sábado, 4 de abril de 2015

Deve Ser Cansativo Ser Diva (do Pop) Gay




Uma canção de Alicia Keys, We Are Here, me fez pensar em como deve ser dura e cansativa a vida de uma chamada "diva do pop", que arrasta multidões de gays à shows, baladas e a uma veneração quase doentia por músicas de refrões fáceis e coreografias rebolativas e sensuais. 

A canção de Alicia nada tem a ver com os hits de balada, é tranquila, tocada ao piano, uma baladinha politizada. Mas Alicia já teve uma música que tornou-se hit das pistas de dança, não muito tempo atrás, a deliciosa Girl On Fire. Quem não dançou ao som da "garota em chamas"? Mas Alicia Keys não é uma "diva do pop gay" propriamente dita, e foi ouvindo We Are Here que cheguei a esta divagação. 

Alicia Keys faz parte de um grupo de cantoras pop que não parece ter sido fabricada. Ela é de fato talentosa, suas músicas são realmente boas, com letras consistentes e, em um ou outro momento uma canção de seu repertório cai no gosto do ávido publico gay, tornando-se um hit dançante, como foi o caso de Girl On Fire. O que me leva à conclusão de que as cantoras que fazem sucesso nas pistas de baladas GLS dividem-se entre as que sempre estarão na playlist do DJ, de forma incansável e obrigatória, e as que esporadicamente cairão nas graças das bibas por alguns meses, estas, que não parecem estar muito preocupadas em ser a maior diva gay do pop da última semana, me parecem ser artistas mais autênticas e livres. 

Afinal, já se estabeleceu há algum tempo quem são as tais “divas do pop” adoradas pelo público gay. E eu não tenho dúvidas de que elas até podem ter começado sem essa pretensão, mas quando lhes taxaram tal título, percebendo o poder de compra e fanatismo sem limite de tal público, agarraram com unhas e dentes este rótulo e trabalham incansavelmente para mantê-lo a qualquer custo. Minha questão aqui é que deve ser muito cansativo manter o posto de “diva gay do pop”, um verdadeiro trabalho braçal. Dois grandes exemplos de verdadeiras operárias do “pop gay” (este é um termo pejorativo, mas necessário à intenção do texto) são Beyoncé e Madonna. 

Madonna sempre foi amada pelos gays, mas há 30 anos, quando começou, esse mercado não era tão segmentado. Foi lá pelo final dos anos 90, com o álbum Ray Of Light, percebendo a explosão de uma certa ninfeta de 18 anos no cenário da nova música pop americana, uma tal Britney Spears, que Madge começou a explorar esse filão. E com o surgimento de outras tantas, como Christina Aguilera, Lady Gaga, Rihana e Katie Perry, não parou mais, afinal, Madonna é rainha e, como tal, não poderia perder a majestade. Então, tratou de produzir inúmeros álbuns, sempre com grande potencial pra bombar nas pistas. Sem contar as inúmeras turnês. Madonna ficou mais acessível ao assumir o rótulo de “diva gay” e já esteve na América do Sul diversas vezes. Até namorado brasileiro arrumou. Nem de longe lembra a estrela inalcançável que esteve no Brasil em 1993, naquela época sim, um verdadeiro furacão, mas hoje muito mais rica, poderosa e esperta. Sempre trabalhando extenuantemente para não perder o posto de rainha de seja lá o que for. 

Beyoncé é outra que começou como quem não quer nada (mas querendo tudo) com o trio Destiny Child, também no final dos anos 90, para logo em seguida separar-se das companheiras de grupo e seguir carreira solo. Foi em 2008, com a explosão de Single Ladies, que Bey cravou sua marca de “diva do pop gay” no mundo da música. Casada com um famoso produtor musical, Beyoncé já chegou a lançar, para delírio dos fãs, 17 vídeo clipes de uma só vez, um número surpreendente. Provando assim, que desta nova safra de divas, ela é a maior. 

Tanto Madonna quanto Beyoncé são mulheres lindas, sensuais, talentosas e poderosas, porém, vítimas de suas próprias escolhas. Me pergunto se elas não sentem vontade de mudar o repertório, cantar outro estilo de música ou simplesmente desaparecer por um tempo. Reciclarem-se. Me parece que o rótulo engessa. E é aí que falo de liberdade, produzir outras coisas, cantar outros ritmos e não ficar preso a um único estilo, fazendo a mesma coisa durante toda uma carreira somente para alimentar a sanha de um público que nunca se sacia. 

