domingo, 10 de maio de 2015

Ensaio Sobre Uma Mãe Politicamente Incorreta





Sempre tive uma péssima mãe! Sim, isso mesmo, minha mãe sempre foi péssima comigo. Nunca foi uma mãe boazinha, nunca passou a mão na minha cabeça, nunca me encobriu... Eu, que cresci junto com meu irmão Gui (um ano de diferença, praticamente gêmeos tanto na idade quanto fisicamente, mas com as semelhanças parando por ai), muitas vezes abaixava a cabeça e escutava quieto as injustas brigas; ele discutia e sempre sobrava mais para o seu lado.

Uma lição importante que aprendi com minha mãe: não discuta, não importam seus argumentos, você estará errado. Para mostrar o quanto ela foi ruim, posso citar exemplos. Quando éramos pequenos, crianças um pouco mais velhas montaram uma cabana com palha seca (palha essa com aranhas caranguejeiras) e fizeram piquenique num dos muitos pátios que haviam no condomínio onde cresci. Nós nem fazíamos ideia de quem eram aquelas crianças e não devíamos ter mais de cinco anos na época; mas queríamos porque queríamos nos juntar a eles para brincar de piquenique, afinal, todo mundo estava brincando. Nesse dia eu aprendi que eu não era todo mundo. Cruelmente, ela não nos deixou brincar com as crianças mais velhas e, ao invés disso, fez um bolo formigueiro fresquinho, uma jarra do nosso suco preferido e deixou a gente comer biscoitos (importante ressaltar que biscoito era um petisco restrito à hora do recreio no colégio, em casa, se quiséssemos comer, havia apenas comida à vontade) e ainda dizia com um sorriso no rosto: “Olha o que mamãe fez pra vocês!”.

Quando crescemos um pouco e finalmente estávamos livres para brincar nos pátios, aprendemos mais uma vez que não éramos todo mundo. Escureceu? De volta para casa! “Filho meu não fica andando igual a um vadio por aí de noite.”. Oito horas? Está mais que na hora de ir pra cama: “Criança precisa dormir cedo pra crescer e aprender no colégio no dia seguinte.”. 

Ahhh o colégio. Quando era pequeno, nunca fui muito fã de ir ao colégio e minha mãe, sabendo disso, me obrigava a ir todos os dias. Não satisfeita, ainda ficava nas escadas ou no portão pra se certificar que eu ficaria lá, que não iria fugir. Deixava meu irmão mais novo com vizinhos só para se certificar que eu havia parado de chorar, implorando para não ficar sozinho (contraste bem grande, pois fui o primeiro filho à sair de casa, literalmente de um dia para o outro).

Lição de casa. Às vezes, você tem vontade de fazer rápido pra ir brincar. Com mamãe isso não funcionava; ela revisava todo o dever e se estivesse mal feito... Bem... Acho que já podem imaginar o que acontecia... “Tá com pressa? Fazendo igual a cara pra ir brincar? Pois pode fazer tudo de novo e eu quero CAPRICHO!”. Tenho ódio dessa palavra até hoje! Mas como consequência, apesar de ter estragado um pouco minha letra cursiva na faculdade de medicina, nenhum paciente meu fica sem entender o que escrevi. Lição de casa feita, podemos ir brincar? “Já arrumou suas coisas? Seu quarto? Suas roupas? Tirou o uniforme? Escovou os dentes? Arrumou suas coisas para o dia seguinte?”. A escravidão acabou, alguém podia avisar à ela!

Aprendi o significado de palavrinhas mágicas... “Mãe pega aquele quebra-cabeças no alto pra mim?"; "Esqueceu de nada não? Palavrinhas mágicas: Por favor, obrigado”. Como as palavrinhas mágicas mudavam o mundo! Nossa educação sempre foi elogiada, nunca nenhum professor fez queixa sobre nós. Até porque diretor nenhum me botava mais medo que a megera que estava em casa me esperando. Que eu visse o capeta na rua, mas não encontrasse com minha mãe me esperando na porta. Até os professores, aqueles mais rígidos, conheciam minha mãe como aquela brava, pois sabiam que a disciplina era apertada. Preferia ouvir todas as broncas possíveis no colégio que receber um bilhete para casa (lembram das cadernetas do ensino infantil, que vinham com recados? Não sei e nem pretendo saber como é caminhar pelo corredor da morte, mas acredito que deve ser bem parecido com levar um recado de mau comportamento).

Mas coitado, coitado mesmo, daquele que fizesse alguma coisa contra mim ou meus irmãos. Fosse colega, cachorro, professor, motorista ou o papa, aí era encarar a fúria. Tudo isso que falei era pianinho na frente do que ela armava. Quando fazíamos algo errado e alguém ia reclamar com ela, nos defendia de forma inigualável. Porém, depois vinha uma das piores frases que já ouvi, me arrepio só de lembrar do tom da voz: “Em casa a gente vai ter uma conversinha”. Me mata, mas me livra da conversinha!!!

E se hoje vivemos nesse mundo infernal do politicamente correto, em que tudo caminha para extremos e radicalismo, eu falo que levei palmadas e que as mereci, e até mesmo levaria de novo, pois sabia exatamente o porque de ter apanhado. Isso não me fez um adulto traumatizado, tampouco tenho raiva dos meus pais (antes do mimimi politicamente correto, não defendo bater em ninguém, mas uma boa palmada num local pedagógico chamado de glúteos, num momento oportuno, conserta o mundo).

Poderia passar um dia inteiro contando todas as perversidades da minha progenitora, mas a página acaba e ninguém lê textos muito grandes. Mas o mais importante foi que essa megera me ensinou a ser gente, me ensinou a ter respeito com os outros, a ter educação... A retribuição da minha parte foi aos 23 anos levantar meu diploma. Pois antes de aprender uma matéria no colégio ou uma profissão, a mãe ensina a ser pessoa. E antes de bons alunos ou bons profissionais, tem de existir seres humanos dignos.

Durante a infância podia não entender os métodos e tinha que me conformar com “Quando você tiver seus filhos vai me entender.”. Não precisei ter filhos para entender o quanto foram necessários todos os NÃOs que recebi. 

É, mamãe, acho que o mundo precisa de mais péssimas mães como a senhora.

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Leandro Faria  
Leo Flavio, 25 anos, médico, petropolitano naturalizado carioca, sonha em escrever desde a adolescência. Aprecia bons textos e reflexões, mantém o pensamento aberto, na tentativa constante de se livrar dos preconceitos, o que, às vezes, consegue.
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2 comentários:

Anônimo disse...

menino de ouro esse meu amigo Flavio mesmo!! foi muito bem educado, no mais amplo sentido da palavra.É um ser humano maravilhoso, do qual tenho muito orgulho e o privilégio de ter ao meu lado!! Rezo por mais "megeras" como a tia Sonia nesse mundo!! ����

Marcele Granja disse...

Esse meu primo escreve lindamente. E quem conhece a tia Sônia, sabe que ela é assim mesmo rsrsrs. Megera sim, mais cheia de amor e ensinamentos pra dar. Por um mundo com mais mulheres como ela, para que existam mais cidadãos de bem como vocês. Amo muito essa família