terça-feira, 30 de junho de 2015

O Sol de Ícaro




O que? Não me olhe com essa cara. Quem teve infarto foi você. E eu bem que avisei pra parar com aquela quantidade de cafeína, hein... Parece criança. Se bem que dizem que envelhecer é voltar a ser criança. O que? Novo em folha? Tá, tô ligado. Mas mesmo assim vai ficar de repouso, como o médico recomendou. Vou trocar essa música, Nina Simone cantando I think It’s Going To Rain Today é muito depressivo. O que? Deixar tocando? Tudo bem, você sempre gostou de músicas tristes. Não acho que era desse jeito antes de... Deixa pra lá.

O infeliz do meu irmão esteve aqui? Só ontem?! Depois de duas semanas desde o infarto ele só aparece ontem?! Que merda, o que ele tá pensando? Calma... Calma... O médico disse que você não pode se estressar agora, o que significa que eu tenho que ficar calmo perto de você, pra não te estressar. Mesmo querendo descer a porrada naquele ingrato que só quer saber de se pegar com o namorado. Eu tenho que fazer tudo por aqui, porra...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Paixão, Amor e Outras Drogas





Vejo muita gente querendo amar. Gente que parece bem intencionada, que procura sua alma gêmea, cara metade ou whatever para a vida. Gente que quer viver um amor, mas que, infelizmente, não está realmente disposta ao que esse verbo intransitivo realmente significa. Porque, convenhamos, com tanta "disposição", se houvesse realmente vontade, seria mais fácil essas pessoas se encontrarem, não?

Porque amar, apesar de parecer fácil, é aprender a abrir mão, a ceder, a ser um pouco menos egoísta. Não, não adianta, o seu príncipe encantado ou princesa perdida não existe fora do mundo dos seus sonhos, eu juro para você. Dói, mas aceitar a realidade é bem melhor do que viver na fantasia. O que tem por aí é um monte de gente imperfeita (que nem você, veja bem), que pode ajudá-lo a ter uma vida bem interessante, se ambos se dispuserem a compartilhar a vida juntos e com todos os contras que isso pode representar.

domingo, 28 de junho de 2015

Fazendo História




Eu me formei Historiador em 2009. Contando desde 2004, quando entrei pra UFF, estou nesse meio já há mais de uma década. Isso mostra duas coisas: a primeira é que estou ficando velho; a segunda, que eu vivi esse período com outro olhar, que a gente aprende na faculdade e que é o de buscar rupturas ou continuidades que possam ser definitivas pra alguma cultura em particular, ou pro mundo. 

Nessa profissão tentamos achar isso o tempo todo: em que momento parece acontecer uma virada onde as pessoas passam a se comportar de maneira diferente de antes? Não é de uma hora pra outra, veja bem: as estruturas vão mudando aos poucos, junto com o modo de pensar, de agir e, de repente, pimba, está inaugurado um novo tempo. Normalmente, quem está vivenciando essas mudanças nem percebe que algo aconteceu, são os especialistas que olham pra trás e delimitam cada período, baseado no que eles próprios consideram importante. E na minha modesta opinião, eu ainda não tinha presenciado como Historiador algo que pudesse realmente chacoalhar as estruturas do planeta. Até essa sexta. 

sábado, 27 de junho de 2015

Seriados Americanos X Novelas Brasileiras






Virei um seriador há pouco tempo. Não daqueles enlouquecidos, que fazem maratonas desenfreadas, como alguns coleguinhas aqui do Barba, mas estou amando esse maravilhoso mundo das séries americanas, é mesmo bom demais. Não tenho Netflix, mesmo a assinatura sendo baratinha e também não aceitei as senhas de alguns amigos que me ofereceram suas assinaturas, pois tenho absolutamente todos os títulos disponíveis online.

