terça-feira, 16 de junho de 2015

A Solidão de Ícaro




Pode deixar que eu subo sozinho, Ed. Não, não precisa subir comigo. Ok, já que você insiste... Aaaah... Por que você é tão bom comigo? Sempre me dá a cerveja mais gelada, a melhor vodca pelo melhor preço... Ed, você é afim de mim, por isso faz essas coisas? Ei, eu estava brincando, não precisa me dar tranco, seu puto! Isso, é aqui, oitocen... É, é aqui mesmo. Pode me ajudar a tirar a roupa? É que eu durmo apenas de cueca, me sinto mais à vontade. Cuidado com essas mãos bobas aí, hein! Aaaah, obrigado! Como é bom deitar de bruços assim, praticamente pelado. 

Mas ei, espera, não vai embora. Não, espera um pouco, eu preciso terminar o que eu comecei a contar lá no bar. Eu sei que você estava espiando, seu danadinho... Acha que eu não percebi? Você sabe de tudo, você é o cara! Sente aí. Isso. Pensando na Helena, foi até melhor que ela tenha me trocado, porque eu consegui um emprego que, cara... Era O emprego, viu?! E me sugava, e eu não teria tempo pra ela, isso ia me dar dor de cabeça, porque não ia conseguir dar carinho pra ela, e ela era dessas namoradas melosas. Ninguém merece. Meu tempo nessa empresa não durou tanto, porque eles eram um bando de frouxos bonzinhos que levavam um ano pra fechar um negócio, e tudo por quê? Porque eles são diplomatas, adeptos do bom diálogo, e me acharam muito... Agressivo. Bando de frouxos, isso sim! 

Uns meses depois eu voltei a trabalhar com muita gente, mas não durou mais de um ano. Tudo começou muuuuito bem, eles pareciam boas pessoas, saíamos, nos divertíamos, aquela coisa toda. Realmente, foi um período legal. Até eles descobrirem que eu ia ser promovido. Isso não deixou eles felizes, e, depois me contaram, os filhos da puta armaram pra mim, dizendo pro nosso superior que eu estava sendo arrogante porque ia ser promovido, sendo que eu soube DEPOIS de ser demitido. Acredita numa coisa dessas? Droga... Se as pessoas entendessem que se aliar a mim é melhor do que ir contra mim, as coisas seriam incrivelmente fáceis, principalmente pra mim! Sim, porque você sabe como pessoas bêbadas falam muito, não sabe? E se abrem, mostram fotos, tiram fotos, falam coisas, fazem coisas, perdem a noção dos atos... Eu sei que foi um tal de namoro terminando, gente sendo demitida, divorciando, sendo exposta... Mereceram, bando de inúteis. Fracos. Incapazes de se defender. Aposto que eram filhos de mamãe, que tiveram tudo de mão beijada. INFERNO! 

No dia da minha demissão eu fui visitar o meu coroa, porque Ed... Aquele cara sabe das coisas. Ele virou pra mim e disse: "Filho, você é muito irritado. Isso é pecado, sabia? Já ouviu falar nos sete pecados? Você ta cometendo o pecado da Ira há muito tempo. Precisa deixar disso, ou vai acabar morrendo sozinho, como eu.". E eu te digo uma coisa, Ed, isso é uma bela de uma palhaçada! Primeiro que essa coisa de pecado capital não existe, é tudo invenção pra que as pessoas possam fazer suas merdas e ter em que colocar a culpa. E outra, meu velho só tá sozinho porque aquela inútil fez o FAVOR de morrer. Acontece que as pessoas me irritam de um jeito que eu nem sei explicar, saca? Bando de inúteis, incapazes, idiotas... Como é que diz aquela mulher da novela? "Não estou disposta"? Não é essa a frase? Pois eu também não estou disposto a ter que lidar com gente burra, imbecil, que acha que eu estou aqui pra brincadeira. Pois eu te digo uma coisa: Não sou obrigado a gostar de ninguém. Eu quero mesmo é que esse povo vá pro quinto dos infernos, pro raio que o parta, isso sim! Bando de frouxos sentimentais, eu, hein! 

Meu pai sempre teve uma vida boa, financeiramente falando. Veio de família rica, herdou a empresa do meu avô. E eu sempre que podia rejeitava qualquer tipo de ajuda dele. Comecei a trabalhar cedo, como office-boy, ganhando pouco, comprava as minhas coisas com o MEU dinheiro. Queria me colocar pra trabalhar na empresa e eu disse que não queria porque sabe como é, as pessoas falam muito. Quando vi que ele não ia desistir, e que isso estava chateando ele, aceitei, mas na condição de passar pelo processo seletivo. Fui pra final com outros dois e passei, mas foi mérito meu! Diferente do meu irmão, aquele puto frouxo. Sempre teve as coisas de mão beijada por ter olho azul, cabelo liso... Puxou ao nosso pai. Claro que eu tinha que ter puxado àquela mulher, até nisso ela me sacaneou!! 

Ei, que barulho é esse? Ed, acho que ouvi alguém entrando. Confere pra mim? Ed? Puxa, você é rápido... Saiu e eu nem vi. Ed? Não está na sala... Não está na cozinha... Não está no... Ed? Você foi embora e me largou falando sozinho??? Ed?! 

Maldito... Maldito... QUE INFERNO!!!

Leia Também:
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
FacebookTwitter

Nenhum comentário: