sábado, 6 de junho de 2015

A Parada Gay e Eu






Amanhã, domingo (07/06) é dia de Parada Gay aqui em São Paulo. Qual a sua relação com esse evento? E na coluna de hoje, falo um pouquinho da minha, que começou lá em 2003, e qual meu sentimento em relação a essa manifestação popular atualmente. 

Pra quem não conhece a origem da Parada do Orgulho LGBT, aí vai uma breve explicação: o mês de junho, ficou conhecido como o mês do Orgulho Gay, porque no ano de 1969, mas especificamente no dia 28 de junho, no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, houve uma rebelião entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros contra a polícia, que se iniciou com uma carga policial e durou vários dias. Iniciou-se no conhecido bar de frequência homossexual, Stonewall, e tomou as ruas vizinhas. Este acontecimento é largamente reconhecido como o conjunto de eventos catalisadores dos modernos movimentos em defesa dos direitos civis LGBT. Stonewall foi um marco, por ter sido a primeira vez em que um grande número de pessoas LGBT se juntou para resistir aos maus tratos da polícia contra a comunidade. Ficou assim estabelecido pela mesma, que o mês 06 seria o mês do Orgulho LGBT, há 46 anos. 

No Brasil, na década de 80, houve uma marcha em São Paulo, que pode ser considerada o embrião da Parada Gay, contra um delegado que agredia todos os LGBT's que conviviam na região da Praça da República, hoje conhecido reduto gay da capital paulista. Aconteceu uma caminhada da comunidade LGBT até a Câmara Municipal, pra pedir que esse delegado fosse afastado e parasse com a perseguição. Fez-se um longo hiato entre essa marcha e o ano de 1996, quando vários atores desse movimento social pediram pra que fosse feito uma nova marcha na Praça Roosevelt, outro conhecido reduto do teatro alternativo de São Paulo. A partir do ano seguinte, 1997, a Parada transferiu-se para a Avenida Paulista, tornando-se parte do calendário oficial da cidade. 

O tema da primeira Parada do Orgulho LGBT foi "Somos muitos, estamos em todas as profissões". Dez anos depois, em 2007, a Parada Gay de São Paulo foi considerada a maior Parada Gay do mundo pelo Guiness Book, com público estimado em 3,5 milhões de participantes. O tema daquele ano era "Por um mundo sem Racismo, Machismo e Homofobia"

Eu, que tive minha primeira experiência em uma Parada aos 21 anos, em 2003, e fiquei deslumbrado, imagino como seria se tivesse comparecido na primeira manifestação de 1997, no auge da adolescência, aos 14 anos. Teria sido uma explosão de excitantes sensações sem precedentes. Impossível não fazer esse exercício de imaginação, pois lembro tão nitidamente da minha ingênua e inocente adolescência, sempre em busca de emoções inventadas, tentando descobrir meu lugar no mundo. Tão frágil e bobo, mas sedento por descobertas, criando um mundo de fantasias pra refugiar-me nele com meus sonhos coloridos e brilhantes. Mal podendo imaginar que, em algum lugar longe da minha realidade, existia uma multidão de pessoas gritando por direitos e liberdade, que também eram meus, nas ruas. Já existiam vozes reverberando a favor de pessoas na mesma condição sexual massacrada que a minha, e eu não sabia. Gostaria muito de ter visto de perto esse evento pequenininho, que começou com apenas 2.000 pessoas e tornou-se grandioso, embora ainda sejamos massacrados por muitos. 

No sétimo ano da manifestação pude estar presente. Encapuzado, ainda meio escondido, mas arrepiado dos pés à cabeça. Foi lindo, mas não foi em São Paulo, e sim em Porto Alegre. Para o tamanho da capital gaúcha, o evento também era grandioso. Segui frequentando a Parada em 2004, ainda um pouco escondido, com medo de ser filmado e visto na TV por algum conhecido religioso, e também em 2005, já mais à vontade, livre e leve. Foi meu último ano na Parada de Porto Alegre, que é chamada de Parada Livre, não Gay. Em 2006 não compareci por motivos de trabalho. Em 2007, morava em Curitiba e não tive nenhuma vontade de ir pras ruas com aquela bicharada fria e metida (que me perdoem os curitibanos, mas minha relação com a capital paranaense não foi das melhores). 2008 também trabalhei no dia da Parada, já de volta à Porto Alegre. 

Eis que em 2009 foi minha primeira vez na gigantesca Parada Gay, que sempre via nos noticiários da televisão. Já em São Paulo, caí na gandaia com gosto, mas perdi documentos e dinheiro, tudo tem seu preço, mas aprendi a cair na ferveção pesada da Avenida Paulista em dia de Parada Gay só com a roupa do corpo e dinheiro no sutiã (ops). Nos dois anos seguintes, não desfilei minha beleza nas Paradas de 2010 e 2011. Voltei a dar o ar da graça só em 2012 e então fechei pra balanço. De repente, diante de tanta falta do real sentido político da Parada do Orgulho LGBT, cansei. Aquilo tudo não fazia mais minha cabeça, nada mais me representava. Travestis nuas, héteros transformando tudo num grande puteiro, roubalheira e etc. Eu realmente deixei de curtir e, em determinado momento, passei a odiar o evento e desdenhar os amigos e conhecidos que iam. 

Nesse ano já decretei que não vou, continuo sem ânimo e é uma muvuca que realmente não me atrai mais. Porém, não detesto e nem desdenho quem queira ir. Tenho até incentivado conhecidos que nunca foram e estão empolgadíssimos, a irem e se jogarem mesmo. Beijar muito na boca e até transar na rua (com camisinha, por favor), porque verdade seja dita, a Parada do Orgulho Gay é um exercício de cidadania importantíssimo dentro da comunidade LGBT. E não sejamos hipócritas, pois o Brasil inteiro faz um evento de cinco dias só pra putear, sem nenhuma intenção política, apenas pra satisfazer os desejos da carne. Chama-se Carnaval, conhecem? Pois é. Nós temos apenas um dia pra mostrar a nossa cara, gritar e reivindicar nossos direitos, e sabemos que manifestações políticas em sua maioria são chatas, sérias e maçantes, mas como somos alegres, fabulosos e "fechativos" por natureza, transformamos nossas reivindicações seríssimas e demasiado importantes em festa, simplesmente porque não somos obrigados. 

E sabe que escrever essa coluna até me despertou a vontade de estar na Avenida Paulista nesse domingo, 07. Quem sabe não mudo de ideia e dou uma pinta por lá. Acho que vai depender de uma resposta que espero receber e, se for positiva, estarei na 19° Parada do Orgulho LGBT 2015 comemorando uma conquista particular e gritando em uníssono com a multidão colorida: "Eu nasci assim, Eu cresci assim, Vou ser sempre assim: Respeitem-me". Que, a propósito, é o tema desse ano. 

Pra você, que não é de São Paulo e nem virá pra cá ferver com os paulistas, fique atento ao calendário de sua cidade. Tem Paradas que ocorrem até novembro. 

Beijo no coração!

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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