quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Banalização da Morte




Houve uma época em que tudo se resolvia facilmente na faca. Alguém tinha alguma dúvida com você? Matava. Uma discordância? Matava. Traição? Matava. Por um tempo, foi só por não haver muito a noção de moral que Cristo e outros profetas trouxeram, de se preocupar mais com o próximo e com a humanidade como um todo do que consigo mesmo. Depois, acreditava-se fugir das Leis de Deus quando o crime fosse por honra. Aos poucos, a Lei dos Homens passou a ser mais rígida e, acreditando ou não no divino, passamos a viver em tempos menos hostis. Pelo menos, deveria ser assim.

Eis que no último fim de semana leio que uma mulher ordenou a morte do namorado de seu filho por conta do furto de um botijão de gás. Agentes da Divisão de Homicídios (DH) do Rio de Janeiro prenderam Denise Mirilli Valadão e João Paulo Chelles de Souza, acusados de serem a mandante e o executor do assassinato de Reginaldo Crispiniano de Moraes Junior, de 31 anos. Ele foi morto em 01 de março com um tiro nas costas, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio.

Segundo informações do Jornal Extra, o crime foi desvendado com base numa troca de mensagens, via Facebook, entre Denise e a vítima. Reginaldo namorava o filho de Denise, de 23 anos, e acusava o jovem de ter levado de sua casa um botijão de gás para ela. Cansado de esperar pela devolução, Reginaldo adicionou a mãe do namorado na rede social e começou a fazer a cobrança: “A senhora está se comprometendo comigo a pagar o valor. Nada vai acontecer com ele”, disse Reginaldo a Denise no dia 24 de fevereiro. Denise acabou confessando o crime e disse que João Paulo aceitou matar o rapaz porque ela tinha um caso amoroso com ele.

Ou seja, matou-se alguém por algo que custava menos de R$ 50. Não vou nem entrar aqui no mérito de homofobia ou afins. O argumento foi o botijão. E o caso, embora estarrecedor, não está muito longe de tantos outros que vemos pelas páginas de jornais pelo país. Basta dar uma Googlada que descobrimos uma série de outras barbaridades, executadas de forma tão corriqueira, como destacado pelo portal Terra:
Uma partida de futebol terminou com duas mortes após a expulsão de um dos jogadores, no dia 30 de junho de 2013, na zona rural de Pio XII, no Maranhão. Após o lance polêmico, o jogador Josenir Santos Abreu começou a agredir o árbitro Otávio Jordão da Silva, que reagiu sacando uma faca e matando o atleta com um golpe. Revoltados, jogadores e torcedores partiram para cima de Otávio. Amarrado, ele foi espancado e apedrejado até a morte e ainda teve o corpo esquartejado. Com requintes de crueldade, os agressores ainda colocaram a cabeça da vítima em uma estaca nas proximidades do campo.
Se R$ 50 já é absurdo, o que dizer de uma diferença de R$ 7?
O estudante de Administração e morador de Campinas (SP) Mário dos Santos Sampaio foi morto na noite do dia 31 de dezembro de 2012 após discussão por uma diferença de R$ 7 no valor da conta no restaurante Casa Grande, no Guarujá (SP). Segundo relatos, o valor da refeição divulgado pelo estabelecimento era R$ 12,99, mas na hora de pagar a conta foi cobrado R$ 19,99. Sampaio teria reclamado da mudança de preço e, por causa disso, houve uma discussão com o caixa, que chamou o gerente, Diego Souza Passos, 23 anos. Ele e o pai, José Adão Pereira, 55 anos, dono do restaurante, são suspeitos pelo crime.
A casos tão detalhados como esses, somam-se outros que se repetem Brasil afora: dentistas que morreram queimados em São Paulo porque não estavam com o dinheiro suficiente que os bandidos acreditavam que tivessem; barulho em condomínio ou crianças chorando durante um assalto acabaram terminando em assassinato.

Infelizmente, criamos uma sociedade que se condói muito mais com um cachorro abandonado do que com uma criança com fome. Quantas vezes não vemos alguém desviar de um animal que atravessa a rua, mas joga o carro em cima de quem atravessa fora da faixa ou com o sinal aberto, como forma de “disciplinar”?

Quando trabalhava na minha primeira redação, no jornal O Fluminense, fui cobrir a morte de um vigia de uma rua que, via rádio, acompanhei em tempo real. Bandidos invadiram um condomínio muito cedo pela manhã e, quando o segurança correu, foi alvejado com diversos tiros, em São Francisco, bairro nobre de Niterói. O corpo ficou horas aguardando perícia na rua. Diversas foram as pessoas que chegaram bem perto e admiraram o defunto daquele que trabalhou anos a fio no condomínio; algumas delas com seus cafés-da-manhã em mãos. “Poxa, o fulano era gente boa”. Nenhuma lágrima ou embrulhada de estômago. O café seguiu adiante, na mão oposta à que segurava o lençol. O morto deixou esposa e filhos.

Também lembro de ter sido o primeiro, já na TV Globo, a apurar a morte de um torcedor do Botafogo, chamado Rafik Tavares Canto (não me esqueço até hoje, embora tenha quase dez anos) com golpes de foice por torcedores do Flamengo (meu time, por sinal) quando voltavam de um jogo em Volta Redonda, no Sul Fluminense. O crime foi na Serra das Araras. Simplesmente por divergência de torcidas.

A vida humana se banalizou, é fato. Há quem culpe os noticiários, recheados de mortes todos os dias. Ou os filmes, novelas e demais obras de ficção de amplo acesso, nas quais assassinatos e outros crimes, muitas das vezes são os motores das tramas. Outros ainda à simples natureza humana, que tenderia sempre à barbárie e que, em locais com grande sensação de impunidade – como no Brasil, seria exacerbada.

O Brasil foi o país com o maior número de assassinatos intencionais, segundo estudo da ONU, em 2012: foram 40.794 registrados, superando por pouco a Índia, país que tem seis vezes a nossa população. Esse número não registra o total de autos de resistência – quando um policial mata um suspeito durante ação criminosa, supostamente em defesa própria.

Claro, não é uma exclusividade de nosso país. Aliás, na América como um todo, em especial na Latina, homicídios são uma triste realidade. O Canadá é o local com menos registros (555 no mesmo período), mesmo assim bem acima de algumas nações da Europa, Ásia e até África, onde há menos acesso à instrução.

É fato que para morrer, basta estar vivo. Engasgar com um pirulito mata tanto quanto um tiro de fuzil. Mas ninguém quer ter sua vida abreviada; e ninguém quer ficar por aqui velando os seus entes queridos por uma banalidade. Seja qual o caminho que estejamos tomando enquanto sociedade, que nele esteja um despertar sobre a importância da vida do outro. Nem melhor ou pior do que a nossa própria: apenas uma vida que deve ser respeitada. 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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