domingo, 26 de abril de 2015

Meu Aluno Perguntou...





Tenho um aluno muito querido que me considera uma espécie de guru. Ex-aluno na verdade. Dei aula pra ele na sexta e sétima séries, lá se vão uns quatro anos, mas criamos uma relação legal que continua até hoje. Ele ouve com atenção (na verdade lê no Whats App) tudo o que tenho a dizer. Os nazistas: qual foi a deles? Dilma ou Aécio? Por que esse capitalismo selvagem? Só pergunta fácil!

Essa semana ele queria saber sobre o amor, olha que bonito. Adolescente, enrolado com uma menina que ele gosta e que parece não querer nada, me perguntou se o amor existia mesmo, e se era pra sempre. Disse que não conseguia enxergar muito amor no mundo, que as relações entre as pessoas parecem ser cada vez mais frias e distantes. Que no Facebook todo mundo parece se odiar. E isso tudo me fez parar pra pensar um pouco. 

Desculpa gente, nem me apresentei. Meu nome é Eduardo Maiolino, tenho 29 anos e sou professor de História. Também sou baixista, roqueiro e vascaíno; prefiro Beatles, Nutella e futebol com pontas; gosto do Jim Carrey até em filme de comédia pastelão, pra desespero da minha mulher. Sou de família italiana e adoro pizza, mas troco qualquer coisa por um rodízio japonês; não tenho a barba feita: ela nem nasce direito aqui perto do queixo. Me considero um cara de esquerda, mas adorei conhecer os EUA. Sou ateu. Fui convidado a escrever aqui pelo Paulo Henrique Brazão, que por coincidência, juro, é o meu cunhado. Ele é um grande escritor - sou fã - e fiquei honrado pelo convite. É a minha primeira vez, então não repara não. 

As perguntas ali em cima me fizeram parar pra pensar por que tudo o que eu achava saber sobre amor mudou há mais ou menos um ano e meio, por dois motivos: comecei a me dar conta que minha filha recém-nascida seria tratada com todo carinho possível, mas que isso contrastava com o abandono que os meus alunos se encontravam no colégio. É uma situação de calamidade: salas sem luz, ar- condicionado quebrado, falta de pilot pra escrever, banheiros sem água pra dar descarga. Em 2015. E tudo isso multiplicado por um contexto familiar e social em alguns momentos mais complicado ainda. Não existe amor por essas crianças. 

Como professor, convivendo ali diariamente, percebi que muitas delas precisam muito de amor. De atenção, carinho, pra tentar buscar algo maior. Às vezes, é só isso que falta. É claro que existem exceções, mas, pra grande maioria, a escola talvez seja a única oportunidade que elas terão na vida, e o Estado as trata muito mal. Na sala de aula então tento ser professor e amigo. Passo o conteúdo e converso sobre a vida e o futuro, buscando entender um pouco de cada um. Minha matéria é ótima pra isso. A gente mostra o passado pra entender o presente, e quem sabe construir um futuro diferente. Isso tem que ser feito por todos. É difícil, mas se nós não fizermos, quem vai fazer?

Respondi ao meu aluno que a saída para os questionamentos dele era tentar ser a melhor pessoa possível. Num mundo onde o ódio parece se multiplicar, ame. Onde casais são humilhados por serem do mesmo sexo, busque o respeito pelas diferenças. Seja justo, correto, e tente passar isso para as próximas gerações. É essa resistência que pode fazer o mundo dele parecer menos árido (é o que faz o meu pelo menos) e, no futuro quem sabe, a humanidade viver melhor. 

Parece piegas, mas por que não? Nós somos muito pequenos nesse Universão, e demos muita sorte de estarmos aqui (já viram a série Cosmos no Netflix? Parem tudo agora e corram pra lá). Pra que essa raiva? 

“Ter fé e ver coragem no amor”, disse um ídolo meu. Espero que meu aluno tenha entendido. 

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Leandro Faria  
Eduardo Maiolino tem 29 anos, mora em Niterói, é músico e professor de História, mas não lembra data nenhuma. Só a do aniversário da filha.
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