segunda-feira, 6 de abril de 2015

Uma Noite (Re)Inventada





Deitado no chão de terra, largado no meio daquela praça, teve um vislumbre estranho. Vida. Morte. Continuidade. Aquilo não terminaria ali. Acima das construções, um céu azul outrora límpido, ia sendo devorado por nuvens brancas como algodão. Mas não eram nuvens que anunciavam a chegada da chuva. Era um sinal – e ele sabia disso! - de que, finalmente, ele encontraria seu caminho. Fechou os olhos e agradeceu. Não sabia bem pelo quê, mas achou que tinha de agradecer. A gente sempre sabe quando é hora para agradecer (ou pedir) a quem quer que seja, não importa porque ou pelo quê. E então, sentiu a vida esvair de si. 

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Horas antes, ele andava perdido pelo centro da cidade. ‘Ele’. É estranho se referir a alguém sem lhe dar um nome, mas em seu caso, o pronome se encaixa bem. Apenas um no meio daquelas pessoas que ele não conhecia ou fazia questão de conhecer. Os bares daquela região universitária da cidade lotados, os risos, os cheiros, a vida pulsante. Cada uma daquelas pessoas tinha uma vida, uma história; tinha problemas que ele sequer imaginava quais seriam. Mas que ali, naquela noite de sábado, eram apenas rostos e risos. Ele tinha muito no que pensar. Aliás, resolvera não mais pensar. Todas aquelas dúvidas em sua cabeça seriam (ou não) deixadas para lá. 

Naquela tarde se decidira logo cedo e agora estava ali, pronto para ver o que aconteceria. Vestira sua roupa mais confortável, deixara sua casa num dos bairros ricos da cidade e saiu sem destino, caminhando. Se deu ao direito de abrir mão do carro do ano e se permitiu fazer algo tão corriqueiro: caminhar. Sem pressa, sem urgência, sem pensar, entrou no primeiro coletivo que passou e, ao se dar conta, estava ali, na área boêmia e divertida da cidade. Nem percebera, absorto que estava em seus próprios pensamentos, mas a tarde findara e a noite tomara conta do céu, tingindo-o de negro, mesmo que salpicado de estrelas brilhantes. Não teve como não sorrir ao imaginar que seria naquela noite que tudo deveria fazer sentido em sua vida. 

Fora do coletivo, apreciou a vista daquela praça margeada por bares e com um belo canteiro no meio. Sentou-se na grama próximo a um chafariz e comprou de um ambulante uma lata de cerveja que passou a bebericar enquanto observava um grupo de garotos que conversam animadamente um pouco mais à sua frente. Jovens, descolados, com roupas apertadas e coloridas. Quantos anos deveriam ter aqueles guris? Uns 17, 18 anos no máximo? Ele, não muito mais velho com seus 25 anos, se perguntava porque sempre fora tão compenetrado, sério... bobo! 

Primeiro fez o que esperavam dele. Terminou o ensino médio, prestou o vestibular, foi cursar medicina. O orgulho dos pais, certamente. Se formou e, aos 23 anos, já iniciara a residência. No hospital conheceu a namorada, com quem tinha planos de se casar. Planos dela, claro. Afinal, ele nunca teve planos. Ser médico era o sonho de seu pai. Um filho cirurgião sempre foi o que a mãe mais quis. Casar era o que a namorada queria. E ele, o que queria para sua vida? 

Duas, três, quatro cervejas ele tomou sentado naquele gramado apenas observando as pessoas. Como não era de beber, já sentia-se mais liberto. Era um rapaz normal: um filho da classe média, cabelos castanhos bagunçados, olhos tímidos, dentes perfeitos conseguidos graças ao aparelho ortodôntico usado na adolescência. Um cara bonito, diziam as garotas. O mais lindo do mundo, dizia sua mãe. Apenas eu, ele pensava, ao mesmo tempo em que se perguntava: mas eu, quem? 

O fato é que depois de tantas cervejas, sentia-se O cara. Levantou-se e viu que apesar de alegre, não estava bêbado, já que mantinha seu equilíbrio. Até brincou em formar um quatro com as pernas, quase se estabacando no chão. 