Quando descobri essa disponibilidade, primeiro fui atrás de títulos antigos, que costumava acompanhar na TV aberta sem ter finalizado as temporadas, como Ugly Betty, Grey's Anatomy, Heroes, Six Feet Under Cold Case. Mas como a oferta é imensa, essas séries são assistidas em doses homeopáticas, ainda não finalizei nenhuma, pois a todo momento sai uma novidade. Uma nova série que parece incrível estreia e lá vou eu conferir se é mesmo boa e não consigo parar até chegar a season finale. Foi assim com Scandal, uma série absurdamente viciante e boa pra car***o, que comecei esse ano, já em sua quarta temporada. Também com How To Get Away With Murder. Ambas, junto com Grey's Anatomy, são produzidas por Shonda Rhimes. Que mulher é essa, gente?Divíssima!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sobre Lembranças (e Grandes Expectativas)






Cada idade tem os seus humores, os seus gostos e os seus prazeres, e, como a nossa pele, embranquece os nossos desejos.
(Mathurin Régnier)

26 de Junho. 15: 50. Terça-Feira. Alguns anos atrás.

Foi parto normal. Se todas as mães pensassem assim, hoje em dia não existiram tantas cesáreas desnecessárias. Como sofreu a mãe, o parto fora complicado e o menino foi direto para a incubadora, precisava respirar, havia quem achasse que nem conseguiria sobreviver. Sobreviveu, contudo, ganhou uma renite para o resto da vida. E amigdalites no mês de julho eram constantes, assim como as dores de cabeça no primeiro dia de aula. Mas nada que o tempo não curasse. 

O tempo, sempre o tempo, nunca foi seu amigo. E a escarlatina, afinal, quem já teve isso? Coitado, sofreu tanto, mas dor maior era não poder abraçar sua madrinha. Sua madrinha, seu amor, seu maior amor. Saudade, como o mês de julho podia ser tão ingrato!? Não há tempo que cure uma saudade, uma dor; a cicatriz ficou para sempre e a gente aprende a lidar com ela, a mesma cicatriz dos cortes ao longo da vida. E dos medos, e das apreensões. 


quinta-feira, 25 de junho de 2015

O Inverno Por Um Carioca (ou Uma Carta de Amor ao Frio)






Finalmente escuto a chuva batendo em minha janela do quarto, às três da manhã, e sei que o clima, ao acordar, será gostoso e ameno. Sou carioca e sei da nossa baixa tolerância ao frio. Somos aqueles que tiramos o casaco da gaveta no primeiro sinal de chuva. Também somos reclamões quando ficamos mais de três dias sem sol. Mas eu sou aquele que fica feliz quando o inverno bate na porta e chega na hora certa.

Vou deixar uma coisa bem clara de início. Aqui no Rio de Janeiro existe só uma estação do ano: o verão. Mas, vez ou outra, o frio chega para fazer uma visitinha. Melhor dizendo, o frio em sua variação carioca. O mais comum é friozinho do final de tarde. Ele é ótimo para dar um passeio no calçadão da praia ou dar uma volta pelo bairro. Sim, você pode acabar perdendo o celular, carteira e ser esfaqueado de bônus, mas, ou é sair ou ficar confinado em casa. E esse confinamento é sem câmeras e não vem com um bom prêmio no final. Então, ficamos com a primeira opção e damos um rolê.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Caminhos da Intolerância




Na minha última coluna escrevi sobre o Brasil que sai doarmário. Aquele que mostra a sua cara, para o bem ou para o mal (de acordo com o ponto de vista). O Brasil que viu as vendas de O Boticário se ampliarem no Dia dos Namorados em 3%, mesmo em um cenário de retração econômica e contenção de custos, depois de ter colocado no ar uma campanha celebrando o amor, independentemente do gênero. Que motivou outras marcas, até concorrentes, como Natura e Leite de Rosas, a tomarem rumos semelhantes. O mesmo Brasil, que nesses poucos dias, também demonstrou imensa intolerância com as diferenças ao tratar, mais uma vez, de religião.

Fazendo um recorte na última semana, vimos uma menina de apenas 11 anos levar uma pedrada por ser candomblecista – e ainda tivemos que ouvir que é uma escolha muito prematura para uma criança, quando cultos católicos e evangélicos estão cheias delas, muitas vezes batizadas poucos meses após vir ao mundo em suas igrejas. Depois, casos de depredação em um templo que prestava consultas esotéricas à sua assistência. Na sequência, o túmulo do médium Chico Xavier sofre uma tentativa de depredação (só não foi algo grave pois seu vidro era blindado). E um dirigente de um grande centro espírita no Rio de Janeiro aparece morto com sinais de tortura em sua casa, dentro da instituição.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A Maldição de Ícaro





Inferno... Que inferno... Uma semana sem trabalhar e eu já to querendo cometer um homicídio. Nota mental: nunca beber se for trabalhar no dia seguinte, e nunca beber antes de ir pro trabalho... Que merda que eu fiz? Vomitar praticamente em cima da mesa do chefe, numa das reuniões mais importantes da empresa? Maldição... 

