segunda-feira, 22 de junho de 2015

A Rola Perdida e Uma Discussão Necessária





"Ô Malafaia, vai procurar uma rola!"
Boechat, Ricardo

Nunca antes na história desse país uma rola chamou tanto a atenção como agora. E o pior (ou melhor), a rola do momento é aleatória e impessoal, nunca foi vista ou fotografada. Mas virou a sensação do momento, dos memes da internet e um verdadeiro grito de "cala a boca" da grande maioria não evangélica do Brasil. Salve Boechat, salve o desabafo não ensaiado.

Enquanto parecemos voltar à uma Idade Média, com casos absurdos em um país laico, como a crucificação metafórica de uma trans que ousou fazer uma alegoria à Cristo, uma menina de 11 anos sendo apedrejada por ser praticante de candomblé, com casos de homofobia extrema e orações em pleno Congresso Nacional, o discurso do jornalista Ricardo Boechat, respondendo a um tuite provocador de Silas Malafaia causou comoção. 

Ao citar o caso da menina apedrejada em um programa da BandNews FM, o jornalista Boechat afirmou que pastores extremistas de igrejas evangélicas eram responsáveis por atos como esse, por estarem incitando a violência e o ódio. Foi confrontado na hora por um tuite do pseudo-pastor Silas Malafaia que se julga super poderoso, dizendo que o jornalista estava "falando asneira" e o desafiando para um debate ao vivo. E a resposta do Boechat já tornou-se épica, dizendo a Malafaia os motivos que ele deve ser considerado um verdadeiro ladrão, ao dizer que ele "rouba dinheiro dos fiéis" e, claro, coroando com a expressão do momento: "Ô Malafaia, vai procurar uma rola".

É claro que o assunto rendeu, virou piada e Malafaia até mesmo tentou se aproveitar do caso para aparecer ainda mais. Não conseguiu dessa vez, já que seu tão prometido vídeo de resposta pregou apenas aos crentelhos convertidos de sempre, uma massa sem cérebro que comeria coco se o dito pastor mandasse, não tendo o mesmo eco que a resposta de Boechat, que chegou a repercutir internacionalmente.

Mas é claro que o a declaração rendeu. Se Malafaia diz que vai processar o jornalista (enquanto não acha a rola perdida), o discurso de Boechat, apesar de importantíssimo, é acusado de discriminatório e machista, tendo se anulado com o uso da expressão rola, perdendo assim o seu papel e desperdiçando uma oportunidade valiosa de confrontar o pastor. Será mesmo?

Acredito que o eco alcançado por toda a declaração de Boechat aconteceu exatamente pelo uso da expressão chula e divertida, que viralizou dessa forma unicamente por ter sido dita dessa maneira espontânea e natural em um acesso de raiva. Se Boechat tivesse sido "fino", dizendo todo o mesmo discurso sem mandá-lo procurar a rola perdida, provavelmente nem teríamos ficado sabendo do "embate", a menos que estivéssemos ouvindo o programa de rádio na hora em que ele estava no ar.

Já sobre o apelo machista da expressão, podemos convir que palavras diversas podem ter conotações negativas ou positivas, dependendo do contexto em que são usadas. Procurar uma rola é, certamente, uma expressão que pode ofender e ser totalmente machista e homofóbica, dependendo de para quem é endereçada, o que não foi o caso aqui. Lendo o posicionamento de pessoas que acharam desnecessário, até consigo entender o raciocínio, mas não concordo com a afirmação de homofobia vista por essas pessoas aqui. Analisando todo o contexto e, principalmente, sabendo quem é Silas Malafaia, ouví-lo sendo mandado procurar uma rola em cadeia nacional foi catártico, divertido e necessário. Queria eu ter a possibilidade de confrontar o tal pastor e dizer algumas boas verdades para ele, inclusive que o que falta em sua vida é, certamente, rola, sexo e, principalmente, caráter.

Assim, meus caros, a rola perdida de Malafaia chegou à fama em um momento oportuno, onde a discussão sobre uma possível teocracia brasileira vem nos sendo desenhada aos poucos e de forma preocupante. A rola que Boechat mandou o pastor procurar pode ser metafórica, mas é importante que nos perguntemos: até quando pessoas como Silas Malafaia, esse ser detestável, serão tão importantes em nosso cenário a ponto de chamarem tanta atenção e terem de ser confrontados nacionalmente por poucas e corajosas pessoas? Tempos estranhos, meu povo, muito estranhos.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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