sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobre as Não Verdades Que Fazem Parte de Nossa Vida







Meu irmão gêmeo e eu não somos parecidos fisicamente, mas sempre fomos inseparáveis. Adoecíamos juntos, sentíamos aflições juntos e nos alegrávamos juntos, obviamente. Gostávamos das mesmas coisas e adorávamos ler. Entretanto, meu irmão lia tudo que lhe caia nas mãos; eu era mais seletivo. Porém, sempre fui muito sociável e adorava conhecer pessoas novas; meu irmão não. Eu buscava sempre a companhia de qualquer pessoa que apenas sorrisse para mim; meu irmão era discreto, calado. Houve uma época que achava que ele conversava apenas comigo. Porém, esse seu jeito taciturno despertava ainda mais a curiosidade das pessoas e, por isso, ele estava sempre mais rodeado de gente à sua volta do que eu, que era sempre um falastrão. Crescemos assim.

Quando se deu o crime na rua em que morávamos durante a infância, éramos apenas duas crianças curiosas, mas não éramos tontos. Pelo menos, sei que meu irmão não era. Aquele crime nos marcou de tal forma que nunca mais fomos os mesmos depois dele. De repente, alguém que nós víamos todos os dias deixou de existir. Nem sabíamos o seu nome, apenas o víamos sempre naquela mesma hora saindo apressado para o trabalho. Ele nem nos conhecia, não lembro se alguma vez olhou para nós, porque sempre estava andando em passos largos. Aquele crime me fez repensar muita coisa, me fez ver o mundo à minha volta de outra maneira. Ter um outro olhar para as pessoas que faziam parte da minha vida.

O velho Quincas, o homem que vendia guloseimas no fim da rua, por exemplo. Quando a esposa o deixou para fugir com o entregador do gás, foi um choque maior para muita gente (mesmo todo mundo sabendo do caso dos dois) do que para ele, que parecia não se importar. Ele estava mais preocupado em cuidar das suas filhas sozinho do que em chorar por uma pessoa que não o amava. Ele nunca esboçou um semblante triste para nós. Ele podia chorar escondido em sua casa, mas ele nunca demonstrou isso. Para ele, nossa satisfação era mais importante do que sua dor, que ficara em segundo plano.

De repente, aquele crime me fez ver como o mundo se apresenta de várias maneiras, como muitas vezes fazemos julgamentos precipitados e não nos preocupamos com o que realmente aconteceu. Para nós, basta o que está à nossa frente, mas, e o que está por trás, o que está dos lados? Por que tudo tem que ser binário? Não importava para ninguém a dor de seu Quincas, as pessoas faziam comentários jocosos na sua frente, na frente de suas filhas. Mesmo assim, ele seguiu em frente. Quanto a mim, eu amadureci e não percebi o quanto. A morte se tornara o começo. Mas eu só percebi isso muito tempo depois

Talvez fosse algo sobrenatural, mas havia uma intuição acerca daquele crime.  Quem de fato o matara e por que o fizera? Mesmo que tudo apontasse apenas para uma pessoa, meu irmão insistia na dúvida. A própria polícia não tinha certeza, ninguém tinha certeza, faltava algo, e isso era problema. Faltava um motivo.

- Porque tudo tem que ter um motivo, não é?
- Claro que sim. Tudo tem que ter uma resposta!

Houveram alguns minutos de silêncio. Eu lembrava que certa vez um professor me dissera que o saber vinha da dúvida e que se ela não existisse, nunca lutaríamos pelo conhecimento. Havia um crime, um corpo, uma mulher confessando um crime. Mas não havia nenhum motivo, ela não dissera, ela não sabia, nem sabia como o matara.  

- Mas que raio de crime sem solução!
- Há uma solução. Só não sabemos qual. Ainda.
- Será que um dia saberemos?
- Não sei. Talvez nunca saberemos

Sim, ela não fora a culpada, mas pagou pelo crime assim mesmo. Quando a polícia a libertou por total falta de provas, ela suicidou-se. Ela se sentia culpada, ela queria pagar por aquele crime assim mesmo. Foram muitos anos sem saber porque aquele homem morrera, porque aquela mulher assumira um crime que já sabíamos, ou pelo menos intuíamos saber, que não fora ela que cometera. Diziam que ambos estavam mantendo casos extraconjugais. Colegas do trabalho dele diziam que era um advogado habilidoso, que nunca chegava atrasado, mas que não era de muitas galhardias como a maioria dos advogados e que nunca mencionava a esposa.

- Sabia que era casado pela aliança no dedo. - dizia uma secretária.

Meu irmão levou um bom tempo, foram alguns bons anos, para conseguir descobrir o que levara àquele crime que nos marcou tanto com aquele desfecho. A mulher não era culpada, era tão vítima quanto o marido. Duas vítimas do mesmo homem que os seduzira com falsas promessas. Eu assisti ao desfecho do caso pela televisão e, de certa forma, deixei esboçar um pequeno sorriso, porque meu irmão conseguiu desvendar aquela história que durante anos nos deixara na dúvida, que permeou nossas mentes e fez com que meu irmão nunca desistisse. De repente, ele quis dar àquele casal uma redenção, uma expiação, um fim. Mesmo depois de tanto tempo. 

A cadeira de rodas nunca foi um empecilho. As limitações que a vida nos impõe diariamente são como cadeira de rodas, basta apenas saber desviar dos obstáculos que a vida nos oferece. Deve ser por isso que, talvez, muita gente nos achava parecidos demais fisicamente um com o outro. 

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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