sábado, 13 de junho de 2015

Linda de Morrer






Enquanto retocava o batom vermelho em frente ao espelho, pensava no quanto era linda, sensual, exuberante e a um passo de tornar-se uma rainha das passarelas. Tinha absoluta certeza de que era perfeita e não perderia aquele concurso por nada. Ela queria o poder, a fama, o brilho, tudo o que exaltasse sua beleza única e esfuziante. Queria ser maior que Gisele Bündchen. Assim era Sabrina Mondego.

A garota de longos cabelos castanho mel, lisos até a cintura, no frescor de seus 18 anos, encarava o concurso "Garota da Capa" como a grande chance de sua vida. Desde menina, era dona de uma vaidade exacerbada. Aos 12, quis fazer uma correção nas leves orelhas de abano, procedimento que sua mãe vetou. Aos 15, cismou de colocar silicone nos seios, que não cresciam fartos como desejava. Outra ideia recusada pela mãe. Porém, aos 16, após inumeráveis apelos, carregados de chantagens emocionais, os pais autorizaram que Sabrina fizesse todas as intervenções cirúrgicas que desejava. Tudo sob a batuta de um bom profissional da área.

Sempre envolvida no meio da moda, Sabrina participava de concursos infantis como criança mais bela, mas nunca era a vencedora. Aquilo a destruía por dentro. Os pais não eram grandes incentivadores, porém, sempre atendiam aos desejos da única filha, e seu desejo sempre estava ligado ao mundo da beleza, do ego, em ser o centro das atenções, desde muito pequena. A maior frustração de sua vida era nunca ser o primeiro lugar, pois tinha absoluta certeza, era linda. Assim que realizou todas as cirurgias que sonhara, nada mais a impediria de ser a top das tops, estava convicta.

Os convites para desfiles ocasionais começaram a surgir. Vez ou outra, ela chamava a atenção de profissionais respeitados, que a escolhiam para trabalhos bastante interessantes, mas tais convites não eram uma constante. Sabrina não se conformava e se questionava todos os dias quando explodiria nas passarelas internacionais. Fazia qualquer coisa, tudo o que os agentes mandavam, ela obedeciam. Se estivesse acima do peso, entrava em uma dieta cruel. Se precisasse engordar, comia desesperadamente. Há poucos meses havia diminuído os mililitros de silicone pois lhe disseram que estavam grandes demais para uma modelo de passarela.

Quando foi selecionada para participar do concurso "Garota da Capa", Sabrina acreditou que estivesse em seu melhor momento e vibrou de emoção e certeza de que dessa vez a fama e o reconhecimento mundial não lhe escapariam. Mas o processo não seria tão simples. Ela competiria com seis outras belas modelos pela capa de uma das revistas de moda mais conhecidas do mundo. Mas Sabrina estava disposta a tudo para derrubar uma a uma.

Jéssica, Samantha, Léia, Vívian, Carla e Íngrid eram suas concorrentes. Sabrina tratou logo de fazer o reconhecimento de campo e tornar-se amiga de todas. E todas, de fato, em sua concepção não eram páreo pra ela, exceto Íngrid, que parecia ter algo de bastante especial, mas uma concorrente à sua altura lhe instigava, pois a vitória tornaria-se mais saborosa. Com exceção de Íngrid, todas tinham pontos fracos facilmente identificáveis. 

Jéssica tinha auto-estima baixa, o que a fazia não acreditar muito em seu potencial e achar que as outras sempre eram melhores que ela. Sabrina usou isso a seu favor, fazendo a garota acreditar que teria pouquíssimas chances frente às demais, desmotivando-a a se esforçar em vencer as provas eliminatórias, fazendo-a ter um desempenho pífio e preguiçoso ante os jurados. Jéssica foi a primeira a ser eliminada.

Samantha tinha constantes problemas com peso, adorava comer, e fazer dietas era seu maior tormento. Diante dessa informação, Sabrina sempre levava para a "amiga" deliciosas caixas de chocolate belga, irresistíveis salgados, macarrons e uma infinidade de guloseimas que Samantha lutava para resistir, mas sempre era vencida por seu ponto fraco, a gula. Visivelmente acima do peso dentro da competição, não demorou muito para que Samantha fosse eliminada.