Eu culpo você. Isso mesmo. Eu culpo você, sua inútil. Tinha que me dar o nome de um imbecil que nem asas próprias tem, mas asas falsas, fracas, que não aguentam o calor do sol. Eu estava pertinho assim do sol, pertinho assim. Droga, meus olhos estão ardendo. Eu culpo você. Podia ter me dado o nome de um deus; não precisava ser um dos doze, mas podia ter me dado o nome de um deus menor, com uma história melhor, talvez. Mas não, tinha que me chamar de Ícaro, me dar um par de asas falsas e morrer, me deixando aqui sem saber como usá-las, deixando meu pai desamparado, sem saber o que fazer comigo, e meu irmão mais velho que... Eu culpo você! 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Rola Perdida e Uma Discussão Necessária





"Ô Malafaia, vai procurar uma rola!"
Boechat, Ricardo

Nunca antes na história desse país uma rola chamou tanto a atenção como agora. E o pior (ou melhor), a rola do momento é aleatória e impessoal, nunca foi vista ou fotografada. Mas virou a sensação do momento, dos memes da internet e um verdadeiro grito de "cala a boca" da grande maioria não evangélica do Brasil. Salve Boechat, salve o desabafo não ensaiado.

Enquanto parecemos voltar à uma Idade Média, com casos absurdos em um país laico, como a crucificação metafórica de uma trans que ousou fazer uma alegoria à Cristo, uma menina de 11 anos sendo apedrejada por ser praticante de candomblé, com casos de homofobia extrema e orações em pleno Congresso Nacional, o discurso do jornalista Ricardo Boechat, respondendo a um tuite provocador de Silas Malafaia causou comoção. 

domingo, 21 de junho de 2015

A História de Uma Tragédia Anunciada





“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.” 
Karl Marx

O ano era 280 d.C. Um profeta galileu havia morrido, séculos atrás, por pregar o amor, aquele sentimento revolucionário que, por si só, é insubmisso. Seus seguidores, homens e mulheres que seguiam a seita nascida do ensinamento do profeta morto, estavam naquele dia de sol, agrupados, agarrados uns aos outros no centro de uma grande arena. Viam, ao longe, a tribuna decorada com pomposos tecidos vermelhos e ricos arabescos romanos. Não enxergavam, mas sabiam que ali estava o Imperador de Roma, símbolo de poder e riqueza, senhor de leis e decretos que os jogaram ali, na arena. Logo viriam os leões. Aqueles primeiros cristãos morreriam, vítimas do preconceito, da intolerância religiosa.

Constantino veio pouco tempo depois. Em uma jogada de mestre, transformou em religião oficial de Estado a seita cristã – muito mais simples que o extenso panteão greco-romano-egípcio que povoava preces e sortilégios de metade dos cidadãos do império – que até então fornecia corpos a serem crucificados e jogados na arena. Confirmando a máxima de Paulo Freire, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Com os cristãos no poder, templos pagãos foram invadidos, queimados e destruídos. No Egito, tudo que havia sido salvo da Biblioteca de Alexandria desapareceu para sempre. Cientistas gregos foram perseguidos e mortos. A história se repetia como tragédia.

sábado, 20 de junho de 2015

De 1998 Para 2015, Com Carinho








Ando saudoso, por esses dias, dos anos 90 e de sua cultura pop. Todas as referências musicais, cinematográficas, literárias e televisivas, que formaram meu caráter numa fase difícil da vida, tem me feito companhia ultimamente e provocado uma nostalgia danada.

