domingo, 28 de junho de 2015

Fazendo História




Eu me formei Historiador em 2009. Contando desde 2004, quando entrei pra UFF, estou nesse meio já há mais de uma década. Isso mostra duas coisas: a primeira é que estou ficando velho; a segunda, que eu vivi esse período com outro olhar, que a gente aprende na faculdade e que é o de buscar rupturas ou continuidades que possam ser definitivas pra alguma cultura em particular, ou pro mundo. 

Nessa profissão tentamos achar isso o tempo todo: em que momento parece acontecer uma virada onde as pessoas passam a se comportar de maneira diferente de antes? Não é de uma hora pra outra, veja bem: as estruturas vão mudando aos poucos, junto com o modo de pensar, de agir e, de repente, pimba, está inaugurado um novo tempo. Normalmente, quem está vivenciando essas mudanças nem percebe que algo aconteceu, são os especialistas que olham pra trás e delimitam cada período, baseado no que eles próprios consideram importante. E na minha modesta opinião, eu ainda não tinha presenciado como Historiador algo que pudesse realmente chacoalhar as estruturas do planeta. Até essa sexta. 

Desde que convivo com a História mais intimamente, vi o Lula se reeleger e, depois, a primeira eleição de uma mulher no nosso país; vi a eleição de Obama e a Primavera Árabe; Fidel largou o poder em Cuba e Raul reatou relações com os EUA; vi o Grande Colisor de Hádrons ser inventado, assim como o iPhone e o Facebook; até Papa argentino e Copa no Brasil eu vi (esquece essa parte). Posso estar sendo muito exagerado e muito, muito otimista, não sei. Mas, de todos esses, a aprovação do casamento homossexual nos EUA pode ser o que mais tem potencial pra mudar os rumos desse planeta. 

Falar sobre a importância do que aconteceu nos EUA seria mais do mesmo. Quem procurou se inteirar sobre o assunto, provavelmente leu que nosso país já permite o casamento desde 2013, e que a decisão americana passa a ter alcance gigantesco, uma vez que os EUA tem muito poder de influência cultural no mundo. Acho que o mais importante do que ocorreu nessa sexta foi o gesto de apoio global à causa. 

Por isso que foi histórico. O mundo inteiro celebrando o amor nas redes sociais. Como foi bonito ver amigos, parentes, alunos, celebridades, empresas, políticos e religiosos de várias vertentes sem medo de expor sua opinião e se estabelecendo, cada um de nós, como um tijolo dessa parede coloridíssima e que servirá pra não deixar que a intolerância passe. Todo mundo se curtindo, muita gente feliz e unida por uma causa bonita. É a importância do gesto, e esse olhar diferente muda o mundo. Como eu disse lá em cima, as estruturas se transformam aos poucos e, insisto que isso pode ser o primeiro passo para uma mudança grande do nosso comportamento. Os intolerantes perceberam que há muita gente lutando pela igualdade, tanto é que chegou a bater um desespero, apelaram até pra fome na África. 

Torço para que daqui uns 200 anos, um Historiador olhe pra trás (ou volte aqui com sua máquina do tempo) e diga que no dia 26 de junho de 2015 a Idade Contemporânea foi substituída por outra. Já deixo minha sugestão: que tal a Idade do Amor? Num mundo onde a gente ainda vê tanto ódio, seria a nossa maior vitória.

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Leandro Faria  
Eduardo Maiolino tem 29 anos, mora em Niterói, é músico e professor de História, mas não lembra data nenhuma. Só a do aniversário da filha.
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