quinta-feira, 30 de abril de 2015

Sexo Oral - # 05





Estamos de volta, gente! Como o mês de março foi corrido e ficamos sem a coluna mais bacanuda da interwebs, esse mês temos uma edição extra e mega especial! E como convidado da vez temos Esdras Bailone, o autor dos maravilhosos textos de sábado aqui do Barba Feita. O moço veio me ajudar a responder as dúvidas de vocês, queridos leitores. 

Mas como o objetivo aqui é ajudar, temos também uma outra participação mais do que especial nessa edição... Posso adiantar que ela é inteligente, engraçada e bonita pra caramba. 

Vamos aos emails selecionados para essa coluna?
Meninos, preciso de ajuda!  Leio o Barba (escondido), adoro o que vocês escrevem, mas estou vivendo uma grande dúvida. Tenho 21 anos, sou seminarista e tenho desejos por homem. É feio, eu sei, mas é o que faço. Entrei no seminário porque meus pais são muito simples e não tinham condições de bancarem uma universidade para mim e aqui, querendo ou não, estou fazendo duas graduações (teologia e, no meu caso, história). Apesar do que dizem e de saber que rola sacanagem no seminário, eu nunca fiz nada com homem, por falta de oportunidade. Largar o seminário não é uma opção (estou no meio da faculdade), mas estou me sentindo meio hipócrita. Aliás, nem sei porque estou escrevendo, já que sei que vocês vão me julgar muito, mas, fiquei com vontade de ler suas opiniões.  O que faço, dou vazão aos meus desejos? - Seminarista 
Silvestre: Oh, Seminarista, muito obrigado pela leitura (mesmo que escondido. Mas escondido é sempre mais gostoso, eu te entendo!) e ainda mais por enviar essa perguntinha pra gente. Primeiro de tudo, não tem nada de feio você ter desejo por homens. Você tem que se aceitar antes de qualquer julgamento. Você não escolheu o seminário, mas está aí pelas condições da vida. Então não acho que você tem que se sentir culpado de nada. 

Vou te dizer que nunca ouvi falar sobre o que rola entre as paredes do seminário, mas imagino que existam suas “escapadas”. Não vou dizer que apoio você a aprontar alguma coisa. Quero dizer que apoio em você não se julgar. Mais uma vez, você não foi parar aí por conta de uma possível vocação, então, caso acabe rolando alguma coisa, não deixe o sentimento de culpa te dominar. 

Meu querido, só vou pedir que você possua planos para quando sua graduação terminar e só me prometa que sua meta número um será ser feliz. E não pense que a gente julga você por seus desejos e impulsos. 

Esdras: Caro Seminarista, acho bacana a sua preocupação com a instituição de Ensino em que você estuda, porém, me parece que a questão aqui não é moral, não está relacionada a uma culpa que lhe atormenta. Afinal, parece que está bem claro pra você que o seminário não é nem nunca foi sua vocação, as circunstâncias é que te levaram a isso. 

É importante enfatizar que se fosse sua vocação, não haveria nenhum problema em você ser gay, apenas teria que abrir mão de seus desejos para dedicar-se sinceramente ao sacerdócio, ou não. Como bem disse, muitos vivem uma vida dupla sem crises de consciência. 

Mas voltando à sua questão, se o curso de Teologia é apenas para manter o de História, esse sim seu verdadeiro interesse, se joga, gato. Tá com vontade de dar vazão aos seus desejos, vá fundo, mas com prudência: camisinha e discrição, pra que ninguém no curso de Teologia descubra e você acabe perdendo sua bolsa. Quando acabar o curso, vá viver sua vida e ser feliz sendo um belo historiador e quem você realmente é!  
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Olá, tudo bem? Tenho 16 anos e sempre leio o que escrevem, mas gosto mais quando tem colunistas meninas convidadas, principalmente a Nanda Prates. mas nâo fiquem triste, ok, vocês também mandam bem. É o seguinte: eu sou menina e dei um beijo numa outra menina do time de volei da escola. Aconteceu e foi legal. Sou lésbica? - Mocinha Confusa
Silvestre: Olá moça! Olha, não fico triste pelos elogios direcionados às meninas que escrevem no Barba por dois motivos: também adoro quando acontece texto feminino e AMO Nanda Prates. Eu, como menino, diria pra você curtir e ir se descobrindo, mas sem cobrança. Mas resolvi chamar alguém que poderia te ajudar bem mais que eu, aproveite! 