Há momentos em que remexemos no passado, especialmente quando o presente não está muito legal, e temos a falsa ilusão de que o que vivemos lá atrás era a mais pura tradução de uma vida perfeita, mas não é verdade. Trata-se da velha história, aliás, muito bem contada por Wood Allen em um de seus melhores longas, Meia-Noite em Paris (2011), em que o passado sempre nos soa mais cativante e sedutor do que o agora, principalmente o que não vivemos. Se ainda não viu o filme assista, é uma excelente pedida.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Sobre as Impossibilidades






1. Impossibilidade
S.f. Característica daquilo que é impossível.
Que está absolutamente proibido.
Aquilo que não pode ser realizado.
(Dicionário Informal)

Durante nossa vida nos deparamos com diversas oportunidades. Da capacidade de querer atingir um determinado patamar na sociedade ou apenas realização pessoal. Entretanto, nos deparamos também com situações que não podemos resolver, não por falta de aptidão, e sim porque não nos é permitido ter ou ser.

Faz parte de cada um de nós a luta pela vitória, pelo sucesso, pelo bem-estar, pela excelente qualidade de vida. Porém, isso é determinado por cada indivíduo. Como vivemos em sociedade, e ela dita ordens que muitas vezes não são aquilo que desejamos, cria-se então um modelo, um padrão, que com o passar do tempo impõe regras que faz com que o mesmo indivíduo frustre-se por não conseguir estar dentro daquilo que espera-se dele. Aqueles que tornam-se vitoriosos ao fugir do padrão imposto são os que mandam os mesmos padrões às favas. Porém, nem sempre se é possível fazer isso. Em alguns momentos de nossas vidas somos obrigados a dançar conforme a música. Digo que, principalmente hoje, somos obrigados a isso. Muitos são mentes extraordinárias que serão engolidas pelo meio em que vivem, podendo depois mandar as tais regras para o espaço quando o momento certo chegar, e outros irão preferir seguir a massa.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Dicas do Sil: 03 Séries Imperdíveis




Sou filho dos anos oitenta e noventa. Sim, tudo junto e misturado. Posso dizer que meu caráter foi formado  através das novelas mexicanas do SBT e de um mix  das séries que assistia na época. De Beverly Hills 90210 chegando até Dawson’s Creek e passando por Ryan e Seth de The O.C..

Então decidi hoje inaugurar um novo espaço na minha coluna: Dicas do Sil. Seja sobre séries, cinema ou até mesmo música. Sempre que surgir algo que acredito que seja bacana compartilhar com vocês, farei isso.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Saindo do Armário




Se há algo de positivo na onda de intolerância que temos verificado recentemente, seja no relativo protecionismo das redes sociais ou na evidente exposição das ruas, é que o Brasil está, mesmo que aos poucos, saindo do armário. Não me refiro somente aos homossexuais que se assumem para si mesmos ou publicamente. Mas principalmente àqueles que sempre preferiram, por algum tipo de comodismo, manterem-se em cima do muro e que agora começam a demonstrar suas posições de forma mais clara.

Desde o advento das mídias sociais as opiniões se recrudesceram. Os que sempre tiveram suas “pequenas” homofobias do dia-a-dia (coisas como “isso tem que ser feito só entre quatro paredes” ou “com o meu filho isso não acontece porque não falta educação”) passaram a sentirem-se mais aptos a destilarem seus ódios, independentemente do fundamento. E os que sempre foram simpatizantes à causa começam a abandonar o silêncio e demonstrar seu apoio, realizando uma autêntica onda de respeito à individualidade humana.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A Solidão de Ícaro




Pode deixar que eu subo sozinho, Ed. Não, não precisa subir comigo. Ok, já que você insiste... Aaaah... Por que você é tão bom comigo? Sempre me dá a cerveja mais gelada, a melhor vodca pelo melhor preço... Ed, você é afim de mim, por isso faz essas coisas? Ei, eu estava brincando, não precisa me dar tranco, seu puto! Isso, é aqui, oitocen... É, é aqui mesmo. Pode me ajudar a tirar a roupa? É que eu durmo apenas de cueca, me sinto mais à vontade. Cuidado com essas mãos bobas aí, hein! Aaaah, obrigado! Como é bom deitar de bruços assim, praticamente pelado. 

