quarta-feira, 15 de abril de 2015

Correndo Contra o Tempo




Escrevo esse texto num momento de extremo cansaço. Aquele instante em que a tela branca do computador parece brilhante demais para os olhos, já caídos. Na última semana antes de sair de férias e também a semana que antecede o aniversário da instituição religiosa da qual você é dirigente, quando há a sua principal celebração no ano – e na qual eu terei uma consagração especial, especificamente este ano. Acaba sendo a semana em que o seu trabalho resolve lhe brindar com uma dose extra de... trabalho! Sem reclamar deste nobre que dignifica o homem, mas a convergência desses fatores tem me deixado exausto nos últimos dias – sendo que tende a piorar nos próximos.

E tudo isso para me questionar: onde está o tempo? Este senhor tão bonito, que eu mesmo lembrei de outra forma nas palavras de Caetano em minha última coluna aqui no Barba Feita. Muitas das vezes, pode até não nos faltar força ou determinação, mas nos falta o tempo. Ouvi recentemente uma coisa que me fez refletir profundamente: hoje em dia a nossa competição não é com o concorrente; mas, sim, com o tempo. E é verdade. Vivemos numa eterna disputa contra o relógio, como se naqueles ponteiros não coubesse tudo o que a nossa vida exige.

Juro que nunca consegui muito entender, quando aprendia nas aulas de Filosofia, que Aristóteles, além de filósofo, era físico, metafísico, poeta, dramaturgo, estudioso da música, da lógica, da retórica, do governo, da ética, da biologia e da zoologia. Ou Leonardo da Vinci era cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico, conhecido ainda como o percursor da aviação e da balística. Como?! Tudo bem que o trabalho não era tão rígido e regulamentado como hoje em dia. Não existia a internet e, consequentemente, e-mails e whatsapps. Não havia o trânsito que consome algumas horas por dia. Ou a academia que nos forçamos a fazer de forma tão regrada em nome da saúde e da estética. Ou os compromissos sociais do fim de semana. Mesmo os religiosos. Evidentemente o ritmo era outro. Mas ainda assim, como ser tantos nas mesmas 24 horas?

Muitos dizem que os dias, meses e anos parecem correr mais rapidamente atualmente. Os cientistas alegam, contudo, que os dias estão mais longos: à medida que a Lua se afasta da Terra por irrisórios centímetros a cada ano, a rotação do planeta fica microssegundos mais lenta. Estaria a nossa falta de tempo não associada diretamente a ele, mas, sim, à percepção do tempo. Devorado em multitarefas nada Aristotélicas ou Davincianas, ele se esvai em nossas mãos, tão necessário quanto cruel

Afinal, quem nunca, mesmo que cansado, parou para olhar o Facebook pelo celular já deitado na cama? Ou continuou checando e-mails ou trocando mensagens instantâneas pelo telefone de noite, em casa. Ou acorda ouvindo o whatsapp apitar, imaginando que algo importante pode estar acontecendo desde cedo e você ainda está deitado – e muitas vezes, é uma tola corrente ou a mensagem de um amigo querendo comentar algo sem urgência.

Urgência. O tempo urge e ruge em nosso cangote. Quem domará essa fera? Ou acabaremos todos domados? Estou cansado demais para pensar sobre isso. Bom dia (ou boa noite) pra você também.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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