quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sobre Referências e Reverências





Uma das coisas que mais me divertem na TV hoje em dia (na verdade, não mais, porque a temporada já acabou) é o quadro Silvio’s Greatest Songs, do programa Tá no Ar – A TV na TV, da Globo. Uma simples imitação de Marcelo Adnet para o ícone Silvio Santos cantando hits como All About That Bass, Take My Breathe Away, Estoy Aquí, Thrift Shop, Gordinho Gostoso, até a música tema de fim de ano da própria TV Globo. Uma sátira, uma referência e, principalmente, uma reverência para uma figura que transcendeu o que faz. Silvio Santos está no imaginário de grande parte das pessoas que eu conheço e das que eu não conheço também.

E foi justamente isso que me fez refletir: ao vir contar o quanto estava me divertindo com o quadro para uma colega da empresa, nascida na década de 1990, ela falou que tinha ouvido falar nele, mas que não achava graça porque não tinha muita noção de quem ele era. Poderíamos pensar que era falta de cultura. Mas, na verdade, é o ciclo natural das coisas. Provavelmente, ela é uma pessoa que sabe muito bem quem é Ariana Grande ou Sia e usa o Snapchat para contar a vida aos amigos. Novos tempos. Novas referências. Então reparei o quanto sou de outra geração – e quanto aqueles que para mim são referência irão naturalmente morrer, física ou figuradamente.

Eu também imito Silvio Santos. Muitos o imitam. Aliás, imitação é até uma virtude minha. Eu imito a minha chefe (isso ela sabe) e cheguei a ter que fazer uma vez a imitação dela para 200 pessoas da empresa na festa de fim de ano. O que ela não sabe é que faço com tamanha perfeição que já fiz pegadinha com pelo menos duas pessoas por telefone me passando por ela – juro, nada que comprometa o trabalho (quem sabe, um dia peço um aumento pro RH por telefone...). Pode ser um pouco vergonhoso admitir, mas também imitava Hebe Camargo, Paulo Francis, Nelson Gonçalves, Clodovil... E aí me dei conta de que estão todos mortos (te cuida Caetano Veloso...). O tempo passou para eles e eles partiram. Provavelmente, não são conhecidos por boa parte desses que também nasceram na década de 1990.

Dia desses vi o Troféu Imprensa no SBT. E percebi o quanto Silvio Santos está velho. Logicamente que gafes constantes dele povoam os Top 5 do CQC ou vídeos bombantes no Youtube. Mas você constatar que lá está um ícone sucumbindo a olhos vistos para o inclemente ciclo da vida é duro. Talvez porque seja a certeza de que um dia chegará para você. “Cara, é o Silvio Santos! Aquele que quase foi presidente do Brasil, que usava um microfonezinho que ninguém mais tinha (ele não usa mais, lamento informar), o mesmo que sambava na cara da sociedade lançando aviãozinho de dinheiro pras suas ‘colegas de auditório’ se digladiarem”. Mas sua dentadura mal cabe na flácida boca, que articula com dificuldade as palavras. Seu timing com a plateia e demais participantes do programa não é mais o mesmo. Seus olhos não têm mais a mesma vivacidade. É questão de tempo.

Com cada um deles, vai-se um pouco das nossas referências. E aí é se agarrar no mesmo ciclo da vida, até então inclemente: novas referências irão surgir. O mais bonito de viver está nisso; a roda da vida gira e, se leva um, um dia te traz outro. Quem sabe não é chegada a hora de nós sermos a referência para alguém?

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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