sábado, 18 de abril de 2015

Cheesecake de Frutas Vermelhas




A água quente do chuveiro escorria lentamente sobre o corpo lânguido dela, embaçando os vidros e o espelho do banheiro. Envolveu-se num felpudo roupão branco de algodão. Enquanto escolhia a roupa que ia vestir, ouviu o canto do canário na varanda, esboçou um sorriso triste. Observou o clima do tempo pela janela do quarto: uma chuva muito fina, quase imperceptível, mas persistente, assim como a melancolia que habitava sua alma, caía lá fora. O céu estava cinza, mas de um cinza bonito, que dava o tom exato ao outono com suas folhas secas caídas ao chão. 

Vestiu a capa creme de tecido sintético, botas de couro marrom de cano e saltos longos e sentou-se defronte ao espelho da penteadeira ocupada por cremes, perfumes e toda a natureza de produtos femininos. Prendeu os longos e lisos cabelos negros num coque displicente, deixando alguns fios soltos nas laterais do rosto. Aplicou uma maquiagem leve, sentiu-se bonita. Calçou as delicadas luvas brancas de seda, pegou o guarda-chuva cor-de-rosa e saiu exalando no ar o cheiro suavemente adocicado do perfume de frutas cítricas. 

Era a primeira hora de uma tarde nublada de quarta-feira, fazia um frio ameno e aquela chuvinha continuava. A mulher, meticulosamente vestida e produzida para uma ocasião especial, desceu do táxi amarelo, adentrou o teatro, sentou-se sozinha em uma fileira de cadeiras vazias e durante as duas horas que se seguiram deixou que suas discretíssimas lágrimas lavassem sua alma amargurada enquanto assistia a ópera Madame Butterfly. Após o término do espetáculo, retocou a maquiagem, atravessou a rua e entrou no shopping que ficava em frente ao teatro. Caminhou durante longos minutos contemplando vitrines e pessoas, observava a tudo e todos cuidadosamente como se quisesse desvendar um grande segredo. Entrou numa chocolateria, fechou os olhos, inspirou profundamente deixando que o aroma sublime da loja invadisse todos os seus sentidos. Doces eram sua perdição e após sair do transe olfativo no qual se deixou envolver pelo aroma dos diversos chocolates não se refreou em gastar uma pequena fortuna numa belíssima caixa de bombons suíços recheado com licor de variados sabores. 

Passeou pela imensa livraria. Adorava livros, comprou um grande e grosso de receitas, lindamente ilustrado e caro. Levou também um CD de boleros clássicos. Saindo do shopping com algumas sacolas, caminhou em direção ao parque, atravessou-o com o guarda-chuva aberto em uma das mãos e as sacolas em outra. Parou no meio do parque, olhou atentamente as árvores, a chuva fina que caía do céu cinza e afastou um pouco o guarda-chuva para que os miúdos pingos tocassem seu rosto. Seguindo seu destino, passou na locadora e alugou Bonequinha de Luxo, tinha veneração por aquele filme, por Audrey Hepburn e por Moon River. 

Quase fim de tarde, antes de voltar pra casa, ainda passou no pet shop pra comprar o alpiste do canário, e no mercado, onde comprou os ingrediente para uma receita do livro novo que tinha acabado de adquirir. 

Já em casa, colocou o DVD pra rodar e deixou-se fascinar mais uma vez pelo charme eterno da bonequinha de luxo. Ao fim do filme, decidiu que era hora de saborear a deliciosa receita do livro, um maravilhoso cheesecake de frutas vermelhas. Tudo o que fazia era com muito capricho e esmero. Preparou primeiro a massa, lavou as frutas, amoras, morangos e framboesas, picou-as e, enquanto executava a receita, ouvia o Bolero de Ravel. Com o cheesecake quase pronto, colocou água no fogo para o chá que o acompanharia e serviu alpiste para o canário. 

O cheesecake de frutas vermelhas sobre a mesa era uma verdadeira obra de arte. Serviu-se de uma fumegante xícara de chá de hortelã e um generoso pedaço da torta, tomando um gole do chá que aqueceu até a alma. Com o cair da noite, o frio havia aumentado e, antes de saborear o primeiro pedaço da cheesecake, hesitou e pensou em tudo o que tinha feito, visto e sentido naquele dia. 

O banho quente e demorado que embaçou os vidros do banheiro; o canto do canário; a ópera; as pessoas no shopping; as vitrines lindamente montadas que enchiam os olhos; os aromas da chocolateria; o sabor do bombom suíço; os ares de requinte e sofisticação da imensa livraria; a beleza do parque numa tarde de outono; os pingos de chuva pousando mansamente em seu rosto; a escolha minuciosa das frutas no supermercado; o filme; o Bolero de Ravel, que ainda tocava, e o preparo da cheesecake. Tudo naquele dia parecia um ritual sagrado e, de certa forma era, havia algo de mágico em cada detalhe. 

Tudo havia sido meticulosamente preparado pra que fosse um dia perfeito e, como tudo que é perfeito não se repete duas vezes, mastigou lentamente um pedaço de sua obra de arte, saboreando cada pequena explosão de sabor no céu de sua boca. Enquanto deliciava-se com a torta, o sorriso melancólico reapareceu em seus lábios, mas agora era também um sorriso de vitória. Tinha conseguido finalmente transformar seu último dia de vida num dia especial. Depois de uma vida inteira mergulhada em tristeza e amargura, conseguiu enxergar a beleza das coisas, mesmo que por apenas algumas horas. 

Começou a sentir dores insuportáveis e tombou a xícara de chá com a mão, espatifando-a em pedacinhos no chão. Contorceu-se ao lado dos cacos de porcelana, enquanto o veneno de rato, que tinha comprado na pet shop junto com o alpiste e misturado à massa da cheesecake de frutas vermelhas, fazia efeito.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Bruna Brancati disse...

eu adoro esse texto =D
Parabéns!