domingo, 17 de maio de 2015

Qualquer Coisa





Ninguém quer escrever sobre qualquer coisa, pois qualquer coisa pode ser tudo ou nada. Uma dissertação fica sempre difícil no momento de encarar a folha de papel em branco, ou uma plateia expectante em silêncio, mais ainda se não houver um tema para abordar. Contudo, escrever sobre qualquer coisa pode tornar‐se um exercício deveras fácil, no modo em que nos é dada a liberdade de escolher um tema, um assunto. Mas eu não escolho nenhum tema e procuro escrever exatamente sobre esse assunto: qualquer coisa

Qualquer coisa pode ser a liberdade de escolha ou a indiferença de opinião. 

Qualquer coisa pode ser o que hoje comi, ou não comi, pelo café da manhã, ou pelo lanche da tarde. E daí pode ser a fome no mundo, ou abundância de alimentos concentrada em certas áreas da geografia e vivência humanas, enquanto a carência e a fome florescem noutras. Qualquer coisa pode ser o declínio de uma vedeta da música, que decadente paga balúrdios e se submete às cenas mais patéticas, para continuar sendo a figura de proa, que só para os admiradores doentiamente incondicionais e para a imprensa necrófaga, consegue ser. 

Qualquer coisa pode ser a estúpida tendência humana para a violência, que leva a que sigamos evoluindo (será mesmo evolução?) em guerra; pois que há sempre uma guerra se desenrolando em qualquer parte do mundo, mesmo que os noticiários, entre as novelas televisivas, não as noticiem. Qualquer coisa pode ser a alarvidade dos adeptos das torcidas organizadas de futebol, que mostram à sociedade como os instintos mais selvagens e grotescos fazem parte intrínseca da constituição animalesca do gênero humano que, tão surpreendentemente consegue negar o seu pendor divino na afirmação da cavalgadura que é. 

Qualquer coisa pode ser a tão pouca fé dum povo que se diz de fé, mas que não crê que depende apenas de si e, da sua vontade determinada e ativa, para dar um trato naqueles que dele se aproveitam, espoliando‐o e privando‐o de todos os bens mais básicos para uma vida digna e que lhe são devidos por alienável direito mais que divino. Qualquer coisa pode ser a louca mania de negar a infância às crianças – exigindo delas uma competitividade incondicional, visando uma produtividade futura num sistema capitalista de consumo ‐ e depois se digladiarem pelos direitos da criança. 

Qualquer coisa pode ser um dia de sol passado à beira mar, ouvindo o marulhar das ondas no areal branco, como num cartaz publicitário de agência de viagens, com mordomias incluídas no pacote turístico e beldades desfilando na praia, com pouca roupa. Qualquer coisa pode ser o discurso do Papa, denunciando o genocídio de milhares de crianças, mulheres e homens (neste caso, armênios) por parte de uma nação, a Turquia, que se diz moderna e quer afirmar o seu pretensamente respeitável lugar entre as mais civilizadas, na negação do seu infame passado. 

Qualquer coisa pode ser a ostentação orgulhosa do vizinho, que tem o maior quintal de todo o bairro, mas que de tanto ficar ao portão se vangloriando, o deixa desarrumado e imundo, por falta de cuidados. Qualquer coisa pode ser a metáfora com que termino este texto, para não me alongar indefinidamente e me tornar qualquer coisa como um chato.

Leia Também:
Leandro Faria  
ManDrag nasceu em Moçambique (África), viveu em Portugal (Europa) e agora mora no Recife/PE (Brasil). Português de nacionalidade e cidadão do mundo. Profissão? Sobrevivente desse grande cataclismo que é a vida.
FacebookTwitter


Um comentário:

Jose Soares disse...

belissimo texto, como sempre!
Belissima idéias em juntar tão bons escritores e pensadores em um único lugar!