Nanda Prates: Primeiro: muito obrigada mesmo pela fofura, viu? Tô toda besta aqui Agora, vamos lá... Gostaria de poder te dar uma resposta simples e fácil, mas a verdade é que ninguém além de você mesma vai saber responder a essa pergunta, baby. O que eu posso te dizer, como uma mera espectadora que já teve 16 anos, um punhado de dúvidas e um sem-número de medos, é que não necessariamente. 

Você pode, sim, ser lésbica. Você pode ser bissexual. Você pode ser, por exemplo, como eu: uma garota heterossexual que vez ou outra, quando a vontade bate, beija meninas. Falando assim parece meio sem sentido, né? Eu já beijei garotas, achei legal na hora, vez ou outra acho outras meninas atraentes, e ainda assim me entendo como heterossexual. Alguns duvidam, outros não entendem, mas essa é a beleza da coisa: ninguém tem nada que entender. Quem tem que me entender sou eu. A sexualidade humana é bastante ampla, extremamente complexa e tem muito mais camadas do que muitos gostam de pensar. 

Em suma, você pode ser várias coisas, mas o mais importante: você não é obrigada a definir o que você é nesses termos ou se deixar limitar pelas ideias binárias de sexualidade que são impostas a você. Você se sente atraída por meninas? Tem vontade de beijá-las? Faça isso, então. Você não sabe muito bem ainda? Tem curiosidade de ficar com garotos? Vai com fé! Explore sua sexualidade da forma que parecer mais adequada a você. Ou não explore. Da mesma forma, você não PRECISA ficar com garotos para saber que é lésbica - assim como o grosso dos heteros não se sentem na necessidade de ter experiências homossexuais para se definir. 

No fim das contas, seja você hetero, bi, lésbica, assexual, o que importa é se permitir ser o que é, e não se deixar oprimir pelas expectativas alheias. E que você entenda que nada é errado. Nada é ruim. Nada é anormal. O mundo não é o lugar mais aberto à diversidade, e é difícil sentir que você não cabe em determinados padrões, mas se deixar moldar pelo que os outros querem é um exercício doloroso e infrutífero. Qualquer que seja sua orientação, rodeie-se de pessoas que a aceitem e saiba que você não está sozinha. Espero ter ajudado mas, na dúvida, mando um abraço de urso virtual, porque abraços - muito como sorvete de pistache - fazem tudo ficar bem no final. 

Esdras: Olha, meu bem, a Katie Perry também beijou uma garota, achou super legal e me parece que ela não é lésbica. Agora, se você sentir vontade de continuar beijando garotas e mais do que isso, fazer sexo com elas, você pode sim se considerar lésbica ou bissexual, se ainda tiver vontade de ficar com garotos também. No mais, não se preocupe tanto com rótulos, você só tem 16 anos e um mundo de possibilidades pela frente a ser explorado. 

PS.: Eu tbm adoro a Nanda Prates! E a Bárbara Cortez, você já leu os textos dela? Se não leu, faça isso já, ela também é sensacional! 
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Oi, gatos, como vão? Eu acompanho o blog, adoro os textos e, principalmente, as dúvidas dos leitores. Me divirto com as perguntas e com as respostas de vocês, tanto que resolvi escrever. Eu tenho um problema que me atrapalha um pouco no meio gay: sou afeminado. Já tentei ser mais durinho, falar grosso, mas gente, não dá, eu sou assim e sinceramente já liguei o foda-se.  Mas pergunto: onde acho homens que gostem de afeminados como eu? É dificil, viu! Todo mundo só quer macho padrão macho e eu sempre sobro. OBS: tem como passar o contato do Leandro Faria e do Paulo Henrique? Acho uns gatos e vai que, né? - Afeminado  
Silvestre: Oi, Afeminado. Olha, primeiro de tudo: não tente ser o que você não é. Esse é o maior erro de todo mundo. É aí que as pessoas acabam por se perder. E tem cara que curte meninos mais delicados. Onde encontrar? Não sei, mas juro que descobrindo eu te aviso! 

