domingo, 21 de junho de 2015

A História de Uma Tragédia Anunciada





“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.” 
Karl Marx

O ano era 280 d.C. Um profeta galileu havia morrido, séculos atrás, por pregar o amor, aquele sentimento revolucionário que, por si só, é insubmisso. Seus seguidores, homens e mulheres que seguiam a seita nascida do ensinamento do profeta morto, estavam naquele dia de sol, agrupados, agarrados uns aos outros no centro de uma grande arena. Viam, ao longe, a tribuna decorada com pomposos tecidos vermelhos e ricos arabescos romanos. Não enxergavam, mas sabiam que ali estava o Imperador de Roma, símbolo de poder e riqueza, senhor de leis e decretos que os jogaram ali, na arena. Logo viriam os leões. Aqueles primeiros cristãos morreriam, vítimas do preconceito, da intolerância religiosa.

Constantino veio pouco tempo depois. Em uma jogada de mestre, transformou em religião oficial de Estado a seita cristã – muito mais simples que o extenso panteão greco-romano-egípcio que povoava preces e sortilégios de metade dos cidadãos do império – que até então fornecia corpos a serem crucificados e jogados na arena. Confirmando a máxima de Paulo Freire, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Com os cristãos no poder, templos pagãos foram invadidos, queimados e destruídos. No Egito, tudo que havia sido salvo da Biblioteca de Alexandria desapareceu para sempre. Cientistas gregos foram perseguidos e mortos. A história se repetia como tragédia.

De Constantino para cá, o que mudou foi forçado pelo inexorável avanço da sociedade planetária rumo à humanização das relações e à defesa dos Direitos Humanos. Não fosse isso, ainda estaríamos queimando bruxas e organizando cruzadas em nome de Cristo. Por um breve tempo, estivemos livres disso e pudemos avançar em conquistas históricas que são um legado direto do Renascimento, do Humanismo e da Revolução Científica. A maré, no entanto, parece estar para virar. Se já não virou.

Uma nova página na história dos descendentes filosóficos desse povo jogado aos leões está sendo escrita no Brasil. É reflexo de um movimento conservador mundial, é verdade, mas assusta ver essa nuvem tóxica de ódio chegar a uma terra que sempre foi conhecida pela tolerância, fruto de uma sociedade construída com bases firmes na miscigenação e numa rica colcha de retalhos cultural. A entrada, estabelecimento e fortalecimento das igrejas neopentecostais - ou evangélicas – no país foi um fenômeno e tanto. Entrando na rabuda de um catolicismo caquético, repetiu aqui o que já tinha feito em outros cantos do mundo, mimetizando justamente o cristianismo da época de Roma: uma religião mais simples, com um deus só, mais horizontalizada. Fiéis são “irmãos”, a salvação vem com prosperidade e os “milagres” são constantes. Sucesso garantido. Cinemas, supermercados, concessionárias, em cada esquina de todos os bairros do país fecharam as portas por um breve momento e, quando foram reabertas, no lugar da arte e do comércio estava “o Senhor”. O comércio, bem sabemos, continuou por ali como centro da coisa toda, e prosperou como jamais faria como cinema ou mercado.

Do lucro das igrejinhas eles chegaram aos meios de comunicação. Pela TV e rádio eles multiplicavam fiéis – e os lucros. O próximo passo era quase que natural: a política. Ao Congresso foram carregados pelo voto de gente ignorante que, vítimas de uma educação frágil e incompleta, delega ao outro o direito de pensar por si mesma. Instalados na casa das leis, rasgaram a Constituição e colocaram a Bíblia no lugar. Daí para frente a escalada foi rápida e objetiva. Criaram um exército, expandiram o domínio. O primeiro inimigo eram os homossexuais e, com um cuidado maternal, eles alimentaram o ódio homofóbico, produzindo indiretamente centenas de vítimas em todo o país todos os dias. Cada vida retirada por ser “contrária às leis de Deus” foi uma pequena vitória para eles. Mas havia potencialidade para mais e novos passos foram dados até que, em um ápice, um deles alcançasse a presidência da Câmara. Cultos e louvações são, hoje, comuns nos salões do parlamento. Assumiram o papel do antigo imperador. Estamos sitiados.

As pedras começaram a voar porque o caminho da barbárie é quase natural. Apedrejar uma menina de 11 anos porque ela é do candomblé é a evolução natural do oprimido que assumiu plenamente o papel de opressor. A destruição de templos de umbanda, o assassinato do dirigente de uma tenda espírita e o ataque ao túmulo de Chico Xavier se somam aos crimes de homofobia entre as baixas de guerra. Aconteceram e voltarão a acontecer pelo bem maior: a erradicação de tudo que é diferente, de tudo que não segue as regras completamente torcidas e embaçadas de um livro antigo.

E a história se repete como farsa. Se nada for feito, os grupos de inimigos se alargarão na medida do crescimento exponencial das forças fundamentalistas. O inimigo será qualquer um que não seja eles mesmos. Mais pedras voarão e, algum tempo depois, balas tomarão o seu lugar. Hoje já não parece delírio afirmar que caminhamos para uma teocracia cristã no Brasil. Amanhã vai ser certeza. 

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Leandro Faria  
Rodrigo Mariano é jornalista. Assina o jornal de uma organização de classe centenária no Centro da cidade do Rio de Janeiro, onde escreve sobre política, economia e grandes temas nacionais. Umbandista, gay, nerd, esquerdista e urso, lida com preconceitos mesmo onde, teoricamente, eles não deveriam existir e faz disso sua militância cotidiana.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom o texto!!!!!!