sábado, 16 de maio de 2015

Não Ponham Mais Gays Nas Novelas!





Estou mesmo de saco cheio. É tanta coisa, que preciso organizar as ideias pra não sair atropelando tudo. É uma irritação e uma revolta que vai crescendo a cada nova notícia tosca que é publicada nas mídias. E se refere a quê? Intolerância, preconceito, discriminação, ignorância e blá blá blá... Tudo isso que gente minimamente evoluída já está cansada de ouvir, ler e ver. 

Começou com a porcaria das lésbicas velhas que colocaram nessa novela das nove ruim (tá, eu não acho que as senhoras lésbicas de Babilônia sejam uma porcaria, pelo contrário, penso que são uma das melhores coisas da trama; e também não acho Babilônia ruim, tá chatinha, mas pode melhorar, apesar de toda descaracterização feita pra agradar a tradicional blééérgh família brasileira, mas tô com raiva, poxa!). Então, começou com elas, as personagens das veteranas e digníssimas Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, que desencadearam reações inflamadas dos agentes do mal, disfarçados de defensores da moral e dos bons costumes. Eles tentaram boicotar a novela. E a novela só desceu ladeira abaixo depois de todo esse randevu. Não acredito que a baixa audiência do horário nobre seja por causa de Teresa e Estela, mas sim pela lentidão dos acontecimentos após um frenético primeiro capítulo, e pela dureza e crueza com a qual os personagens foram concebidos, em meio a muita maldade, imoralidade, mau-caratismo, em detrimento ao romantismo, leveza e emoções que cativam o público. Falta um jeito mais suave de contar a história. No afã de mostrar a realidade nua e crua, a vida como ela realmente é, os autores se esqueceram de que pode se falar e mostrar as coisas mais horrendas e abomináveis de um jeito menos indigesto, mais doce até. Mas a intenção deste texto não é analisar Babilônia, e sim uma breve reflexão sobre a onda de manifestações preconceituosas levantadas desde sua estreia, que me leva ao encarecido pedido do título acima. 

Vamos aos fatos. 

Primeiro: a cúpula responsável pelo setor de dramaturgia da Vênus Platinada decide reformular a novela após grupos de discussão apontarem os motivos da baixa audiência. E adivinhem? Diminuem toda a putaria desmoralizante: prostituição, chantagens, vilã transando em provador de loja de roupa no shopping e o mais triste de tudo, porque está incluindo na "putaria desmoralizante", cenas de carinhos e beijos entre o casal lésbico (esses não diminuíram, eliminaram de vez).

Segundo: como se não bastasse o preconceito estúpido da grande massa pouco dotada de discernimento e lucidez, Bibi Ferreira, uma senhora de 92 anos, atriz, cantora, diretora e compositora brasileira, extremamente respeitada no meio artístico e contemporânea de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, vem a público e declara que não acha agradável assistir as duas se beijando em cena. E eu pergunto: por quê? Por que essa dinossaura vem a público dizer isso? Uma ARTISTA, que deveria ter o pensamento evoluído apesar de mastodôntica. Que lida com arte, trabalha com a sensibilidade do ser-humano, mexe com as emoções mais íntimas, praticamente desde que nasceu, há mais de nove décadas. Será que pra esta senhora, a arte que liberta e engrandece, não serviu de nada? 

Não sei se o que mais me irrita é ela não achar agradável ou declarar ao público. De qualquer maneira, apenas me irritei, e não me decepcionei, porque nunca fui com a cara dessa velha e muito menos fui seu fã. Daqui a pouco ela morre e é menos uma pra falar besteira. 

Terceiro: pra provar que a novela desce cada vez mais baixo e a Rede Globo está desesperada para recuperar a audiência, acontece o que eu já havia previsto desde os primeiros rumores de fracasso, e ainda assim me chateia. Em mais uma mudança radical de Babilônia, o personagem Carlos Alberto, vivido por Marcos Pasquim, que na sinopse original era um gay enrustido que teria um relacionamento com o personagem Ivan, de Marcelo Mello Jr., tem sua orientação sexual alterada - agora ele é hétero e se interessará por Regina (Camila Pitanga). 

Pra ser sincero, antes de sua estreia, quando fiquei sabendo que Pasquim seria gay, fazendo par com Marcelo, não achei agradável (kkkk), sério mesmo. Achei meio forçação de barra. Por que dois atores aparentemente tão viris? Pra fazer frente a José Mayer em Império? Com Fernandona e Nathália dando vida a um casal homossexual, seria desnecessário mais um casal do tipo na trama, a classe já estaria muito bem representada e os personagens masculinos ficariam apagados na história, seria como gastar munição à toa. Tanto que agora o casal de rapazes não existirá mais, parece que Teresa e Estela já incomodaram o suficiente e Ivan ficará zanzando pela trama, sem muita função. 