A verdade é que Beyoncé e Madonna são verdadeiras guerreiras, pois manter uma carreira em linha reta com pouquíssimas ou nenhuma curva, não é fácil. Exatamente por isso, elas surgem aos borbotões, as divas fabricadas, que se não tiverem talento, carisma e um ótimo marketing não permanecem. 

É o caso de Rihana e Katie Perry, que são talentosas e continuam cativas nas pistas gays. Lady Gaga partiu para um outro estilo, talvez cedo demais, mas vislumbrou algo que lhe dava mais prazer no momento e se jogou sem medo de ser feliz no jazz. Isso é ser autêntica e, por isso, gosto tanto da Germanotta. Ela não teve medo de perder seu alucinado e até alienado público pop, e foi fazer o que estava com vontade. Logo mais aparece com uma outra novidade, e quem gostar gostou, quem não gostar que se dane. 

Britney Spears, a mais fabricada de todas, tentou ser a nova Madonna, mas não deu nem pro começo. Tentou ser atriz. Surtou. Fez de um tudo pra ser notícia e permanecer na mídia. Deu uma sumida e tentou retomar a carreira, mas parece que Brit não tem fôlego e nem talento pra trabalhar como Madonna e Beyoncé. Christina Aguilera foi a “rival” de Britney por um tempo, começaram juntas, porém, Aguilera é uma cantora de voz potente e não teve muita paciência para o circo da música “pop gay”. Seguiu outros rumos na indústria fonográfica, mas continua cantando, porém sem o rótulo de “diva gay”. 

Shakira passou por uma metamorfose musical, começou com baladas em espanhol, sua língua-mãe, depois baladas em inglês, até tornar-se uma fazedora de hits dançantes irresistíveis, que arrasam também nas pistas gays. Sinto saudades da fase cabelo-preto-ruim e músicas em espanhol, mas tudo o que Shakira faz é tão bom, que é impossível não se render. De três anos pra cá outras tantas já surgiram: Taylor Swift, Miley Cyrus, Iggy Azalea, Ke$ha, Ariana Grande, Demi Lovato, Megan Trainnor entre outras. Resta saber que caminhos tomarão. 

Embora eu goste bastante de algumas das moças citadas, não posso negar que tem horas que minha beleza cansa. É muita diva gay e muita gay chata, cansativa, precisando melhorar e expandir o repertório. As bichinhas saem do armário cada vez mais cedo e ficam loucas pra mostrar a feminilidade em coreografias afetadíssimas, alienando-se para um mundo musical e cultural cheio de possibilidades. 

É um mundo tão diferente do universo gay de quando Madonna começou, por exemplo. Barbra Streisand era considerada a “diva gay” dessa época, um nome que, tenho certeza, pouquíssimos fãs de Beyoncé, Katie e Rihana fazem ideia de quem seja. Barbra tornou-se “diva gay” porque os fãs passaram a admirá-la como artista, diferente de hoje, onde os fãs admiram as artistas por elas já chegarem ao mercado rotuladas como tais. Ser “diva gay” lá atrás, era uma conquista de artistas que dialogavam de maneira glamorosa com este público. Hoje elas já chegam fabricadas, prontas para o consumo imediato. 

E assim seguem, fabricadas em grande quantidade. As que realmente são boas, não param de criar hits, coreografias e lançar modas. As que não são, mostram-se um produto descartável, que após determinado período de uso definham e desaparecem. Duráveis ou não, sem sombra de dúvidas, alimentar essa indústria musical purpurinada não é tarefa fácil, as “divas do pop gay” trabalham arduamente e são admiráveis por isso. 

Mas ouvir Alicia Keys cantando We Are Here e constatar que ela, assim como Cher, Whitney Houston e outras maravilhosas, não se prendeu ao rótulo depois do grande sucesso de Girl On Fire, me deixou com um sorriso nos lábios. Qualquer rótulo é limitador e injusto e não devemos nos prender a eles para agradar ninguém, mesmo que isso te faça uma estrela!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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