sexta-feira, 15 de maio de 2015

Sobre Algumas Incertezas








Os dias, às vezes, passavam lentamente. Quando criança, eu não percebia que quando gostamos muito de fazer algo, aquilo passava depressa ou acabava muito rápido. Mas, quando algo é enfadonho, demora demais, ficamos presos ao relógio, contando os segundos, os minutos, as horas e nada parece passar a contento. Eu não entendia por que o sorvete nunca durava o bastante e por que as tarefas de matemática pareciam ter cem páginas quando, na verdade, não passavam de duas. Sempre briguei com o tempo. Entretanto, para meu irmão isso não parecia importar muito, ele tinha seu próprio tempo. 

Quando não estávamos brincando, ele buscava a companhia dos livros, ou apenas ia para janela ver o movimento das pessoas ou carros; mas, o que ele mais gostava era de observar os pássaros que se divertiam na árvore em frente da nossa casa. Durante um bom tempo ele tinha a impressão que nossa mãe o aprisionava em casa com medo que lá fora ele sofresse com o que veria. Nada o impediria, nem mesmo aquela cadeira de rodas. Mas ela não percebeu o tempo do meu irmão passar. Meu irmão sabia mais sobre o mundo à sua volta do que ela. Mamãe saía todos os dias de casa na mesma hora para ir ao mercado e nunca voltava com nada nas mãos. Ele sabia o que ela fazia, ele não me contou na altura, ele nunca a recriminou quando soube e não deixava que eu fizesse o mesmo porque, segundo ele, já havia passado muito tempo.


- Você nunca teve vergonha?
- Era nossa mãe. Eu prefiro lembrar do que ela fez por nós, dos abraços e beijos afetuosos quando voltava para casa, do que quando ela saía. Você nunca percebeu que ela odiava ter que sair de casa todos os dias? Era como um animal indo para o matadouro, eles sempre sabem que não irão voltar e talvez ela tinha mesmo essa impressão de que talvez não voltasse. Mas ela sempre voltou. Ela voltava por nós.

Aquelas palavras nunca saíam da minha cabeça. Eu pensava em nossa mãe, tentava lembrar do seu cheiro. Recordo que mamãe um dia pegou o caderno do meu irmão e estava repleto dos pássaros que ele tentava desenhar. Ela me contou que prometeu para si mesma lhe dar uma câmera fotográfica. A imagem da felicidade do meu irmão ao abrir o presente nunca me saiu da cabeça. Mas ele, sempre esperto, sabia do presente escondido meses antes dentro do guarda-roupa de nossa mãe. Anos depois ele também me confidenciou isso.

- Nunca conseguimos te esconder nada, não é mesmo?

Ele não me respondeu. Havia algo que ele nunca soube e que foi muito bem escondido. Com o passar do tempo, meu irmão percebeu que não precisava saber sobre tudo, que determinados segredos existem para que as coisas simplesmente aconteçam. Que se revelássemos tudo de uma vez, ficávamos presos ou acomodados demais para realizar algo.

- Se eu fosse um pássaro, eu teria a asa quebrada?

Não obteve resposta. Mudei de assunto.

- Você viu isso? A esposa do advogado confessou o crime.


Meu irmão me olhava pensativo. Ele não tinha muita certeza sobre aquilo.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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3 comentários:

Marcos Eduardo Nascimento disse...

Eu adoraria ter um irmão assim ou, quem sabe, o cadeirante não seja eu! Só depende do olhar de cada um que lê essa MARAvilha de texto. Parabéns!

Uouo Uo disse...

thx

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Uouo Uo disse...


thank you

سعودي اوتو