segunda-feira, 4 de maio de 2015

Peso e Traumas





Eu sempre fui magro. Muito. Aquele tipo de magro feio, sabem, de corpo franzino que faz a cabeça e as orelhas parecerem enormes? Sendo bem sincero, vendo minhas fotos de adolescência, digo com propriedade: fui um adolescente feio pra caramba. Juro que não sei como alguém me pegava naquela época e, pensando em retrocesso, consigo até imaginar o motivo de ter começado minha vida afetiva bem mais tarde. Se até eu tenho consciência hoje da minha, digamos, falta de atrativos, quanto mais os outros adolescentes da minha época.

E o engraçado é que eu nasci gordinho. Minha mãe tem fotos (várias) de quando eu era bebê, e em todas dá pra ver que o Leandro baby foi uma coisa super fofinha e gordinha. Segundo minha mãe, eu nasci com 4 quilos e meio, o que é coisa pra caramba. E fui uma criança rechonchudinha até os meus quatro ou cinco anos. Depois disso, emagreci muito e me tornei o famoso "magrelo".

O problema é que essas coisas marcam. Por ser muito magro quando criança, minha mãe sempre se preocupava com a minha saúde e lembro-me das muitas vezes em que em consultas médicas ela perguntava o que poderia fazer para eu engordar um pouquinho. Minha magreza natural aliada à minha chatice para comer deveria ser um problema para meus pais. Tônicos para abrir o apetite, super refeições e nada de eu ganhar peso.

Com a adolescência, vieram os apelidos. Magrelo, vira-pau, filé de borboleta, esqueleto. Na minha época, em que bullying não era demonizado como hoje, eu sofri, viu. Tinha vergonha do meu corpo e lembro de odiar tirar a camisa em público, tudo por causa do meu físico "esguio".

Bem mais tarde, já no ensino médio, um nutricionista diagnosticou os motivos da minha magreza: metabolismo acelerado. Como eu queimava calorias bem mais rápido que as demais pessoas da minha idade, eu era naturalmente mais magro. Mas lembro de ouví-lo afirmar que com o passar dos anos, o metabolismo de todo mundo desacelera e que, lá pelos trinta, o meu já estaria regulado. Entretanto, enquanto isso, não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser me alimentar e fazer exercícios físicos para ganhar massa muscular.

Foi meio que um alívio, naquela época, pensar que um dia a magreza deixaria de ser um problema. Adolescente se preocupa muito mais com o que os outros acham do que com o próprio bem estar. Mas o melhor de tudo foi perceber que o nutricionista estava certo. Mesmo não sendo lá o mais dedicado aos exercícios físicos, com o tempo, meu corpo, apesar de magro, foi se moldando e tive alguns períodos em que fiquei bastante satisfeito comigo mesmo. Eu deixei de ser o magrelão para ser apenas magro e com tudo no devido lugar. E lembro que entre os 23 e 28 anos eu estava muito satisfeito comigo mesmo (e acho que foi um período muito fértil nas minhas pegações, mas divago).

Hoje, a preocupação em ser magrelo já não faz parte da minha vida há muito tempo. O metabolismo realmente desacelerou e algo inimaginável para mim até então passou a fazer parte da minha vida: o controle do peso. Não tenho biotipo para ser gordo, mas a barriguinha saliente é algo que me irrita profundamente e é ela que me preocupa atualmente. Por causa dela continuo indo a academia e fazendo exercícios aeróbicos (viva as corridas no Aterro e as aulas de bike na academia, que eu realmente curto - principalmente quando acabam!).

Entretanto, olhando em restrospecto, o que eu realmente queria é voltar no tempo e mandar todo mundo que me tirava a paciência na época da adolescência e do colégio se fuder. Principalmente com as armas que tenho hoje, vendo que muito dos gostosões e das magrinhas de outrora estão totalmente fora de forma aos trinta anos (e estou sendo MUITO legal ao afirmar que estão fora de forma, muito legal mesmo).

Posso não jogar na cara, porque apesar de não parecer, eu tento seguir algumas regras de convívio social, mas o prazer de encontrar esses "coleguinhas" da época do colégio é indescritível. Afinal, estou aqui, todo pimpão, e eles lá, bem diferentes do que consideravam "normal" em seus dias áureos que ficaram beeeem para trás.

Ah, o tempo, como ele é justo, não é mesmo?

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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