Mas tenho um pedido pra você, se assuma! Seja você mesmo. Essa coisa de não sou e não curto afeminados é algo que todo mundo reproduz pra pagar de machão e, em muitos casos, acabam não conseguindo. Aos poucos, tenho certeza que essa “descrição” dos apps da vida vai acabar mudando. ;) 

Ah, sobre os meninos, não posso ajudar, mas que eles são um charme, isso são mesmo, viu?! 

Esdras: Afeminado, darling, temos algo em comum, e como você, eu também já liguei o foda-se faz tempo. Infelizmente, vivemos em um meio extremamente estereotipado e preconceituoso, e não, eu não estou falando da maioria hétero, branca, dominante, e sim do próprio meio gay, onde nós bibinhas delicadas sofremos uma discriminação patética. 

Mas fique despreocupado, apesar da super valorização de gays que reproduzem o comportamento masculino heterossexual padrão e de muitos comentários ferinos, que às vezes machucam fundo, há público pra todos os gostos. Você só não pode direcionar seu objeto de desejo a tipos que claramente "não são e não curtem afeminados", tudo um bando de bicha iludida, que tá no mesmo barco que você, mas pensa que não, tadinhas. 

Enfim procure por pessoas que valorizem mais o conteúdo do que a embalagem e, se a questão for só sexo, no quarto escuro não se vê nada. Importante é que você fique longe de pessoas preconceituosas, porque uma coisa é gosto/atração a outra é escrotidão. Aceite que muitos gays não sentem atração por meninos mais femininos, mas nunca, jamais aceite ser discriminado por ser do jeito que você é. E como diria um blogueiro que adoro: se jogue, dê pinta, seja fabuloso! 

Quanto aos contatos que pediu, infelizmente não será possível, pois nossos colunistas gatos são muito bem casados e seríssimos!  Beijo.      
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Queridos, como estão as coisas? Eu acho o blog de vocês muito bom e resolvi mandar essa pergunta, porque pode ser que me ajudem. Eu sou gordinha, mas me acho bonita. O que faço pros meninos me acharem também? Beijos! - Gordinha Insegura
Silvestre: Moça, vamos começar mudando essa atitude? Eu sei, não é fácil. Eu fui um gordinho (ainda sou) e com óculos quando era adolescente. Crescer e se sentir bem com nosso corpo é algo que você vai conquistar com o tempo. Mas vou pedir para que você tire da sua cabeça esse pensamento de “mas me acho bonita”. Você é bonita. Você é linda! Meninos são complicados, uma caixa de Pandora. 

E pedi para Nanda Prates vir conversar com você. Presta atenção: 

Nanda Prates: Eita, essa me doeu no coração, por motivos de: tão eu! Vamos voltar do começo, vou contar da minha história mas juro que tem um propósito... 

Eu sempre fui gordinha. Não só gordinha, mas o famoso "grandona". Ombros, quadris, tudo grande, tudo largo. Pra piorar, minhas duas melhores amigas eram gostosas. Uma pequenininha, minhonzinha, mas com um corpão. A outra alta, magra, parecia uma modelo. E eu lá, o Pé Grande. Eu me sentia sozinha, rejeitada, e eu achava que nenhum garoto queria ficar comigo. Eu me preocupava tanto com garotos me achando bonita que sofria. Sofria porque minhas amigas (não essas, claro, as ruins) ficavam com os garotos que eu queria ficar. Sofria porque me arrumava com todo o cuidado pras festinhas e ninguém me falava que eu estava bonita. Sofria porque curtia as roupas e aí quando ia experimentar nada cabia, tudo apertava e pegava nos lugares errados. 