Quarto: como se não bastasse todo esse circo em torno da corrida pela audiência perdida e das personagens sapatas, mais um cidadão famoso, um homem das letras, pai de um dos personagens mais queridos da literatura infantil brasileira e que deveria no mínimo respeitar muitos fãs, que provavelmente tenha, não dando declarações homofóbicas em público, dispara: 
“O problema da homossexualidade é que ela está hiperdimensionada. A TV Globo acha que está fazendo um grande serviço ao modus vivendi, ao dar chance aos homossexuais de assumirem a sexualidade deles." E continua:  “A Fernanda Montenegro não tem direito de fazer apologia do afeto homossexual. Grandes fãs dela estão estarrecidos com isso. E mesmo que ela estivesse pensando em ajudar as mães dos homossexuais… Mas qual é a porcentagem de mães de homossexuais?” 
O dono desse discurso chocante é Ziraldo. Sim meus amigos, o senhorzinho simpático que criou o Menino Maluquinho. Dá pra acreditar? Quem ele pensa que é pra dizer o que uma atriz do porte de Fernanda Montenegro tem ou não o direito de fazer? E ele, tem o direito de sair magoando pessoas com palavras ferinas como essas? 

Não! Tem o direito de permanecer calado, porque neste caso, tudo o que ele disser poderá e irá sim, ser usado contra ele. Não acho agradável e não estou disposto a ouvir tanto impropério de onde mais deveria haver apoio e compreensão. 

Em meio à todas essas declarações infames e mudanças de roteiro, ainda leio uma nota sobre a próxima novela das 9, de João Emanuel Carneiro, que dá conta de que a trama terá também duas personagens lésbicas. Com essa informação só consigo pensar: 
"Chega! Não ponham mais gays nas novelas, por favor! Não quero passar mais meio ano, após o fim de Babilônia, sendo vomitado por declarações como as citadas aqui. Não quero ver minha orientação sexual servindo de palanque pra tamanha podridão mental ser jorrada aos quatro ventos. Cada declaração do tipo é um soco, uma cusparada, uma 'lampadada' na cara." 
Já houve em nossas novelas personagens LGBTs muito queridos e inesquecíveis, amados pelo público, mas isso foi em outros tempos, tempos menos caretas e menos hipócritas. Hoje, infelizmente, na contramão do que deveria acontecer, estamos involuindo. E embora eu não duvide da competência de JEC como excepcional roteirista, vamos combinar que seus personagens gays foram um fiasco, sempre morreram na praia, vide os personagens Abelardo (Caio Blat), Orlandinho (Iran Malfitano) e Roni (Daniel Rocha) em Da Cor Do Pecado, A Favorita e Avenida Brasil respectivamente. Não quero mais histórias abortadas, personagens convertidos ou que existam apenas para preencher a cota. Isso é uma ofensa pra quem, como eu, é gay, gosta e admira o produto novela. 

Façam a novelinha para a tradicional família brasileira (nota do editor: temos um excelente roteiro nesse link), pra essa gente estúpida e hipócrita, que o único acesso à arte e cultura que tem é na televisão. Diferentemente delas, eu tenho acesso a todo tipo, e posso saciar meu desejo de ver-me representado no teatro e no cinema por galãs que na novela fazem as mocinhas suspirarem, mas que já se pegaram forte e viveram lindos romances com outros homens nos palcos e nas telonas. Rafael Cardoso, Ghilherme Lobo e o próprio Marcelo Mello Jr., o Vicente, de Império, o Bernardo, de Sete Vidas, e o Ivan, de Babilônia, são bons exemplos disso. 

Por isso, eu peço encarecidamente, Rede Globo: enquanto vocês não tiverem culhões pra enfrentar dignamente uma baixa audiência e manter suas ideias originais, não ponham mais gays nas novelas! Não nos ridicularizem nem nos rebaixem, baixando a guarda pro clamor cego e obtuso de mentes tão pequenas. 

Obrigado!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Eduardo Silva disse...

Hoje eu não tenho paciência para novelas, e na minha humilde opinião, a menos pior em exibição é "Sete Vidas".
Mas, uma coisa é certa: As novelas da Globo não terão grandes audiências nunca mais.
Excelente texto, Esdras.