segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Breve e Acomodada Vida de Frederico Assunção




Acordou sobressaltado. Tivera um sonho absurdo, onde era um maratonista olímpico, que treinava para um prova importante. Correra dezenas de quilômetros e ainda passara mais de uma hora na academia. Acordou cansado, quase desistindo de levantar da cama, só de pensar nessa improbabilidade.

Aos 27 anos, Frederico Assunção - Fred, para os íntimos - era um clichê ambulante. Falso magro, com a gordura se acumulando nos piores lugares, tinha um emprego estável e chato, mas que pagava as suas contas, como ele sempre fazia questão de frisar. O relacionamento com Rose era levado desde a adolescência e, apesar de noivos (depois de muita insistência dela), levavam uma vida de casados no que dizia respeito ao sexo: ele era quase inexistente. Para os amigos, Fred era um caso perdido: era a preguiça em forma humana.

Fred, apesar de divertido e bem humorado nas poucas ocasiões em que se forçava a se relacionar com os poucos amigos que possuía, tinha uma preguiça mortal dos seres humanos. Não que os achassem chatos, mas pensar em ter de desenvolver laços e criar relações o desanimava. Afinal, dedicar-se a qualquer tipo de relação envolvia esforço e ele já tinha passado da fase de pensar nesse tipo de coisa. Os amigos que sobraram da adolescência eram aqueles realmente esforçados e que não ligavam para o comportamento de Fred, que quase nunca confirmava presença em eventos sociais ou estava disposto a se encontrar; sair de casa era muito trabalhoso e Fred adorava o conforto do lar dos seus pais.

O noivado com Rose era uma prova absoluta de como Fred encarava a vida. Cresceram juntos na mesma vizinhança e, por insistência dela, engrenaram um namoro. Fred não achava Rose bonita, mas ela estava disponível e ele não teve que entrar em nenhum jogo de conquista com ela. Sua companhia era agradável, ela era solícita e parecia entender o seu gênio e jeito. Seria a esposa ideal um dia: nem para sexo ela ligava muito e, todo mundo havia de concordar, Fred pensava, transar até podia ser legalzinho, mas o trabalho que dava quando chegava ao final, de levantar, lavar-se, tomar banho. Para Fred, muitas vezes, uma punheta casual e solitária era bem mais efetiva que o ato em si.

Analista de sistemas, Fred nunca fora um aluno brilhante. Os pais pagaram a universidade particular, onde ele não precisou estudar muito para entrar, nem para sair, e, sorte absurda, passou em um concurso público numa daquelas cagadas do universo. A relação candidato/vaga era alta, mas como quase ninguém atingia a pontuação mínima exigida, contar com o destino e conseguir o mínimo de pontos aceitáveis fez de Fred funcionário de uma empresa pública, que lhe garantia estabilidade e um salário que compensava a burocracia e a chatice de sua função.

Em 27 anos de vida, Fred nunca se esforçou muito para nada e sempre recebeu tudo de mãos beijadas da vida. Se considerava um jovem feliz e realizado, pois até mesmo pensar em outras possibilidades o desanimava absurdamente. Afinal, mudar para quê?

Seu quarto e, obviamente, sua cama, eram os lugares preferidos de Fred na casa em que vivia com seus pais. Em seu reino particular, tinha seu computador às mãos, o controle remoto da televisão e o seu ninho para o descanso perfeito. Porque a cama era o seu domínio e ali, preferencialmente nos braços de Morpheu, era o seu lugar.

Até que em uma bela segunda-feira de junho, quando o despertador tocou pontualmente às 7h da manhã, Frederico Assunção teve a maior preguiça já sentida em toda a sua vida e decidiu nunca mais acordar.

Quase ninguém sentiu sua falta, além de seus pais e de uma inconsolável Rose que, exatamente um ano depois, conheceu Luiz Felipe, um jovem atlético e que lhe proporcionou o primeiro orgasmo de sua vida.

Porque o mundo, é claro, seguiu sem Fred. Que preferiu a preguiça do que a própria vida.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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