terça-feira, 23 de junho de 2015

A Maldição de Ícaro





Inferno... Que inferno... Uma semana sem trabalhar e eu já to querendo cometer um homicídio. Nota mental: nunca beber se for trabalhar no dia seguinte, e nunca beber antes de ir pro trabalho... Que merda que eu fiz? Vomitar praticamente em cima da mesa do chefe, numa das reuniões mais importantes da empresa? Maldição... 

Eu culpo você. Isso mesmo. Eu culpo você, sua inútil. Tinha que me dar o nome de um imbecil que nem asas próprias tem, mas asas falsas, fracas, que não aguentam o calor do sol. Eu estava pertinho assim do sol, pertinho assim. Droga, meus olhos estão ardendo. Eu culpo você. Podia ter me dado o nome de um deus; não precisava ser um dos doze, mas podia ter me dado o nome de um deus menor, com uma história melhor, talvez. Mas não, tinha que me chamar de Ícaro, me dar um par de asas falsas e morrer, me deixando aqui sem saber como usá-las, deixando meu pai desamparado, sem saber o que fazer comigo, e meu irmão mais velho que... Eu culpo você! 

Tá ouvindo essa música? É Aretha Franklin. Sabe o que ela ta cantando? Bridge Over Troubled Water, que traduzindo, é Ponte Sobre Águas Revoltas. Sabe do que fala essa música? Claro que não, claro que não. A letra diz: 

Eu estou ao seu lado quando os tempos ficarem difíceis 
E os amigos não mais puderem ser encontrados 
Como uma ponte sobre águas revoltas, eu me deitarei. 
Como uma ponte sobre águas revoltas eu me deitarei. 

Eu precisei de uma ponte. Eu precisei de um suporte, um apoio. E você não estava aqui. Não tô reclamando do meu velho, mas me colocar no mundo e, simplesmente, morrer, me largando aqui com um par de asas falsas, sem nem deixar um manual junto? INÚTIL! COVARDE! Só ele sabe o que eu passei, ok? Aqueles demônios do colégio tirando sarro de mim por não ter mãe, as pessoas me olhando com cara de pena quando ouviam que eu era órfão de mãe, não ter a quem presentear no Dia das Mães, porque nem pra sobreviver mais tempo as minhas avós serviram, porque eu podia usar pra substituir, já que você não estava aqui. 

Droga, por que você não estava aqui?! Você devia estar aqui, devia ter me ajudado a vestir a roupa pra ir pra escola, não uma empregada qualquer. Era o seu trabalho fazer o dever de casa comigo, me colocar pra dormir, brigar com meu irmão toda vez que ele me batesse ou caçoasse de mim... Era o seu dever, não do meu pai, muito menos o meu, que tinha que brigar quase todo dia com ele, sair na porrada pela casa inteira, toda vez que ele me culpava pela sua morte. Acha que isso foi legal?! Acha que foi justo comigo?! 

Merda de café amargo... Agora sim, agora melhorou... Se você não tivesse morrido, se tivesse aguentado mais, meu velho não teria se tornado o homem triste que ficou. OK, ele foi um ótimo pai, mas você precisa ver a tristeza no olhar dele... Nunca mais se casou, o idiota. Talvez, se tivesse tentado, teria achado uma mulher mais forte que você, mais resistente. E eu teria tido uma mãe. Uma mãe melhor que você, alguém pra me ajudar, pra me proteger dos valentões do colégio, ou pra brigar comigo quando eu chegasse bêbado em casa, fazendo barulho; teria alguém pra segurar a minha cabeça no vaso sanitário sempre que eu enfiasse a cara na vodca. Mas não, ele não quis se casar, ficou tipo pinguim, fiel à mulher morta. 

Droga, detesto quando meus olhos enchem d’água assim, mas PORRA! POR QUE?! Sua infeliz... Tinha que ver ele contando sobre o casamento de vocês, sobre o namoro, viagens que fizeram, como vocês eram quando se conheceram... Ele acha que eu não ouço ele chorar à noite, quando vou dormir lá, dizendo o seu nome, com o álbum de casamento do seu lado da cama. Por que você tinha que ir? Por quê? As coisas deviam ser diferentes, deviam ser diferentes. Mas não, nada disso, nada de felicidade para o Ícaro aqui. Nada de ajuda com o voo, nada de sol. 

Nada de sol. Eu preciso do meu sol. Eu preciso chegar ao sol. O sol que você desejou pra mim. Mas eu não vou fazer isso por sua causa, porque você não merece ter um desejo atendido, uma memória honrada, porque a única memória que eu tenho de você é a de uma lápide, de quando meu pai e eu íamos visitar o seu túmulo. Depois de um tempo vendo ele chorar amargamente ali naquela grama, eu parei de ir, não dava mais, não dava mais pra vê-lo, o meu pai, o meu herói, chorar daquele jeito, se abrir daquele jeito e chorar, pensando que eu estava brincando entre as árvores do cemitério, mas na verdade, eu ficava escondido atrás das lápides, vendo aquilo tudo. Ele também precisava de uma ponte, sabia? Ele precisava de alguém pra ajudá-lo a passar pela escuridão, como diz a música. E onde você estava? Morta. Enterrada. Seu lugar não era lá, mas sim ao lado dele. 

Se você tivesse sobrevivido, talvez eu não tivesse me tornado esse cara odioso, que se vingou dos ex-colegas de trabalho, ou que tentou sabotar o irmão, ou que comeu a noiva do ex-melhor amigo um dia antes do casamento e fez questão de contar pra todo mundo. Se eu tivesse tido uma mãe, não teria espancado alguns dos imbecis que me atormentaram no colégio, não teria me vingado de todo mundo que sentiu pena de mim por não ter mãe, porque eu teria uma mãe, e não teria sofrido bullying quando pequeno, nem dentro, nem fora de casa. 

Mas você morreu e largou a meu pai e a mim aqui, pra tentar descobrir como aquelas malditas asas funcionavam. Sim, porque meu irmão? Ele só queria saber de se pegar com os caras da faculdade, nunca deu a devida atenção ao nosso pai. Claro, pra que, né? Ele teve você por um tempo, teve amor, carinho, não sofreu, não apanhou, não ouviu frases do tipo “Coitadinho, não tem mãe...”, ou “Pelo menos ele tem você, que deve ser um pai maravilhoso”, quando as quarentonas tentavam dar em cima dele, claramente de olho na fortuna que o velho tem no banco. Porque nós somos ricos! Parece que ficamos mais ricos depois que você morreu, então talvez, talvez, tenha sido melhor. 

Ah, quer saber? Eu vou tomar banho e vou encher a cara, porque eu estou desempregado e agora posso beber a hora que eu quiser. Ah, que inferno, quem em sã consciência vem tocar a campainha a essa hora da manhã? Cadê esse porteiro que não me avisou no interfone? 

Quem é você? O quê? Como assim? Meu pai? O que tem ele? Hospital? MERDA!

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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2 comentários:

Homem, Homossexual e Pai disse...

belíssimo texto Glauco, adorei, as emoções brotando, a construção parabéns!
e, se é auto biográfico, espero que consiga um trabalho logo!

Glauco Damasceno disse...

Ah, obrigado, rapaz!! Estamos aí na luta (=