (viva a porcentagem 0 de álcool no sangue, por causa da forte gripe), foi observar como pessoas de idades tão distintas podem se identificar com canções escritas há tantos anos e ainda tão atuais. À minha volta havia casais de mais de quarenta anos, alguns que, certamente, já passavam dos cinquenta, e um ou outro jovem que devia ter, no máximo, dezesseis anos. E eu, super observador do comportamento alheio.

Algumas pessoas são sem noção, fato. No início do show, bem ao meu lado, por exemplo, estavam dois casais que eu não sei precisar a idade. Sei lá, eu olhava para eles e via meus pais, mas sem nenhum pudor de serem ridículos. Cantando a plenos pulmões as letras das músicas (Quase Sem Querer, Eu Sei e Há Tempos, por exemplo), eu não sabia se estava vendo uma banda cover da Legião Urbana ou a versão ao vivo de fãs da Legião Umbanda, o esquete divertidíssimo do programa Tá No Ar. Os movimentos eram bizarros, as dancinhas, totalmente hilárias, mas é fato que eles se divertiam muito, quase como se tivessem entrado em uma cápsula do tempo e voltado aos anos 80.

Ao mesmo tempo, aparentemente sozinho e vestindo roupas pretas, um garoto de no máximo dezesseis anos, encostado em um dos cantos do teatro, chamou a minha atenção. Apenas olhando para a banda no palco, ele cantou todas as músicas do setlist (e algumas eu nem conhecia) com um ar de real felicidade por estar ali naquele momento. Ele, que como eu nunca terá a oportunidade de ver uma apresentação ao vivo de Renato junto com a Legião, aproveitava aquele momento e, ouso conjecturar, sentia uma melancólica tristeza por, quem sabe, ter nascido na época errada.

Com um repertório contando apenas com sucessos consagrados, o show da Mais do Mesmo é um convite à catarse coletiva. Porque em tempos como os nossos, com Que País é Esse? ainda tão atual, Teatro dos Vampiros podendo ser trilha sonora da vida de tantos de nós, e Índios ainda nos levando à reflexão com sua letra tão impactante, é quase um crime a Legião Urbana não mais existir e Renato Russo ter morrido há quase dezenove anos.

Assim, não importa se você tenha dezesseis ou cinquenta e poucos anos, se assiste a um show compenetrado ou fazendo dancinhas estúpidas e ridículas. O que ficou para mim da experiência é que, apesar do som alto e que quase me deixou surdo, as músicas da Legião são eternas e falam com o Leandro Faria de hoje, assim como falaram tantas vezes com o Leandro que vivia no interior, que era hipócrita pra caramba e chorava ouvindo músicas de um realidade que ele não imaginava que conheceria um dia. Catarse, meus caros, catarse. E tem coisa melhor do que sentir-se livre ao som de música da melhor qualidade?

Obrigado, Renato, por um dia ter ousado se expressar e ter nos presenteado com suas músicas. A gente agradece mesmo, muito e de verdade. Muito obrigado! 

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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