sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sobre Algumas Certezas




Ele caminhava com passos apressados, esbaforido. Todos os dias era a mesma coisa. Aqueles passos apressados, aqueles sapatos brilhando no sol, aquele mesmo terno, aquela barba por fazer, aquele cabelo naturalmente desalinhado. Meu irmão e eu brincávamos de adivinhar. 

- É advogado. Certeza que é. 
- Não sei, a barba por fazer me deixa na dúvida. Advogados são tão certinhos... 
- É. Pode ser, mas ainda acho que ele é advogado. 
- Porque não perguntamos amanhã? Nesta mesma hora ele vai passar por aqui. 
- Perguntar? Mas o que ele vai pensar de nós? 
- No mínimo, que somos dois abelhudos que não tem nada para fazer além de passar o dia aqui na janela olhando as pessoas passarem. E ele não estaria errado. 

Ele riu. Sua risada era divertida, gostosa. Gostava de vê-lo sorrir. Com o rosto vermelho ele assentiu: 

- Ok, perguntaremos amanhã. 
- O que quer fazer agora? Mudo a cadeira de posição? 
- Não, está bem assim. Veja! Um beija-flor! 

Olhava para o pássaro entusiasmado. Essas pequenas coisas faziam o meu dia feliz. De repente, sua fisionomia mudou. 

- O que houve? 
- Nada... 
- Aconteceu algo. O que foi? 
- Estava pensando em como seria bom se eu pudesse andar. Não faria de sua vida essa miséria. Veja bem, em plenas férias e você não pode ir lá fora estar com seus amigos, para ficar com o inválido aqui, que também tem tantas alergias que o médico me proíbe de ir lá fora e você, coitado, tem que ficar mofando aqui comigo. 
- Quanta estupidez! Você não é inválido! É meu irmão. Eu gosto de estar com você, além disso ninguém tem o melhor irmão do mundo! 

Seus olhos se encheram d’água. Eu o abracei. 

- Gostaria de não ser um estorvo, de não me sentir um inútil. 
- Você não é um inútil. Veja, eu não posso voar como o beija-flor. Para ele eu devo ser um inútil. 

Ele sorriu mais uma vez e concordou em mudar de assunto. Conversávamos sobre como o mundo é apressado hoje em dia e como as pessoas tem pressa de querer ter tudo ou ser tudo. A conversa estava tão animada que quase não percebemos o homem de terno passar novamente debaixo de nossa janela. 

- Mas o que ele faz a esta hora? 
- Deve ter vindo almoçar. 
- Estranho... 
- O que há de estranho o homem vir almoçar em casa? 
- Ou quem sabe ele veio pegar a mulher em flagrante com outro homem! 
- Lá vem você! 

De repente, ouvíamos tiros e pessoas corriam apressadas. Um assalto, pensamos. Fechamos as janelas, mas não totalmente, deixamos uma fresta. Nossa mãe apareceu ralhando com nós dois por estarmos ali. Não demos muita importância, porque ela também se juntou a nós dois na coscuvilhice... 

No outro dia a notícia era primeira página em todos jornais. O homem de terno foi encontrado morto em casa. Advogado recém-formado, era casado e não tinha filhos. A mulher era a principal suspeita. 

- Viu? Eu te disse. Ele era advogado. 
- Estava aqui pensando. Ele era tão jovem e vivia sempre às pressas. De repente, ele sentia necessidade de ter que dar uma boa vida para essa esposa e, de repente, ela pensava que não era essa a vida que ela gostaria de ter.  Ela quis terminar tudo, ele voltou para casa para conversarem, ela perdeu a cabeça e o matou. 
- De onde você tirou tudo isso? 
- Não sei. Talvez ande lendo demais... 

Eu não tinha certeza naquela altura como meu irmão sabia tanto acerca da vida. Éramos tão jovens, mas ele sabia, ele sempre soube.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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