Léia era orgulhosa, altiva, acreditava ser sempre a melhor e, de fato, seu desempenho impressionava os jurados. Mas, por sentir-se tão superior às demais, evitava estreitar laços com as concorrentes e a cada prova vencida, a soberba subia-lhe a cabeça, o que fazia com que suas colegas não a suportassem. Sabrina pensou e teve uma ideia para tirar a forte concorrente da competição. Sabotou um sapato de salto 15 com o qual Léia desfilaria. Ninguém desconfiaria dela, pois Léia conquistou o desafeto de todas. Então, num desfile onde teria de caminhar com salto altíssimo numa passarela molhada, o salto quebrou, Léia estabacou-se no chão escorregadio e quebrou um pé. Foi o fim da competição para ela.

Carla pecava pela luxúria. Era extremamente sexual e ficar sem sexo a deixava louca. Em um ensaio fotográfico, percebeu que o fotógrafo a comia com os olhos. Aquilo a excitou profundamente. Comentou com Sabrina que precisava ficar com o fotógrafo gato, mas tinha medo de ser pega. Não poderia deixar pra mais tarde, porque o cara tinha compromisso. Seria apenas uma rapidinha. Sempre solícita, Sabrina disse que lhe daria cobertura. Enquanto ela e as outras meninas se preparavam para a sessão de fotos, Carla podia usar o quarto, mas rápido e com cuidado. Carla agradeceu e dirigiu-se ao quarto com seu "lanchinho" rápido. Em sua vez de ser fotografada, Sabrina, já à postos para as fotos, lembrou que havia esquecido seu amuleto da sorte no quarto, pediu para que Vívian buscasse pra ela. Enquanto atingia o orgasmo, Carla foi flagrada por Vívian no clímax de seu ato sexual. Eliminada da competição por infringir as regras após ser delatada por Vívian, mais um plano de Sabrina havia dado certo. Agora restava em seu caminho apenas Vívian e Íngrid.

O alvo da vez, era Vívian. De origem muito humilde, ela só pensava no prêmio que ganharia. Um carro zero quilômetro, alguns mil reais, um contrato de 3 anos com uma grande agência e a tão cobiçada capa, o que lhe possibilitaria muitos ganhos. Não estava interessada em fama, glamour, holofotes. Achava tudo uma grande bobagem. Queria apenas a grana e não dividiria com ninguém. A família miserável que a criou não merecia nem um pingo de suor dos seus esforços. Atenta a essa característica da colega, Sabrina tratou logo de enredá-la em sua teia. Chamou a garota para uma conversa franca de "amiga para amiga", contando-lhe o que havia descoberto. Com ares de estarrecida, Sabrina contou a Vívian que a competição estava comprada. Que Íngrid seria a vencedora, o segundo lugar seria seu e ela ficaria como terceira colocada. Pediu para que a colega não se abalasse, pois seu pai era advogado, e assim que o concurso terminasse ela iria pedir a ele que abrisse um processo milionário contra a agência que criou o concurso. Metade da indenização seria de Vívian, além do prêmio de terceiro lugar, apenas um carro, que já faziam os olhos dela brilharem, diante da possibilidade de sair de mãos abanando. Vívian ficou indignada e abatida com as informações de Sabrina, mas era pobre e sabia que não podia bater de frente com a máfia da moda. O jeito era confiar em Sabrina. Desgostosa, Vívian fez seu pior ensaio, o que levou a sua sumária eliminação.

O concurso chegava em seus momentos finais. Sabrina havia conseguido eliminar uma à uma de suas concorrentes fazendo-se de amiga, compreensiva e confidente. Descobrindo o calcanhar de Aquiles de cada uma e usando-o a seu favor, como uma cobra traiçoeira, sempre pronta a dar o bote na hora certa. Usou o pecadilho de cada uma delas. A preguiça de Jéssica em se impor e acreditar em si mesma. A gula de Samantha. A soberba de Léia. A luxúria de Carla. E a avareza e mesquinharia de Vívian. Mas ainda restava Íngrid, que até então não havia demonstrado nenhum ponto fraco. De todas, era a mais doce, simpática, cheia de carisma. Era generosa com as colegas. Ficava verdadeiramente triste a cada eliminação de uma competidora, menos Léia, que precisava ter a crista quebrada, mas não merecia quebrar o pé.

