sábado, 30 de maio de 2015

Viajar...






O chiquérrimo e rico editor do Barba Feita, está em Nova Iorque. Apenas uma semaninha, curtindo o Central Park, a Times Square e a primavera americana, pra descansar a beleza. Coisa de gente finíssima. Enquanto nós, pobres mortais assalariados, ficamos por aqui nos contentando com as fotos compartilhadas no Instagram, Facebook e afins.

Recalques à parte, eu acho luxo uma viagem internacional, adoro quando meus amigos viajam e me realizo neles, desbravando esse mundão, enquanto não posso realizar minhas próprias viagens. E olha que ultimamente, tenho me realizado bastante, pois muitos amigos tem carimbado o passaporte mais de uma vez ao ano.

Além do Lê, nosso luxuoso editor, que está sempre nos matando de inveja com suas modestas viagens ao Caribe, à Disney, à Alemanha e outros tantos lugares sem graça, tem também o Rê. O Rê é outro queridíssimo, que não deixa o passaporte pegar poeira na gaveta. Ele conhece 19 países. Ano passado esteve numa fantástica viagem ao Leste Europeu (Croácia, Bulgária, Sarajevo, Transilvânia e outros) e também foi à Índia. Ele adora fazer roteiros que fogem do lugar comum. É apaixonado por história e arquitetura, já foi a quase toda a Europa, mas não conhece os EUA, por pura preguiça do consumismo desenfreado. Um pouco radical pro meu gosto, mas whatever. Este ano, quase consegui convencê-lo a passar as férias em NY ou São Francisco, foi por um triz. Sim, sou desses que ficam tentando convencer os amigos a ir aos lugares que eu gostaria, pois como disse, acabo viajando junto com eles, aqui de longe, acompanhando tudo do lado de cá da tela e depois ouvindo detalhadamente cada história, de cada lugar, de cada comportamento, culinária e costumes, contada com um entusiasmo que te faz sentir dentro das cidades que foram visitadas. Rê é desse tipo. Sempre que volta de suas viagens, passamos tardes ou noites inteiras em longos almoços ou happy hours, curtindo seu diário de viagem. Ele adora compartilhar suas experiências e os amigos que ficam, amam ouvir. Mas Rê conseguiu escapar mais uma vez dos States, e o vigésimo país que será carimbado em seu passaporte é o Marrocos, pra onde embarcará em agosto.

O Sé é outro que não para. Grécia e Espanha são só dois dos países que ele adora, mas sua grande paixão é Paris. Vendeu apartamento, móveis, se desfez de tudo, com o único objetivo de realizar seu mestrado em Paris no ano que vem, e garante sem titubear que no reveillón de 2016 estaremos juntos, comemorando o Ano Novo, vestidos em belíssimos casacos de pele e brindando com a melhor champanhe francesa num château em Montmartre. Eu embarco nas viagens de Sé, que é uma figura hilária, mas sei que minha realidade é outra. Um dia certamente conhecerei Paris, mas não creio que seja no ano que vem.

Lu ama a América do Sul, vai duas vezes ao ano. Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia. É pertinho e muito barato, segundo ela, e são lugares lindos que valem muito a pena. Cada vez que ela vai, volta mais encantada.

Bi morou dois anos em Florença. Lali vive na Suíça. Cla realizou o sonho que parecia impossível, de conhecer a Suécia; foi para ficar alguns meses, arrumou um marido e acabou ficando de vez. Já pode ser considerada cidadã sueca, pois lá se vão 15 anos.

Em 2008, a amiga de adolescência Nadege, mudou-se para Portugal e nunca mais nos vimos pessoalmente, mas jamais perdemos o contato. Nossa amizade é algo transcendente e muito forte. Eu amo essa menina demais. E a notícia maravilhosa é que ela está no Brasil até o final desse mês. Vamos nos reencontrar e matar muito essa saudade de toque, abraço, sorrisos e voz. E eu vou querer saber tudo sobre a vida na Europa, o casamento e a mulher madura, independente e profissional realizada que ela se tornou. A última vez que nos vimos éramos apenas dois adolescentes cheios de sonhos. Acho que ela realizou mais do que eu, mas eu continuo na luta pelos meus, que incluem principalmente viajar, viajar muito.

Pra mim não existe nada mais inteligente, descolado e libertador do que conhecer novos lugares, culturas, pessoas. Vivenciar novas experiências. Sair da comodidade, da mesmice. Experimentar sabores, aromas e texturas diferentes. Sentir outras emoções. Tornar-se cidadão do mundo. Isso é luxo, é chique, é fino e divino. Mais do que fotos ostentadas em redes sociais, viajar enriquece a alma, alarga a mente e engrandece o coração. Independente de dinheiro, quem é rico de espírito consegue enxergar a dimensão de sair do lugar comum. Não precisa ser Europa, Estados Unidos, Ásia ou ilhas caribenhas. Pode ser uma viagem pro interior de onde você mora, um lugar novo ou velho conhecido, não importa, tudo depende do seu olhar e do seu espírito.