Rindo, meio alto, seguiu caminho até a porta de um sobrado espremido entre dois bares. Uma fila se formava e, curioso, fez o que normalmente não faria, entrando no final e puxando conversa com uma menina que estava à sua frente: 
-Show de quem hoje? -Ah, não é show, não. Tea's Party é o nome, uma festa badaladinha, cheia de gays lindos e inalcançáveis, boa música e com muita gente descolada. Sua primeira vez aqui? – ela perguntou. 
E ele pensou sobre sua primeira vez. Como se sentia ali, no meio de tantos alternativos e de um mundo tão diferente do das festinhas chatas e intermináveis que frequentava com a namorada e a família. 
-Sim, minha primeira vez. Nunca vim aqui. -Ah, legal, você vai gostar. Meu nome é Sabrina e o seu? – ela perguntou.
-Hum... Márcio. Meu nome é Márcio. – ele mentiu. 
Sabrina se mostrou uma boa companhia. Cheia de amigos e amigas, divertida, inseriu “Márcio” no seu grupo e ele chegou até mesmo a se divertir. O lugar, abarrotado de pessoas que se espremiam para comprar uma cerveja ou dançavam alegremente na pista, era mágico. A decoração lembrava um circo, com artistas fazendo malabares no meio do povo e palhaços correndo no meio da apertada multidão. 
-Palhaços, reverências a mim, o rei desse circo, o palhaço-mór! 
O som alto tocava músicas dos anos 90 e ninguém ouviu as palavras de “Márcio”, que riu da própria piada enquanto balançava o corpo ao som daquele refrão. Foi quando ela se aproximou. Alta, vestido colado no corpo, longos cabelos loiros, unhas grandes pintadas de vermelho e um ar um tanto quanto... vulgar. Dançava em sua frente, encostava nele e o deixava nervoso. E virou-se abruptamente, praticamente colando seu rosto no dele: 
-Vamos ali no canto? -Ahhhnnn... Ok! – ele respondeu. 
Quando se deu conta, já estava fora da festa, andando por uma viela daquelas que cercavam a praça, seguindo sem direção acompanhado de Samara. Sim, Samara, esse era o nome dela, que falava e falava e dizia que iria levá-lo para conhecer um lugar mais calmo e mais divertido. Ele apenas caminhava e assentia com a cabeça, até que chegaram àquele bar que mais parecia um cenário de um filme de Almodóvar. Doce Tempero era o nome do local. E somente então sua ficha caiu. Aquele jeitão, a voz e aquele ambiente finalmente surtiram efeito: Samara não era ela. Era ele. Ou melhor, era uma mistura dos dois. Samara era um travesti. 

E ele riu. E riu verdadeiramente, gargalhando, chamando a atenção. Imaginou a cara do pai ao ver o filho querido dividindo uma mesa com um travesti. Visualizou a namorada horrorizada com aquela cena. Viu a mãe fazendo o sinal da cruz, ao julgar Samara como alguém que iria direto para o inferno. E ele, o “Márcio”, apenas ria e decidiu pedir uma cerveja para poder continuar o papo com Samara. Perguntou, inquiriu, soube tudo sobre a vida dela. Samara era divertida e, ao seu lado, não viu o tempo passar. Já era quase de manhã, os primeiros raios de sol novamente ganhando o céu, quando se despediu daquela figura, deixando em sua mão uma nota de cinquenta reais meio amassada. 

Caminhando, com o dia raiando, ele, o “Márcio” que não era “Márcio”, foi levado pelo impulso do momento. Comeu cachorro quente na barraquinha da esquina e, sem pensar, virou uma rua, entrou em outra até que chegou naquela outra praça enorme, quase no centro da cidade, sem nem mesmo saber que caminho havia feito. Naquela manhã de domingo, o movimento de pessoas era mínimo. Sorridente sem motivo, feliz sem ser por obrigação, se viu ali, contemplando o céu azul. 

Foi então que tudo aconteceu mais rápido do que ele podia se lembrar. Um moleque chegou e pediu para ele pagar um sanduíche, ele disse que não tinha dinheiro, outros três pivetes o cercaram e ele se viu jogado no chão, a mão na barriga que sangrava e com tudo a girar à sua volta. 

Deitado no chão de terra, largado no meio daquela praça, teve um vislumbre estranho. Vida. Morte. Continuidade. Aquilo não terminaria ali. Acima das construções, um céu azul, outrora límpido, ia sendo devorado por nuvens brancas como algodão. Mas não eram nuvens que anunciavam a chegada da chuva. Era um sinal – e ele sabia disso! - de que, finalmente, ele encontraria seu caminho. Fechou os olhos e agradeceu. Não sabia bem pelo quê, mas achou que tinha de agradecer. A gente sempre sabe quando é hora para agradecer (ou pedir) a quem quer que seja, não importa porque ou pelo quê. E então, sentiu a vida esvair de si. 

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-Felipe, Felipe, você acordou! O que aconteceu, meu filho?  
Ele, Felipe, estava num quarto de hospital. Em volta da sua cama, o pai, a mãe e a namorada. E ele teve vontade de rir. Ele, Felipe, o “Márcio” que não era “Márcio”, já sabia que a vida agora era dele e que não aguentaria mais convenções idiotas apenas para alegrar os outros. Seus pais que se lixassem, a namorada que fosse arrumar um outro idiota para se casar. Ele, Felipe, era um novo homem. Liberdade seria seu novo mantra. 
-O que aconteceu, mãe? Eu vi a luz, apenas isso. A bela luz de um céu azul sendo encoberto por nuvens brancas. E o resto? Bem, dane-se o resto! Aprendi a viver e isso é o que me interessa! 
A mãe fez uma cara chocada, a namorada deu um riso bobo e o pai murmurou algo como se ele não soubesse o que estava dizendo. Depois do incidente, sempre que acordava, o filho não dizia coisa com coisa, tudo era meio sem sentido e estranho. “É o efeito dos remédios!” – os médicos diziam. 

Mas Ele, Felipe, apenas sorriu. E novamente fechou os olhos.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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