segunda-feira, 11 de maio de 2015

Inverno





"No dia em que fui mais feliz, eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá nem sei, caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial..."
Inverno (Adriana Calcanhoto)

Eu nasci no sul do estado do Rio, na cidade que leva o nome do rio que batiza o Vale do Paraíba, e que ostenta em uma placa logo em sua entrada (e eu até hoje desconheço quem fez a medição científica para dar a colocação a ela) o quinto melhor clima do mundo. Pretensão demais, não? Mas é o que está escrito lá.

A verdade, para alguém que morou lá por mais de 20 anos e conhece bem o clima da região, é que faz um calor dos infernos no verão e um frio delicioso no inverno; na primavera e no outono, os dias são normalmente bonitos e agradáveis. Apesar de não termos neve, os desenhos que ilustravam as aulas que os professores davam para explicar as estações do ano quase sempre faziam sentido para mim.

Sou uma pessoa que gosta do inverno. Apesar de amar os dias de sol, céu azul e praia do Rio de Janeiro, curto muito um dia cinza e geladinho, tanto que sinto um pouco de falta do tempo que morei em Petrópolis, onde realmente faz frio nesse estado. Nunca gostei da chuva petropolitana, aquela insuportável, mas os dias frios me fascinavam. Dormir enroscado no edredon, poder usar casaco de couro, cachecol e até mesmo um sobretudo sem parecer um idiota exagerado e ainda se achar chique, era maravilhoso. Petrópolis faz isso por você.

Mas é claro que o frio petropolitano (o carioca nem conta, né?) é fichinha perto do inverno do hemisfério norte, que conheci já adulto. Inocente, quando fui pela primeira vez à Europa, achei que até poderia ver neve, mas que seria de boa, eu já estava acostumado ao frio. PQP! Passei um Ano Novo em Paris e não é sacanagem: temperaturas de dois dígitos abaixo de zero é bizarro. Um frio doído, daquele de congelar as pontas dos dedos e as orelhas, de sofrer por antecipação apenas por pensar em ter de ficar pelado pra tomar banho, e que te obriga a enfrentar um tira e bota de casacos que não é brincadeira. Moral da história: apesar de amar o inverno, fiz uma promessa a mim mesmo de nunca voltar à Europa ou ir aos EUA no auge do inverno. Não é de deus.

Dito isso, tenho de dizer o quanto acho engraçado como os cariocas de verdade, nascidos e criados na cidade, encaram o inverno. Esfriou um pouco na última semana por essas bandas e os termômetros devem ter chegado próximos aos 22º C. Vi pessoas de casacos de couro, sobretudo, toucas e até mesmo de cachecol. As mulheres então, tiram as botas de cano longo dos armários e desfilam como se estivessem numa temperatura digna do inverno europeu. É estranho para alguém de fora, mas para os cariocas é quase que a única chance de usar suas roupas de inverno. Afinal, existe uma famosa piadinha por aqui, que diz o seguinte:
"Ano passado, no Rio de Janeiro, o inverno caiu numa quinta-feira!"
É preciso aproveitar, não é mesmo?

Eu, que sinto muito calor nessa cidade que tanto amo, adoro essa temperatura mais amena. Dá pra aproveitar esses dias mais friozinhos para os padrões locais, tirar do armário uns casacos mais leves, aproveitar os cafés e chocolates quentes e, o melhor, não morrer de tanto suar.

E, claro, me divertir com o povo na rua parecendo prestes a congelar, com mil roupas de frio e tremendo. Numa temperatura de 20º C.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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