Eu citei lugares fora do Brasil, porque a gente se empolga, né, com as viagens dos amigos, com todo o glamour que parece envolver uma viagem internacional e, principalmente, com aquilo que a gente deseja muito, mas parece inacessível no momento. Mas viajar te transforma de qualquer maneira, seja pra qualquer lugar. Há um tempo atrás, uns doze anos, mais ou menos, uma campanha publicitária espalhada pela cidade, e que não vou lembrar de que empresa era, dizia o seguinte: "Você sempre volta diferente de uma viagem.". Aquele slogan nunca mais saiu da minha cabeça e é a mais pura verdade. Pode ser uma diferença externa, como um corte de cabelo ou até uma mudança de sexo, mas a verdadeira diferença é interna, de dentro pra fora.

Eu mesmo pude confirmar isso em duas viagens recentes que fiz. Há um mês estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. A cidade que cresci conhecendo pela televisão, era uma pendência muito antiga em meu nada extenso currículo de viajante. Quatro anos vivendo em São Paulo, decidi que era uma vergonha não conhecer o estado vizinho que o complementa. Eu acho que o Rio e Sampa, a despeito dos que não gostam da Terra da Garoa, são cidades que se complementam sim, mas divago. Então, estive no Rio e resolvi minha pendência, a pendência de estar lá, na verdade, porque pra conhecê-la mesmo, ainda é preciso voltar muitas vezes, mas divago novamente. O ponto onde quero chegar, é que mesmo não conhecendo tudo, estar no Rio de Janeiro foi uma realização. Foi lindo conhecer os lugares que vi e ouvi tantos personagens citar e passar por eles ao longo de uma vida sonhando em escrever novelas. Lagoa Rodrigo de Freitas, onde a Joyce de História de Amor tantas vezes parou pra refletir se ficaria com Caio ou Bruno; Santa Teresa, onde recentemente habitou Cristina e sua família, Xana e sua trupe, em Império; Copacabana, cenário de BabilôniaParaíso Tropical e tantas outras; Ipanema, Lapa e Aterro do Flamengo, alguns dos poucos lugares que conheci e adorei. Sem falar na alegria de ser recebido com todo carinho e hospitalidade, em seu apartamento na Glória, pelo Lê. Sim, meus senhores, ele mesmo, o editor deste blog, que está em Nova Iorque. Olha que privilégio o meu, matei dois belos coelhos com uma cajadada só, conheci a cidade maravilhosa e as pessoas maravilhosas que me receberam.

Uma amiga me disse que eu estava bonito demais nas fotos que tirei. Eu não estava mais bonito, era a beleza da cidade que refletia em mim. Foram dias deliciosos, que me fizeram retornar mais leve.

Por último, na semana retrasada, tirei 10 dias para rever minha mãe, no litoral Norte do Rio Grande do Sul. Cidade pequena e vazia nessa época do ano, Capão da Canoa é deprimente, mas eu realmente voltei diferente dessa viagem. Acho que valorizando mais minha vida e minhas escolhas. Me sinto mais dócil, compreensivo e complacente com os que me cercam. A raiva que sinto de tantas coisas tem diminuído. Ainda não entendi muito bem o porque dessa conscientização, mas tenho me sentido bem, e não me restam dúvidas de que foram as viagens. Uma cabeça bem arejada pode ser um santo remédio pras piores doenças da alma.

Quando a Bi voltou da Europa, em 2010, contando todas as novidades e falando dos lugares incríveis que conheceu, disse que de todos, Londres era a minha cara, e eu fiquei feliz, porque muitas vezes me projetei fazendo coisas prosaicas como visitar uma livraria em Londres; andar de bicicleta às margens do Rio Sena, em Paris; passear de gôndola em Veneza ou entre os pombos da praça San Marco; dançar tango em Madri (mas também pode ser em Buenos Aires) e comer tapas em Barcelona; deitar na grama verde do Central Park, no verão, brincar na neve, no inverno e pisar nas folhas secas, no outono, em Nova Iorque.

Por todos esses desejos e por tudo o que significa viajar pra perto ou longe, pra dentro ou pra fora do país, esse texto é uma homenagem à todos os viajantes amigos e desconhecidos, que sabem que a viagem mais importante é aquela que se faz pra dentro de si mesmo.
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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