Mas ei, espera, não vai embora. Não, espera um pouco, eu preciso terminar o que eu comecei a contar lá no bar. Eu sei que você estava espiando, seu danadinho... Acha que eu não percebi? Você sabe de tudo, você é o cara! Sente aí. Isso. Pensando na Helena, foi até melhor que ela tenha me trocado, porque eu consegui um emprego que, cara... Era O emprego, viu?! E me sugava, e eu não teria tempo pra ela, isso ia me dar dor de cabeça, porque não ia conseguir dar carinho pra ela, e ela era dessas namoradas melosas. Ninguém merece. Meu tempo nessa empresa não durou tanto, porque eles eram um bando de frouxos bonzinhos que levavam um ano pra fechar um negócio, e tudo por quê? Porque eles são diplomatas, adeptos do bom diálogo, e me acharam muito... Agressivo. Bando de frouxos, isso sim! 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Jesus Estaria Contigo?







Vivemos dias estranhos. Em pleno ano de 2015, parece que voltamos no tempo e uma nova-antiga “moral” toma conta de nossa sociedade. A liberdade é cerceada e comportamentos são condenados apenas por serem diferentes. Um beijo choca, uma bunda causa reboliço e a gritaria é generalizada. Na visão de muitos é explícito um retrocesso gritante, que preocupa e nos faz pensar.

E o nome de Jesus Cristo vem reverberando entre tudo isso. Famoso conhecido de todos nós, Cristo vem sendo utilizado por pessoas diversas para apontar comportamentos errados e ofensivos. E uma palavrinha ganhou as manchetes e vem sendo repetida por uma massa manipulável: a cristofobia. Como se o problema fosse Jesus Cristo e não as pessoas que se utilizam de seu nome como forma de atingir seus interesses para lá de questionáveis. 

domingo, 14 de junho de 2015

Para Você Que Se Foi Sem Nunca Ter Estado





Dia desses peguei um trânsito horrível e, sem ninguém na carona ou bateria no celular, me vi sem muitas alternativas a não ser pensar em você. Nunca gostei de refletir sobre o que aconteceu - prefiro poupar a exaustão de me debruçar sobre o nada -, mas pensamentos têm a inconveniente mania de surgir onde não são chamados. Então pensei na gente, muito a contragosto, sendo “‘a gente”’ um termo generoso demais pra descrever o que rolou. Com o pragmatismo que tende a me faltar em tarefas cotidianas, como escolher um canal ou um sabor de sorvete, tentei resolver como o aparentemente simples 1 + 1 do nosso caso nunca virou 2. E sabe… Acho que entendi. Não sei se chamo de epifania (estou guardando esse termo pro dia em que eu finalmente me resolver comigo mesma), mas o estalo surgiu lá pra altura da Lagoa-Barra, quando aquele Palio vermelho entrou sem dar seta e eu quase acabei no meio-fio. Não fui eu. Não foi a gente. Foi você. No fim das contas, matematicamente, meu 1 não tinha como virar 2 com o seu zero. 

sábado, 13 de junho de 2015

Linda de Morrer






Enquanto retocava o batom vermelho em frente ao espelho, pensava no quanto era linda, sensual, exuberante e a um passo de tornar-se uma rainha das passarelas. Tinha absoluta certeza de que era perfeita e não perderia aquele concurso por nada. Ela queria o poder, a fama, o brilho, tudo o que exaltasse sua beleza única e esfuziante. Queria ser maior que Gisele Bündchen. Assim era Sabrina Mondego.

A garota de longos cabelos castanho mel, lisos até a cintura, no frescor de seus 18 anos, encarava o concurso "Garota da Capa" como a grande chance de sua vida. Desde menina, era dona de uma vaidade exacerbada. Aos 12, quis fazer uma correção nas leves orelhas de abano, procedimento que sua mãe vetou. Aos 15, cismou de colocar silicone nos seios, que não cresciam fartos como desejava. Outra ideia recusada pela mãe. Porém, aos 16, após inumeráveis apelos, carregados de chantagens emocionais, os pais autorizaram que Sabrina fizesse todas as intervenções cirúrgicas que desejava. Tudo sob a batuta de um bom profissional da área.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Sobre a Gula (ou A Megera, o Glutão e os Baldados)





Acostumou-se a ser assim. Sempre viveu cercada por tudo que desejava e a fazer birras quando não tinha o que queria na hora que lhe convinha. O pai, um contador aposentado e frustrado, dava-lhe tudo; a mãe, uma dona de casa frustrada, lhe cercava de todos os mimos. Se queria uma boneca que falava, andava e soltava pum, ela possuía, mas logo enjoava e deixava de lado assim que via outra coisa que lhe apetecia.