Aí eu fiz uns 20 anos e as coisas mudaram. Eu decidi que ia fazer as pessoas me acharem bonita de qualquer jeito. Fechei a boca e comecei a me exercitar. No começo foi ótimo, eu me sentia super bem, disposta, um exemplo! Aí eu fiquei magra. Eu finalmente estava dentro do padrão que achava bonito. De repente, o pensamento de engordar me parecia a pior coisa do mundo. Eu deixava de sair pra me exercitar. Treinava muay thai e jiu-jitsu todos os dias, corria, fazia spinning. Contava cada caloria que entrava na minha boca - e em mais de uma ocasião coloquei pra fora as que achava que não deviam estar lá. Eu estava miserável, neurótica, doente, e ainda assim obcecada com apenas uma coisa: parecer bonita. 

Funcionou até certo ponto. Garotos que não me notavam começaram a me achar bonita. Mas vários outros continuaram indiferentes a mim, ou me achando feiosa mesmo. Grande demais, ombruda demais, caruda demais. E era nesses que eu focava. Eu vivia pelos elogios, pelo outro, pra ser desejada, pra ser chamada de bonita. Eu conseguia alguns, não conseguia outros, e no fim das contas o que ficava era o mesmo: foda-se o que achavam, eu continuava não me achando bonita. Porque na verdade isso de querer que os outros te achem bonita não dá certo nunca. Sempre vai ter um "mas". Um "sou bonita MAS sou gordinha". Até minha amiga modelo magrela já ouviu mais de uma vez que tava "magra demais" e que homem "gosta de carne". Enquanto isso, lá estava eu dando tudo pra ter menos carne! Olha só que bobagem. 

Hoje eu tenho 25 anos. Descobri o feminismo, faço exercícios diários de auto-estima e auto-apreciação, e ainda assim sofro. Caio em armadilhas e tenho uma relação muito da esquisita com os homens à minha volta, nesse cabo-de-guerra entre minha consciência feminista e meu emocional - aquele mesmo de quando eu tinha 15 anos e só via uma gorda inútil. 

Por que eu falei isso tudo? Pra tentar te mostrar que, por mais compreensível que seja essa sua vontade, você não tem que querer que os outros te achem bonita. A "beleza" é um conceito tão opressor, tão maldoso e o pior: frágil. Você se acha bonita? Todos os parabéns! Isso sim é uma conquista gigantesca. Você não precisa de elogios, de feedback, de gente te falando que você é bonita quando você já tem a aprovação mais importante de todas: a sua. Isso sim é bonito. E raro. Parece balela esse negócio de amor próprio mas eu vou te contar um segredo: esse é o único que é pra sempre. Que é teu. E que não está sujeito a flutuações da indústria da moda ou qualquer que seja a tendência corporal do momento. 

Eu não sei quantos anos você tem, onde mora, quem são as pessoas que te cercam. Mas continue se achando bonita, ponto. Não bonita "mas gordinha". Bonita. Certamente quem valer a pena na sua vida vai te ver, te achar bonita, te achar incrível. E o resto? O resto que se foda. 

Esdras: O mais importante você já tem, que é sentir-se bonita, isso é o máximo e é o amor mais importante que você pode e deve ter na vida, o próprio. Sendo assim, não há muito o que fazer. Pessoas que se gostam como são, seguras, de bem com a vida, atraem aquilo que querem naturalmente. 

Portanto se você acha que os meninos não percebem a sua beleza, desconfio de que esteja enganada. Talvez você esteja apenas distraída e falte ser um pouquinho mais ousada, menos tímida, quem sabe, e tomar a iniciativa, por que não? Vai que os caras acham que você é areia demais pro caminhãozinho deles. Um forte abraço queridona! 
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Existe melhor maneira de terminar o mês de abril e já aquecer as turbinas para maio? 

E estamos adorando as perguntas de vocês. Cada uma é mais especial que a outra e tá sendo bem bacana essa troca. Se você ainda não enviou e morre de vontade, não fique aí querendo, envie logo que a gente responde. E se já falamos com você uma vez, mande de novo que vamos adorar continuar o papo. 

Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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Um comentário:

Homem, Homossexual e Pai disse...

excelente post! muito legal mesmo! vou ver se tenho alguma duvida para ser respondida! parabens