quarta-feira, 10 de junho de 2015

No Divã





Olhava o relógio de parede, que girava os ponteiros segundo a segundo, como se contasse um grande desperdício. Passou a mão pelo queixo, ajeitou os óculos redondos. Tentou mais uma vez:

- Edgard, é nossa terceira sessão. E até o momento você só tratou de amenidades. Preciso saber o que o trouxe aqui. Certamente não foi o seu jogo de tênis com os amigos ou a panela de pressão que está sem borracha.

O homem, deitado numa cadeira reclinável, que se mostrava bastante confortável, parecia num desconforto sem fim. A careca precoce suava levemente. Roía a unha do polegar direito, quase que ao sabugo. Após um profundo suspiro tirou a mão da boca. E, finalmente, proferiu:

- Eu me masturbo quando entro em banheiros públicos.

De certa forma aliviado e, ao menos tempo, ligeiramente desconcertado, o psicólogo devolveu:

- E como você se sente a respeito disso.
- Um lixo. E ao mesmo tempo, muito excitado.

Recordando rapidamente o que seus livros lhe diziam a respeito, o terapeuta prosseguiu:

- Esse paradoxo é completamente normal.
- Eu não me sinto normal.
- Na verdade, quis dizer compreensível. Não existe algo que podemos definir como normal.
- Mas eu defino o que eu acho normal. E eu não acho normal eu ficar excitado toda vez que eu entro num banheiro público. Tocar os caras e ser tocado.
- O que te incomoda é o sexo com outros homens?
- Não. Até porque pra mim não importa se é homem, mulher, travesti... Eu só penso em sexo. O tempo todo.
- Defina o tempo todo...
- O tempo todo, doutor. Eu tô no trabalho e eu acesso páginas de pornografia. Fico caçando nos arredores pra levar alguém desconhecido pra escada de emergência e me satisfazer. Chego em casa e vejo vídeos que eu gravei com pessoas que eu transei e nem sabem que foram filmadas. Procuro alguém em aplicativo ou bate-papo pra levar pra cama. Às vezes dois, três, quatro num dia só. Já tentei de tudo para desviar o foco... mas eu não consigo!

O psicólogo coçou a cabeça entre os cabelos castanhos. Ajeitou novamente os óculos:

- O primeiro e mais importante passo você já deu, que é de reconhecer que isso está atrapalhando a sua vida. Por outro lado, essa é a sua verdade, seu verdadeiro eu. Não podemos simplesmente lutar contra isso. Temos que ver como isso pode se encaixar na sua vida sem sofrimento para você.
- Mas eu luto, doutor. Eu luto! – demonstrava certa agonia – Eu resolvi namorar uma menina ultra-católica. Daquelas que só fazem sexo depois do casamento. Acreditei que, dessa forma, canalizando nela e no celibato dela, conseguiria me controlar. Não deu certo! Eu ficava com mais e mais tesão, me masturbo seis, sete vezes! Ou então acabava traindo ela com alguém. Cheguei a ir me confessar com o padre da paróquia a respeito disso. Sabe o que aconteceu?!
- O quê?
- Acabei transando com ele na sacristia.

O terapeuta segurou a risada típica da situação inusitada. Edgard prosseguiu:

- Eu me sinto sem saída, doutor. Vejo site de pornografia todo dia. Sinto tesão em tudo: mulher, homem, trans, mulher transando com cavalo, sadomasoquismo, escatologia... Tudo. Absolutamente tudo. – mexia os dedos no braço da poltrona de forma nervosa – Doutor, eu tenho tesão até em mulher grávida! Aliás, quando vejo uma, faço de tudo pra levar pra cama. E já consegui algumas.
- Edgard...
- Olha só, doutor. Só de falar sobre isso... eu já estou excitado!
- Edgard, você não está excitado. No máximo você está tendo uma ereção. Excitação é da cabeça e, pelo que você revela, você está sofrendo com isso. Prazer não pode ser igual a sofrimento. São duas coisas dissociadas, embora possam até ter uma mesma raiz.
- Mas eu tô excitado, doutor. Tudo o que eu consigo imaginar é no senhor completamente pelado nesse momento. Tá vendo, doutor, eu não sei o que fazer! Me desculpa!

O terapeuta ruborizou-se de pronto. Pensava em como sair da situação constrangedora:

- Edgard, é muito comum os pacientes sentirem atração durante a terapia pelos seus psicólogos. É um sinal de intimidade e reconhecimento. Você provavelmente nunca se abriu assim com ninguém antes.
- Já sim. Com o padre. E acabamos transando.
- Sim, mas o padre demonstrou que a atração era recíproca. No meu caso, não é. Estou aqui apenas profissionalmente para ajudar você a se encontrar.
- Doutor?
- Sim.
- Posso ir ao banheiro?
- Agora?
- Sim. Preciso me aliviar, doutor. Meu saco está doendo já. Eu preciso, pra mim é uma necessidade.

Suspirou demonstrando certa dúvida.

- Ok. Vai lá.

Correu para a recepção do consultório, onde havia o sanitário.

O psicólogo esperou-o longamente. Até tocar o telefone:

- Doutor Fagundes, posso chamar o próximo paciente?
- Não, estou esperando o Edgard retornar do banheiro.
- Ué, o senhor Edgard saiu do banheiro faz tempo. E foi embora. Achei que o senhor tivesse encerrado a consulta com ele já.

Sobressaltado pela notícia, fez um sinal de reprovação com a cabeça.

- Ok, então. Pode chamar o próximo.

Ao fim do dia, tomado pela curiosidade, pesquisou pelo nome completo de Edgard numa rede social. Encontrou seu perfil em detalhes. Viu belas fotos com pais, irmãos e sobrinhos. Procurou um pouco mais e descobriu que era contador por ofício, fazia caminhadas e ginástica nas horas vagas.

À noite, em um sonho muito real, imaginou-se interagindo sexualmente com Edgard. Acabou acordado por uma torrencial polução noturna.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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