Íngrid tinha uma beleza suave, a pele branca como leite, olhos verdes, cabelos negros ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Delicada, na passarela tinha ares de princesa, em contraste com Sabrina que era mais agressiva, ferina e sensual. Duas belezas totalmente opostas, mas de igual encantamento. Os jurados teriam uma difícil missão.

Sabrina sabia que era muito melhor que Íngrid, mas não podia correr o risco de um equívoco por parte dos jurados. Precisava pensar em algo rápido para eliminar qualquer possibilidade de ficar em segundo lugar. Como nenhuma ideia melhor surgira, apelou para o velho clichê do purgante e batizou a água de Íngrid.

No dia da grande final, Íngrid passou o maior vexame de sua vida. Em meio a grandes nomes do mundo da moda, a garota de uma beleza meiga e reluzente saiu da passarela toda borrada, e não era a maquiagem. Após seu último e mais baixo golpe, Sabrina sagrou-se a grande vencedora do concurso. Enquanto comemorava sua conquista, flashes de seus futuros desfiles nas passarelas de Milão, Paris, Japão, pipocavam em sua mente. Estava às portas de sua consagração.

Na festa de encerramento do concurso, onde todas as participantes e seus familiares e amigos estavam presentes, as meninas entenderam que tudo tinha sido uma grande sabotagem de Sabrina. Revoltadas enquanto Sabrina era paparicada por todos, elas sentiram falta de Íngrid, que em seguida chegou com uma embalagem nas mãos. Todas começaram a se queixar com aquela que consideravam ter sido a mais humilhada entre todas. E queriam saber como ela se sentia, já que de todas sempre fora a mais tranquila e apaziguadora. Também quiseram saber o que tinha na embalagem que Íngrid trouxera consigo.

- Um presentinho pra'quela filha da puta! - disse, olhando em direção onde estava Sabrina.

As meninas se entreolharam surpresas, pois nunca tinham ouvido Íngrid usar palavras de baixo calão.

Quando os organizadores da festa anunciaram o desfile que simbolizaria a entrada de Sabrina como contratada da marca e "Garota da Capa", todos ficaram atentos e Íngrid pôs-se em posição estratégica. Luz baixa, música suave e Sabrina, absoluta, adentra a passarela. Linda e brilhante com seu vestido esvoaçante.

Em fúria, Íngrid retira do pacote um frasco, abre-o, invade a passarela aos gritos de vagabunda, piranha, biscate, maldita e prostituta, esvaziando o conteúdo do frasco no rosto de Sabrina.

-AGORA, VOCÊ VAI TER TUDO O QUE SEMPRE MERECEU, DESGRAÇADA! - bradava Íngrid, completamente fora de si, antes de ser arrastada da passarela pelos seguranças.

Diante do horripilante grito de dor de Sabrina, todos ficaram apavorados. O frasco continha um ácido corrosivo.

Alguns dias depois de ter sido imediatamente levada ao hospital, Sabrina pôde ver seu rosto. Sabia que não era mais o mesmo, mas não podia imaginar o tamanho do estrago que a ira de Íngrid havia feito em seu rosto tão adorado. Pediu aos pais que lhe deixassem sozinha. Queria estar só quando contemplasse seu rosto deformado pela primeira vez. Atenderam ao pedido da filha. Sabrina aproximou-se devagar do espelho. Soltou um grito de horror que ecoou por todo o hospital. Os pais entraram às pressas para consolar a filha, mas Sabrina não estava mais lá. 

A mãe estremeceu e correu até a janela do 12° andar. Desmaiou ao avistar a filha envolta em uma abundante poça de sangue lá embaixo.    

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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