sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sobre Respeito (é Bom e Eu Gosto)




Esses dias vi a imagem acima. Um sorriso apareceu em meu rosto por ver um casal de mãos dadas no metrô. Gosto destes gestos simples da vida. Em meio ao furacão que a vida nos prega de decepções e frustrações, coisas assim me aliviam do estresse diário. Não sei porquê fui ler os comentários sobre a foto. Se eu tivesse parado para pensar um minuto no que a legenda dizia eu não teria feito isso.

A legenda em questão pedia apoio ao casal. Com certeza, os administradores da página já imaginavam o que viria a seguir. Entre pessoas que como eu achavam lindo o gesto do casal, uma enxurradas de estúpidas de frases sem sentido e repletas de preconceito zombavam da cena. Sim. Isso mesmo.

Descobri que o casal se tratava do tailandês Naparuj Mond Kaendi e seu namorado alemão Thorsten Mid. Eles estão juntos há dois anos. Como eles não fazem parte do jocoso padrão estabelecido pela sociedade margarina, onde tudo é branco e heterossexual, eles sofreram toda espécie de discurso de ódio. Quer seja racista, xenófobo, homofóbico. A mesma sociedade que rejeita os gays por serem gays. É estúpido.

Onde está o problema no casal? Eu não vejo nenhum, mas alguém disse que homens que possuem o corpo esculpido em academias só podem namorar entre si. Ou homens gordos, barbudos e peludos não se relacionam com magros esquálidos. Ou que mulheres acima dos sessenta anos não podem demonstrar amor no horário nobre. Ou que gays másculos não aceitam homossexuais afeminados. Muitos destes perfis são extremamente preconceituosos. Todos têm o direito gostar do que quiserem, claro, mas isso não dá o direito de rejeitar alguém por ser feliz como é.

Então, eu gostaria de escrever para você que é gay assim como eu, mas que acha que é superior por fazer parte (ou achar que faz parte) desta sociedade margarina. A partir do momento que acredita que o seu padrão de conduta é o único correto, temos um enorme problema. As diferenças existem para serem respeitadas. Isso não dá o direito a ninguém de recriminar alguém por amar quem ela quiser. Sendo assim, você não poderia ser gay por amar alguém do mesmo sexo que você.

Ao ver a demonstração de afeto entre Naparuj e Thorsten e achar que eles não se merecem, sua falta de respeito para com o próximo é imensa. Ninguém passa ou passará por essa vida sem sofrer preconceito, é verdade.  Mas cabe a nós mudarmos isso. Cabe a todos aqueles que acordam de manhã e precisam enfrentar os dissabores da vida.

Expor sua opinião não é liberdade de expressão e essa não tem nada a ver com falta de respeito. Desde cedo aprendi que quem fala o que quer, ouve o que não quer. Guarde para si os rancores que a vida lhe oferece ou, melhor, leve-os para um terapeuta, porque isso é grave. Transforme essa mágoa em força para poder construir um ser humano melhor do que é hoje e não aquilo que esta sociedade tão preconceituosa espera. E se mesmo assim você preferir bajular aqueles que não te representam e viram a cara por se achar uma aberração, eu serei obrigado a concordar que você merece mesmo fazer parte desta sociedade margarina. Porque é tão hipócrita quanto ela.

E para quem ficou curioso, o casal Naparuj e Thorsten está muito bem. Obrigado. Obviamente, eles não estão nem aí para os comentários preconceituosos e agradeceram por todo o carinho das pessoas que os apoiam. E existe coisa mais linda que o amor? E apoiar o amor entre as pessoas, quem quer elas sejam, isso sim é respeito.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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