sábado, 11 de abril de 2015

Fotografia




Hoje, eu roubei tua foto. 

Aquela em que você está abraçado com a nossa melhor amiga. E fiquei olhando pra ela, pra tua imagem, por um longo tempo. Analisando cada detalhe, cada traço do teu rosto, da tua expressão. 

Meus olhos tontos passearam pela tua tez tão branca, teu nariz fino e proeminente, teus óculos de grau, o sorriso discreto de lábios cerrados, teus braços magros, tua camisa preta de listras brancas horizontais, reparei na luz da fotografia cinza, em tudo que estava ao seu redor e em nossa amiga te abraçando tão carinhosamente. Senti inveja. Você nunca quis tirar uma foto assim comigo. Fugiu de todas as tentativas. Deu desculpas, avacalhou as fotos. Como se uma foto ao meu lado pudesse "queimar teu filme" de alguma forma. Magoou-me, apesar de sempre afetuoso. 

Eu só queria uma lembrança, pra quando estivéssemos assim distantes. Uma lembrança duradoura e concreta, pra que eu nunca esquecesse o homem lindo que amei em silêncio durante tanto tempo. E hoje, quando encontrei essa foto de você tão bonito, daquela época em que fomos tão felizes, apesar dos amores não correspondidos, convivendo diariamente no mesmo ambiente de trabalho, não pude deixar de achar graça. Você escapou durante tanto tempo de me dar sua lembrança eternizada numa foto e, no entanto, por acaso, acho esse retrato, que me faz voltar no tempo e reviver esse amor aqui dentro, no mais íntimo de mim. Tudo fica mexido, mas não sofro. É uma bagunça boa, na minha cabeça, estômago e coração. 

Não é só a imagem de um rosto perfeito que amei. É o resgate de todas as sensações experimentadas, da dor e da delícia de amar sem ser amado. 

Não, definitivamente não é só uma imagem congelada. A fotografia tem movimento, e eu vejo todos eles, como se estivesse atrás da câmera antes do "click" e depois também, e eu já nem estava mais lá, ela foi tirada depois que eu saí de cena, depois que me retirei com meu amor atravessado na garganta. Mas eu olho a foto e vejo todo o movimento. Vejo você reticente, porque realmente não gostava de tirar fotos. Vejo você gracioso, cedendo. E vejo uma porção de sentimentos dançando no ar. 

Lembro da canção de Leoni: "e o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia..." 

Laços invisíveis, mas de uma profundidade tão avassaladora, que até hoje, tanto tempo depois, me fazem questionar: por que não eu?, lembrando outra canção do Leoni. Na verdade sei a resposta, mas não me importa mais. Agora você será sempre meu, vou poder lembrar e fantasiar esse amor que não foi, como eu quiser, porque hoje, eu roubei tua foto.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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