Fora sempre assim durante a infância, piorara na adolescência, insuportável como adulta. Tanto que os pais começaram a preocupar-se. Ela um dia casaria? “Quem seria o louco?”, perguntavam-se todos. A cidade era pequena e todos conheciam-se muito bem. Casar com a filha do contador era algo que ninguém almejava, nem que os pais encontrassem um tolo e o pagassem, a fama da filha endiabrada era conhecida e ninguém ousava enfrentar a besta-fera. Uma vizinha cochichou no ouvido da mãe que o rapaz podia ser de outra cidade, de preferência uma cidade distante, dessa forma não corria o risco de casar com o monstro. Mas havia um problema, eles não conheciam ninguém de tão longe que pudesse ser a vítima. Coitados, estavam na lama.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Toda Soberba Será Castigada




Por muitos anos meu marido viveu para o trabalho. E agradeço ao Jaime, meu querido irmão e organizador desse evento, pela chance e ao convite de poder dizer algumas palavras em uma noite tão especial. Conforme os anos vão passando você acaba por esquecer certas coisas e detalhes que se vive na vida a dois. Nem sempre o Facebook tudo sabe e tudo vê. Eu não quero enganar ninguém, viu? Aos mais jovens aqui presente, infelizmente essa é a vida real de um casal. 

Você pode esquecer quando foi que se conheceram, mas lembrará muito bem do primeiro bolo que recebeu por conta de uma reunião de negócios da empresa. Também vai saber de cor quando foi a última vez em que os dois saíram para jantar ou então quando seu marido não chegou em casa com cheiro de bebida. Muita bebida. Existem momentos que ficam grudados na gente, na nossa memória, e, infelizmente, vão ocupando todo o espaço das outras coisas que se vive junto. Do pedido de casamento feito no segundo natal que se passa junto. Da felicidade em descobrir o sexo do primeiro filho e também da falta de um tapinha nas costas e de ouvir um “tudo vai ficar bem”, quando se aborta espontaneamente o segundo. 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

No Divã





Olhava o relógio de parede, que girava os ponteiros segundo a segundo, como se contasse um grande desperdício. Passou a mão pelo queixo, ajeitou os óculos redondos. Tentou mais uma vez:

- Edgard, é nossa terceira sessão. E até o momento você só tratou de amenidades. Preciso saber o que o trouxe aqui. Certamente não foi o seu jogo de tênis com os amigos ou a panela de pressão que está sem borracha.

O homem, deitado numa cadeira reclinável, que se mostrava bastante confortável, parecia num desconforto sem fim. A careca precoce suava levemente. Roía a unha do polegar direito, quase que ao sabugo. Após um profundo suspiro tirou a mão da boca. E, finalmente, proferiu:

terça-feira, 9 de junho de 2015

A Ira de Ícaro





Uau... Essa rodada veio mais forte, hein? Parece que erraram o meu pedido... Enfim, tem álcool, eu tô dentro. Não sejam tímidos, sirvam-se também! Ei, garçom, traz uma rodada pra todo mundo! É, é bom aproveitarem enquanto eu estou bêbado, porque quando sóbrio... 

Ah, mas que falta de educação a minha, não? Muito prazer, meu nome é Ícaro. Ícaro Mascarenhas. Nome legal, não? Pois é, minha mãe, aquela... Não sei nem como descrever aquele ser... Minha mãe resolveu me dar esse nome. Segundo meu pai, que ainda está vivo, ela virou pra ele e disse: "Meu amor... Esse moleque vai se chamar Ícaro, porque eu tenho certeza de que vai ser um aventureiro, vai voar alto, bem alto, vai tocar o sol!"

Bem, o que esqueceram de dizer pra essa mulher é que o idiota do Ícaro da mitologia, sabem de quem eu estou falando, não sabem? Pois é, aquele idiota, tapado, estúpido, voou pra perto do sol e BUM, perdeu as asas, caiu e morreu. Grande aventureiro, não? Que piada... 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Breve e Acomodada Vida de Frederico Assunção




Acordou sobressaltado. Tivera um sonho absurdo, onde era um maratonista olímpico, que treinava para um prova importante. Correra dezenas de quilômetros e ainda passara mais de uma hora na academia. Acordou cansado, quase desistindo de levantar da cama, só de pensar nessa improbabilidade.

