domingo, 24 de maio de 2015

Uma Grande Saudade





Tem dias que eu fico pensando na vida 
E sinceramente não vejo saída. 
Como é, por exemplo, que dá pra entender: 
A gente mal nasce, começa a morrer. 
Sei Lá (Vinícius de Moraes e Toquinho) 

Quando fui convidada a escrever um texto para o Barba Feita, fiquei pensando sobre o que queria falar. Que responsabilidade, são textos tão bem escritos! E resolvi falar sobre uma das coisas que mais me aflige no momento: a saudade e a dor que sinto da minha amiga Muriel, que se foi no fim do ano passado. 

Eu tenho 31 anos, trabalho, tenho um namorado fofo, amigos, uma vida bem boa e nada a reclamar. Estava viajando para Viçosa/MG, para um casamento no dia 27 de setembro de 2014, quando recebo a notícia que mudaria tudo: a Muri tinha sofrido um acidente de carro e tinha morrido. Meu mundo caiu! Minhas pernas tremiam, chorava escandalosamente, chorava e não conseguia acreditar. Eu já tinha perdido outras pessoas, mas nunca alguém que eu amasse tanto, nunca uma pessoa que cresceu comigo, uma irmã que a vida me deu. A sensação é que tinha perdido um pedaço de mim, e acho que foi o que de fato aconteceu, um pedacinho de mim foi embora com ela. 

Mil coisas me vem à mente: eu estava no ônibus chegando em Viçosa (onde nos conhecemos, ainda no Ensino Médio) e queria sumir, fugir, voltar no tempo. Ao mesmo tempo, precisava avisar aos nossos amigos, quando me dei conta que a Lívia (uma outra grande amiga) estava no Chile, e como eu ia contar pra ela? Meu Deus! Que coisa maluca, como isso podia estar acontecendo! A partir daí, só tenho flashs de encontrar a mãe dela, a irmã, do caixão chegar, de abraçar o marido, de abraçar minhas amigas, de chorar e muito. E lembro daquele momento triste de dizer adeus no enterro, que momento difícil. Lembro também de uma tarde reconfortante com os amigos do colégio, lembrando dos bons momentos. 

A Muri era linda! Morreu uma semana antes de completar 30 anos, uma linda mulher, médica, esposa, amiga, filha, irmã, tia. Ela sempre foi precoce em tudo, terminou o ensino médio com 17 e aos 23 já era médica, só não achei que seria precoce também na morte. Mesmo com uma vida breve, ela certamente mudou a vida de todo mundo que conviveu com ela. E como voltar à vida? Como seguir em frente? A morte por acidente é muito cruel, e quando alguém tão próximo morre, nos lembra das nossas fragilidades, que a vida é efêmera e que pode acabar a qualquer momento. E, além disso, temos que aprender a viver sem aquela pessoa, aprender a viver com a saudade, com os arrependimentos! 

Dizem que o luto tem fases: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Mas como a vida não é simples, essas fases se misturam, pelo menos para mim. Acho que tentei aceitar desde sempre, mas até hoje, às vezes, nego: tem dias que pego o telefone para ligar pra ela ou mandar um WhatsApp; tem dias que tenho muita raiva: porque você tinha que morrer?; todo dia tento ser uma amiga melhor, estar mais presente na vida das pessoas; a depressão se manifestou muito cedo, junto com crises de ansiedade, tive dias que só chorava, mal queria sair da cama, só queria dormir e chorar. Já se passaram 7 meses e não sei exatamente em que fase estou, mas a sensação é que nenhuma delas está completa ainda. 

Desde o início eu soube que não ia conseguir passar por tudo isso sozinha e logo que voltei para Belo Horizonte, onde moro, já procurei apoio. Desde outubro tenho feito terapia e tenho acompanhamento psiquiátrico, mas a verdade é que existem problemas com que preciso lidar e venho adiando há muito tempo, e com a morte dela seria impossível continuar recusando esse suporte eu não daria conta de seguir sozinha. Então, de certa forma,  mesmo depois de morrer ela me ajuda. Irônico, não? 

A morte é a única certeza que temos e somos tão despreparados para lidar com ela. É tão duro, dá tanto medo, tanta incerteza, acabo não pensando nisso mas, às vezes, levamos uma porrada e somos obrigados a refletir. A minha reflexão ainda não me levou muito longe, a não ser que devemos ser o melhor que pudermos, mais presentes na vida de quem amamos. 

E quanto a aprender a viver com a dor e a saudade, não sei se existe uma fórmula perfeita, mas eu gosto de falar dela, adoro lembrar, contar os bons momentos, porque é uma forma de mantê-la viva. Óbvio que me emociono, mas me aquece o coração e me faz muito bem. Também mantenho contato com a irmã dela e seu marido, pois compartilhamos a mesma dor, temos a mesma saudade. 

Mas, o que realmente aplacou minha saudade foram os sonhos que tive com ela. Teve um, em especial, em que passamos a noite conversando. Foi tão gostoso, acordei renovada, cheia de amor e com a certeza que ela estava bem, olhando por todos nós.

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Leandro Faria  
Ana Luiza Lopes é uma apaixonada! Apaixonada pelo namorado, pela família, pelos amigos, pela profissão (é professora). Apaixonada por séries, livros, música. No momento está redescobrindo uma antiga paixão, a escrita!
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