terça-feira, 9 de junho de 2015

A Ira de Ícaro





Uau... Essa rodada veio mais forte, hein? Parece que erraram o meu pedido... Enfim, tem álcool, eu tô dentro. Não sejam tímidos, sirvam-se também! Ei, garçom, traz uma rodada pra todo mundo! É, é bom aproveitarem enquanto eu estou bêbado, porque quando sóbrio... 

Ah, mas que falta de educação a minha, não? Muito prazer, meu nome é Ícaro. Ícaro Mascarenhas. Nome legal, não? Pois é, minha mãe, aquela... Não sei nem como descrever aquele ser... Minha mãe resolveu me dar esse nome. Segundo meu pai, que ainda está vivo, ela virou pra ele e disse: "Meu amor... Esse moleque vai se chamar Ícaro, porque eu tenho certeza de que vai ser um aventureiro, vai voar alto, bem alto, vai tocar o sol!"

Bem, o que esqueceram de dizer pra essa mulher é que o idiota do Ícaro da mitologia, sabem de quem eu estou falando, não sabem? Pois é, aquele idiota, tapado, estúpido, voou pra perto do sol e BUM, perdeu as asas, caiu e morreu. Grande aventureiro, não? Que piada... 

Mas ei, querem ouvir um pouco das aventuras desse Ícaro aqui? Querem? Querem? Eu sei, ainda é terça-feira, está tarde, não devíamos estar aqui nesse lugar cheio de gente, com essa MÚSICA BARULHENTA!!! Desculpem, me exaltei, acho que preciso de mais um gole. Enfim, querem ouvir? Foda-se, eu vou contar do mesmo jeito!  

Tudo começou quando eu nasci. Redundante, eu sei, mas eu explico. Minha mãe morreu uns dias depois do meu nascimento. Dois... Três... É, não lembro. Só lembro que ela não estava boa da saúde e bateu com as botas, aquela inútil... Nem pra sobreviver a um parto ela prestou! Meu irmão Lúcio, aquele viado maldito, porque sim, ele é viado, precisam ver ele com o namorado, todo cheio de mimimi e nhênhênhê, um inferno! Meu pai diz que ele virou viado porque ficou traumatizado com a morte da mãe, agora ora vejam só! Eu saí daquela incompetente e não virei viado, então tem coisa errada aí, hein... Onde eu estava? Ah sim, Lúcio, aquele viadinho, me atormentou durante toda, eu disse TODA, a minha adolescência, dizendo que eu fui o responsável pela morte da nossa mãe. É claro, um recém-nascido consegue matar uma mulher adulta, velha e tal... Eu amaldiçôo o fato de ele ser o mais velho, porque vocês não imaginam o que é ouvir dia após dia que eu matei a nossa mãe, ok? Ninguém imagina! Garçom, mais uma rodada, por favor! 

Continuando: O puto me infernizou durante toda a minha adolescência, certo? Eu tinha que me vingar! Ah, não me olhem desse jeito, vocês fariam a mesma coisa que eu sei! Me vinguei quando ele foi fazer o exame pra Ordem dos Advogados do Brasil. Como? Um comprimidinho de um remedinho no leite quente dele antes de dormir e... Bem, isso deixou ele um tanto quanto desorientado na prova. HAHAHA, precisavam ver o cara chorando pro nosso pai. “Eu sabia, pai, eu juro que sabia de tudo! Me deu branco, pai, não conseguia lembrar de quase nada!”. Uma comédia... É claro que o maldito passou na segunda vez que prestou o exame, mas dane-se, o susto valeu a pena, eu acho. Valeu sim! 