Aos 27 anos, Frederico Assunção - Fred, para os íntimos - era um clichê ambulante. Falso magro, com a gordura se acumulando nos piores lugares, tinha um emprego estável e chato, mas que pagava as suas contas, como ele sempre fazia questão de frisar. O relacionamento com Rose era levado desde a adolescência e, apesar de noivos (depois de muita insistência dela), levavam uma vida de casados no que dizia respeito ao sexo: ele era quase inexistente. Para os amigos, Fred era um caso perdido: era a preguiça em forma humana.

domingo, 7 de junho de 2015

Intercâmbio: Vivendo em Dublin





Quando resolvi fazer um intercâmbio, eu não tinha ideia do que me esperava aqui; mas não sabia o quanto difícil seria. Hoje, ao completar quatro meses na Ilha Esmeralda, tenho certeza absoluta que isso era o que realmente queria. 

Logo que cheguei a Dublin, percebi que viver aqui não seria tão fácil como eu estava imaginando e, de cara, tive um choque de cultura imenso. Ao sair do aeroporto, senti o que realmente era frio (em uma temperatura abaixo de 0º), vi pela primeira vez tudo escrito em inglês e senti a dificuldade de me comunicar com o conhecimento básico do idioma que eu tinha. Mas não me deixei me abalar, eu estava vindo para a Irlanda exatamente para aprender um novo idioma e também me conhecer mais, aprendendo tudo o que eu poderia com esse novo país. 

sábado, 6 de junho de 2015

A Parada Gay e Eu






Amanhã, domingo (07/06) é dia de Parada Gay aqui em São Paulo. Qual a sua relação com esse evento? E na coluna de hoje, falo um pouquinho da minha, que começou lá em 2003, e qual meu sentimento em relação a essa manifestação popular atualmente. 

Pra quem não conhece a origem da Parada do Orgulho LGBT, aí vai uma breve explicação: o mês de junho, ficou conhecido como o mês do Orgulho Gay, porque no ano de 1969, mas especificamente no dia 28 de junho, no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, houve uma rebelião entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros contra a polícia, que se iniciou com uma carga policial e durou vários dias. Iniciou-se no conhecido bar de frequência homossexual, Stonewall, e tomou as ruas vizinhas. Este acontecimento é largamente reconhecido como o conjunto de eventos catalisadores dos modernos movimentos em defesa dos direitos civis LGBT. Stonewall foi um marco, por ter sido a primeira vez em que um grande número de pessoas LGBT se juntou para resistir aos maus tratos da polícia contra a comunidade. Ficou assim estabelecido pela mesma, que o mês 06 seria o mês do Orgulho LGBT, há 46 anos. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Sobre Astros, Homens e Como Conquistá-los








Eu adoro estudar astrologia, tarô e outros oráculos. Até possuí um blog sobre o assunto. Eu acredito que esses oráculos refletem sobre muitas características intrínsecas do ser humano que estão adormecidas e desejam acordar, e estas ferramentas nos ajudam a despertá-las. Mas isso é uma opinião minha, respeito quem não acredita em nada disso porque tem a Bíblia.

E como bem tem observado um dos meus melhores amigos, Tiago Melo, os meninos do Barba Feita andam numa carência arretada, então, resolvi ajudar não apenas eles, mas vocês também, meus queridos leitores, com meus talentos e tentar mostrar o caminho das pedras para quem está tentando iniciar um romance. Para quem me lê há bastante tempo, vai perceber que isso não é novidade e que já escrevi sobre este assunto antes, mas resolvi fazê-lo novamente já que tem uma nova turma chegando e mais gente carente. 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

De Que Lado Você Está?




Não tem como fugir. Ou você é contra ou a favor, mas no meio do caminho, no meio termo, no mais ou menos não da mais pra ficar. Chegou o momento de você se posicionar. Não existe espaço para quem não liga e prefere ser da “política” do “deixar pra lá” ou de fazer parte do coro que tenta evitar o inevitável fazendo a vez do “deixa disso”. Não agora, não cabe mais. Existe uma guerra em curso e você, meu querido leitor, amigo, colega, desconhecido ou conhecido, precisa saber muito bem qual é o seu papel no meio disso tudo.

