sábado, 20 de junho de 2015

De 1998 Para 2015, Com Carinho








Ando saudoso, por esses dias, dos anos 90 e de sua cultura pop. Todas as referências musicais, cinematográficas, literárias e televisivas, que formaram meu caráter numa fase difícil da vida, tem me feito companhia ultimamente e provocado uma nostalgia danada.

Há momentos em que remexemos no passado, especialmente quando o presente não está muito legal, e temos a falsa ilusão de que o que vivemos lá atrás era a mais pura tradução de uma vida perfeita, mas não é verdade. Trata-se da velha história, aliás, muito bem contada por Wood Allen em um de seus melhores longas, Meia-Noite em Paris (2011), em que o passado sempre nos soa mais cativante e sedutor do que o agora, principalmente o que não vivemos. Se ainda não viu o filme assista, é uma excelente pedida.

O fato é que mesmo essa sensação não passando de falsa impressão, revirar o baú pop das nossas memórias nos remete de volta à uma fase dourada de nossas vidas. Quem foi adolescente nos anos 90 vai entender perfeitamente o que estou dizendo. O advento da internet ainda dava seus primeiros passos. Manoel Carlos arrasava com os seus deliciosos dramas cotidianos em novelas que mobilizavam o público como História de Amor e Por Amor. No cinema, o terror adolescente era um prato cheio, franquias como Pânico e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado eram o máximo. O Terceiro Travesseiro foi um livro divisor de águas na vida de quase todo garoto gay (eu incluso) e os famosos que saíam nus em pelo na G Magazine (hoje praticamente extinta) era um deleite inominável. Tinha o Tamagotchi, um brinquedo onde se criava um animal de estimação virtual e que era uma febre. Eu não tinha e achava uma grande besteira, mas é engraçado lembrar dele hoje, pois ele foi o pioneiro dos Candy Crushs e Fazendinhas da vida. Vídeo-Game era um vício que até hoje atormenta os não adeptos desta prática de jogo, mas sem a existência da internet como conhecemos hoje, o nível da coisa era bem pior. Eu nunca tive um e nem quis, sempre fui extremamente analógico, novidades tecnológicas chegavam a mim com bastante atraso na maioria das vezes e isso nunca foi um problema. Eu escrevia diários. Eu colecionava CD's e era viciado em alugar fitas VHS na locadora, que eram meu maior prazer.

O galã dos meus sonhos no Brasil era Rodrigo Santoro. Em Hollywood, Antonio Banderas. Mas era Leonardo Di Caprio quem dominava a cena. Romeu + Julieta, com ele e Claire Danes, foi um marco em minha vida, mas Titanic foi uma experiência inexplicável, que me fez idolatrar Kate Winslet. Até hoje tenho uma pasta preta, guardada em algum lugar na casa de minha mãe, com fotos e recortes de entrevistas com ela.

O cenário musical era uma loucura. Ninguém tinha vergonha de ouvir e admitir que gostava de axé, especialmente os de apelo erótico e gosto totalmente duvidoso do É o Tchan e Companhia do Pagode. Netinho também arrastava multidões aos seus shows com a explosão do hit Mila. O pagode e o sertanejo eram toleráveis. Eu, que hoje não suporto os dois gêneros, com raríssimas exceções, curtia pra caramba o som do Raça Negra, Só Pra Contrariar e Negritude Jr., às vezes, até um Karametade rolava. Leandro e Leonardo eu adorava, Chitãozinho e Xororó também. Britney e Aguilera eram as divas do momento. Spice Girls eram uma delícia cremosa viciante. E as boybands se proliferavam absurdamente. Se nos anos 80 os representantes oficiais do estilo eram New Kids On The Block, Menudos, Polegar e os garotos do Dominó, que avançaram até o início dos anos 2000, sempre renovando seus integrantes, na década de 90 eles invadiram com tudo o cenário fonográfico mundial. Eram muitas bandas de garotos americanos e europeus, a principal delas eram os Backstreet Boys, que inclusive estão em turnê pelo Brasil, com shows na semana passada em São Paulo e Rio de Janeiro, retomando a carreira com seus 5 integrantes originais após uma pausa de seis anos sem lançar nenhum álbum. E no rastro dos BSB vieram inúmeras outras, mas a que me trouxe ao texto de hoje foi a minha preferida, o Boyzone.


O Boyzone era uma banda com 5 rapazes lindos (esse era o número padrão de integrantes de boyband), pra mim os mais lindos de todos. Pareciam mais maduros que as demais bandas. Eram sedutores e tinham letras super românticas. Não era a boyband mais popular, mas sem dúvida era a mais amada por mim. Os que se destacavam nos vocais eram o loiro "deuso" Ronan Keating e o docinho de olhos verdes Stephen Gately, por quem eu tinha uma paixão que chegava a doer e só fez piorar quando descobri que ele era gay, e que acabou comigo quando ele morreu aos 33 anos de causas naturais, em 2009.

E assim, revirando o meu baú de memórias, recordo meus sonhos, minha inocência e em meio a tanto lixo que o virtual joga na nossa cara todos os dias em forma de ódio, preconceito, intolerância, me fazendo questionar se realmente o passado não era melhor sem tantas tecnologias. Concluo que sim, que tudo é perfeito no seu devido tempo. Que se não fosse o maravilhoso mundo virtual, seríamos poupados de muita lama que, às vezes, encharca nossa alma, mas também não teríamos como fazer nossas viagens nostálgicas àquilo que tanto nos fez bem e formou o que somos hoje, de forma tão sublime.

Não seria possível relacionar a letra da música que mais gosto do Boyzone, com os ataques sofridos por toda a comunidade LGBT nos últimos tempos. É ela, a bela canção da minha boyband preferida dos anos 90, No Matter What, que dá a resposta, como uma prece, aos algozes nossos de cada dia.


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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Marcelo A. disse...

Eu vim aqui comentar porque, como você sabe, sou um nostálgico de carteirinha. Passando mal com essas recordações. E, nossa, eu morria e não sabia que você também era fã do Gately! Quase morri quando ele morreu. Fiquei semanas com isso martelando em minha cabeça. E a sua música preferida da banda, também é a minha. Até hoje, tenho uma VHS onde eles cantam a música com Pavarotti (certamente, você já viu).

Saudade dos anos 90. Pra mim, vivia nela, pra sempre! <3