Prosseguindo. Mais tarde eu consegui um estágio numa empresa grande aqui de São Paulo, eu estava cursando Administração e precisava de um estágio, então uns currículos aqui, meu velho andou fazendo algumas ligações, porque sabem como gente com dinheiro consegue as coisas fácil, né? E meu pai tem sim bastante dinheiro. Logo eu fui promovido a chefe de setor, que maravilha. Tinha quatro pessoas trabalhando pra mim mas, infelizmente, eram quatro frouxos, porque foram reclamar com a gerência, dizendo que eu era... Como foi mesmo a palavra que eles usaram? Desumano. Acreditam? Desumano? Eu? Eu tentei ajudar aqueles quatro imbecis, pressionei eles pra que dessem o máximo de si, e eles me retribuem com uma facada dessas? Ah, disseram também que eu não sorria, nunca cumprimentava nem nada. Mas eu não estava ali pra fazer amizade, eu estava ali pra conseguir resultados, pra voar mais alto. Resultado: eu fui demitido. Ainda bem, não aguentava mais olhar pra cara daqueles filhinhos de papai e mamãe cheios de não me toque. Aposto que viviam chorando no parquinho, quando alguma criança batia neles; deviam ir correndo chorar nos braços das mamães. Fracos, inúteis, incapazes... Deviam ter crescido sem mãe, igual a mim, pra aprenderem a viver. 

Nesse período as coisas mudaram pra mim. Eu consegui outro emprego, ganhava mais e éramos dez pessoas ao todo e, felizmente, cada um cuidando da sua vida, nada de muita amizade, muito nhênhênhê, nada disso. Também comecei a namorar a Helena, da minha turma. Éramos o casal perfeito. Bom, perfeito aos olhos dos outros, porque nós sabemos que não existe perfeição, certo? Nada é perfeito, ninguém é, tudo é maquiado pra parecer bonito, perfeito, feliz, imortal. Mas... Fazer o que se as pessoas insistiam em nos ver como o casal perfeito? E ela era perfeita mesmo, viu? Pelo menos do lado de fora. Os cabelos louros de cachos grandes caindo nos ombros... Um belo par de peitos que nossa senhora... E nem falo da b... Ei, aonde vocês vão? Por que estão indo embora? Aaaah, mulheres, frescas demais, hein! Menos você, pelo menos você quis ficar com a gente, hein linda... Deve ser sapatão. AH NÃO, não vai não, fica mais... Essas mulheres de hoje, não agüentam uma piada. Pelo menos agora podemos falar abertamente, de homem pra homens. 

Teve uma vez que fomos jantar e o garçom estava com cara de bunda azeda. Sabem? Aquela bunda sem lavar, que a pessoa ficou quase uma semana sem passar uma esponja úmida? Então, esse tipo de cara era a cara do garçom. Eu comentei com ela e o que a vagabunda fez?? Perguntou pro cara o que tava acontecendo, por que ele estava tão triste. E o cara começou a conversar com ela, que tinha terminado com a namorada, que isso, que aquilo, e eu fiquei olhando os dois e pensando: EI, QUAL É! Fala sério, eu tinha ido direto do trabalho, estava sem banho, só joguei uma água debaixo dos braços no banheiro da empresa, ajeitei o cabelo e fui encontrar com ela, pra ela ficar batendo papo com garçom? Eu não saio pra fazer amizade com garçom, eu saio pra beber, pra comer, pra me divertir. Ah, menos com você, Ed, você é o melhor garçom do mundo, o único que não erra os meus pedidos. E traga mais pra esses caras, acho que eles estão com sede. 

Continuando: eu pirei com ela. Namoramos por dois anos até que no último ano ela me largou, porque disse que eu era... Qual foi a palavra? Odioso. Sério, odioso? Eu? Eu sou obrigado a aturar frescura de mulher? Porque, sério, Helena era muito fresca, muito cheia de nove horas, como diz o meu velho. Gosta de fazer amizade com todo mundo, de beijar, abraçar, de pegar criança... Queria ter filhos, no mínimo dois! Aí não, eu não aguentei! Disse que um estava de bom tamanho. Foi aí que começamos a discutir todo santo dia por causa dos filhos que nem tínhamos. Agora ela está casada com o Pablo, que estudou com a gente. Eu sei bem porque ela escolheu ele, porque ele é rico, muito rico, enquanto aquela pistoleira é de classe média baixa. Se deu mal, porque o meu é maior que o dele, se é que me entendem. E adivinha só: ela chamou o garçom com cara de bunda azeda pra ser padrinho de casamento deles! Vou te contar, é cada palhaçada que me aparece... 

Enfim, onde eu estava? O que, Ed? Ué, cadê todo mundo? Eles... Eles foram embora e me deixaram falando sozinho? Não, eu tô bem... Já está fechando? Tão cedo assim? 

Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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