Você já sabe de toda polêmica que envolve a propaganda do perfume do Boticário. Sabe também que pessoas utilizando a posição religiosa que ocupam iniciaram uma campanha de boicote. Mas engana-se quem pensa que eles focavam só na marca de perfume exibida no comercial. Teve inicio nas redes sociais toda uma mobilização com a missão de negativar ocomercial no Youtube. Paralelo a isso tudo, denúncias ao CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) foram feitas e o site do Reclame Aqui também foi palco de reclamações. Só que, diferente do que vinha acontecendo, esse não é mais um novo capítulo da “guerra” travada pelos valores da “Tradicional Família Brasileira” contra a comunidade LGBTTT, mas o início de um novo livro. Ou uma nova saga, como preferirem.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sobre a Crise Que Não Veio




Oi, 30 anos. Faz quase um ano que eu estou com você. E sabe aquele lance da crise que diziam que a gente teria junto? Passou longe! Eu não tive vergonha em nenhum momento de dizer que eu tinha você. Nem mesmo fazer piadinhas de que a idade estava pesando. De fato, ser um pouco velho sempre fez parte da minha personalidade; logo, me tornar mais maduro na carteira de identidade nunca foi um problema.

É bem verdade que uma série de coisas fez com que sua chegada em minha vida não se tornasse uma experiência traumática: eu já tinha um relacionamento estável, feliz, correspondido e de muita compreensão de quase dez anos; tinha uma família linda, que cresceu com a chegada de uma sobrinha mais linda ainda, que sempre me apoiou e demonstrou amor em todos os seus gestos; tinha uma carreira consolidada, estando uma ótima posição profissional, na mesma empresa havia quase sete anos, tendo experiências anteriores que me realizaram bastante também; tinha um livro lançado de minha autoria e um em conjunto com outros autores – e como já tinha plantado uma árvore, agora só falta o filho; tinha minha casa que, ainda que não própria na escritura, era o meu lar, o qual eu tenho o orgulho de manter junto ao meu companheiro; tinha uma experiência religiosa muito recompensadora, feliz e equilibrada; tinha amigos queridos por toda a parte, os quais mesmo sem muito contato, às vezes, sempre pude contar nos momentos de mais aperto ou aflição.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Qual o Problema?





Não, sério, qual o problema? Mais uma vez o amor e a igualdade mostram as caras e, mais uma vez a "família tradicional" surge de não sei onde, fazendo auê. Me diz, qual é a porra do problema? 

O Boticário foi lá e fez um comercial maravilhoso, digno de ser aplaudido de pé, mostrando três tipos de casais: um hétero, um gay e um lésbico, trocando carinhos, presenteando a outra pessoa com um perfume. Enfim, o comercial é lindo, de verdade, O Boticário mandou muito bem. Mas, a famosa "Família Tradicional" não gostou muito. Na verdade, eles não gostaram nenhum pouco disso. Agora me diz:
O QUE RAIOS E CARALHOS ELES TÊM A VER COM ISSO?! 
Sério, qual a necessidade de ir reclamar pra empresa, dizendo que se sentiram ofendidos com o comercial? Mudou alguma coisa na vida dessa gente? Cara, isso é uma grande filhadaputagem, porque uma trama novelesca, com filho matando pai, mãe, mulher traindo marido, gente roubando e tal, parece passar batido pelo radar da "Família Tradicional", agora, uma demonstração de AMOR, de CARINHO, causa furor? 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

7.000.000.000 (Sete Bilhões)





Sete bilhões. É esse, aproximadamente, o número de pessoas habitando a Terra atualmente. Número esse que aumenta a cada dia, mas que chegou a essa impressionante marca em outubro de 2011.

Sete bilhões de pessoas. Mas você pode viver sua vida sem sequer imaginar como esses outros seres vivem as suas. Nosso mundinho particular, nosso universo individual e o resto das pessoas no mundo lá fora, apenas tocando sua própria existência.

Sete bilhões de vidas, de anseios, de esperanças, de planos. Pessoas tão diferentes física, cultural e emocionalmente, mas que habitam o mesmo planeta, apesar de sonharem sonhos tão distintos, de viverem vidas díspares, sequer imaginando que outras bilhões de vidas seguem seu curso, no seu próprio ritmo e regras.