quarta-feira, 24 de junho de 2015

Caminhos da Intolerância




Na minha última coluna escrevi sobre o Brasil que sai doarmário. Aquele que mostra a sua cara, para o bem ou para o mal (de acordo com o ponto de vista). O Brasil que viu as vendas de O Boticário se ampliarem no Dia dos Namorados em 3%, mesmo em um cenário de retração econômica e contenção de custos, depois de ter colocado no ar uma campanha celebrando o amor, independentemente do gênero. Que motivou outras marcas, até concorrentes, como Natura e Leite de Rosas, a tomarem rumos semelhantes. O mesmo Brasil, que nesses poucos dias, também demonstrou imensa intolerância com as diferenças ao tratar, mais uma vez, de religião.

Fazendo um recorte na última semana, vimos uma menina de apenas 11 anos levar uma pedrada por ser candomblecista – e ainda tivemos que ouvir que é uma escolha muito prematura para uma criança, quando cultos católicos e evangélicos estão cheias delas, muitas vezes batizadas poucos meses após vir ao mundo em suas igrejas. Depois, casos de depredação em um templo que prestava consultas esotéricas à sua assistência. Na sequência, o túmulo do médium Chico Xavier sofre uma tentativa de depredação (só não foi algo grave pois seu vidro era blindado). E um dirigente de um grande centro espírita no Rio de Janeiro aparece morto com sinais de tortura em sua casa, dentro da instituição.

Alguns desses casos estão ainda sob investigação para verificarem suas motivações. Mas não deixam de ser alertas para um momento de tamanha agressividade àqueles que são diferentes. É triste saber que o nível de respeito à individualidade alheia é cada vez menor, numa sociedade que, em tese, deveria evoluir para melhor.

Eu mesmo já presenciei um grupo de evangélicos neopentecostais irem a um terreiro de Umbanda para tentar converter o dirigente, no meio de uma sessão. Depois de serem educadamente recebidos, começaram a proferir uma série de agressões verbais, que só cessaram quando uma advogada que assistia à sessão ameaçou chamar a Polícia. E isso já faz mais de sete anos. De lá pra cá, as coisas só recrudesceram – embora, claro, não possamos generalizar todos os evangélicos como agressores fundamentalistas, o que seria uma evidente ignorância.

Meu amigo e idealizador deste Barba Feita, Leandro Faria, alertou na semana passada sobre este assunto. Como ateu que é, falou de Jesus Cristo com grande propriedade: era ele que falava que só deveria atirar a primeira pedra quem nunca tivesse pecado. Ou que deveríamos oferecer a outra face: um discurso completamente contra a agressão ou imposição. Ou ainda, conforme lembrado pelo Gregório Duvivier em sua coluna essa semana: Jesus era o que abraçava leprosos, não julgava criminosos e dizia que era mais fácil um camelo passar pelo furo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus. Mesmo assim, propagam-se mercadores da fé alheia pelos quatro cantos, prometendo salvações pelo simples fato de se aderir à igreja X ou Y.

Minha mãe (ela sempre aparece por aqui...) foi uma pessoa que me passou muitos valores religiosos, embora não tivesse um credo rotulado. Sempre me ensinou que deveria respeitar até mesmo as religiões que ela particularmente não gostava. Sempre me disse que não deveria esperar qualquer retorno financeiro ou patrimonial da minha religião, seja ela qual fosse. Sempre reforçou que ao optar por uma religião, que fosse para o meu aprimoramento enquanto ser humano e para ajudar o próximo.

É difícil o exercício, mas o ensinamento do nazareno de 2 mil anos atrás ainda vale: é melhor oferecer a outra face em vez de devolver. E nos desarmarmos das pedras que, por vezes, podemos estar carregando numa humanamente crível vontade de vingança. Se alguém tivesse pensado nisso dias atrás, teríamos uma criança a menos ferida fisicamente e milhares de fiéis a menos feridos moralmente.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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