domingo, 14 de junho de 2015

Para Você Que Se Foi Sem Nunca Ter Estado





Dia desses peguei um trânsito horrível e, sem ninguém na carona ou bateria no celular, me vi sem muitas alternativas a não ser pensar em você. Nunca gostei de refletir sobre o que aconteceu - prefiro poupar a exaustão de me debruçar sobre o nada -, mas pensamentos têm a inconveniente mania de surgir onde não são chamados. Então pensei na gente, muito a contragosto, sendo “‘a gente”’ um termo generoso demais pra descrever o que rolou. Com o pragmatismo que tende a me faltar em tarefas cotidianas, como escolher um canal ou um sabor de sorvete, tentei resolver como o aparentemente simples 1 + 1 do nosso caso nunca virou 2. E sabe… Acho que entendi. Não sei se chamo de epifania (estou guardando esse termo pro dia em que eu finalmente me resolver comigo mesma), mas o estalo surgiu lá pra altura da Lagoa-Barra, quando aquele Palio vermelho entrou sem dar seta e eu quase acabei no meio-fio. Não fui eu. Não foi a gente. Foi você. No fim das contas, matematicamente, meu 1 não tinha como virar 2 com o seu zero. 

Espero que não se ofenda, vou me explicar. Não tenho muitos motivos para reclamar de você, da mesma forma que não tenho motivos para reclamar de brotos de bambu e Jorge e Matheus. Eles me prometeram tudo que você me prometeu: nada. Quando a gente terminou o que nunca aconteceu, me vi na situação singular de sentir falta de algo que nunca tive, uma nostalgia esquisita e inexplicável, como a saudade que eu sentia de Nova York antes mesmo de passar lá. A diferença é que eu visitei Nova York eventualmente, e ela me deixou me apaixonar por ela. Já você… Esclareço: nunca fui apaixonada por você. Não sei se algum dia seria. Mas hoje penso que gostaria de ter tentado. Lembra que, às vezes, a gente falava de forma entusiasmada sobre alguma música tosca e adolescente que ninguém mais conhecia? Acho que você nem dava muita bola, mas eu achava aquilo muito bonito. Às vezes eu assistia algumas coisas que você curtia só pra puxar assunto, torcendo pra você não notar que tinha sido de propósito. E, às vezes, eu torcia pra você notar que tinha sido. E aí eu sentia tanta vergonha de mim mesma. A mesma vergonha que eu sentia quando sabia que você estava em casa sozinho e eu estava em casa sozinha e eu pensava que seria bem legal se você me chamasse pra ir ver o mesmo filme que a gente estava comentando separadamente ao mesmo tempo. Ou quando eu olhava pra você do outro lado da mesa do bar e você olhava pra mim na mesma hora e eu me sentia um fotógrafo da National Geographic tentando não assustar o passarinho com o som do disparador da máquina. Era uma vergonha constante de querer, de pensar, de pedir, ainda que mentalmente, algo que eu sabia que você não queria dar. Não era amor, ou sequer carinho - embora, às vezes, quando a gente andava junto eu torcesse pra sua mão se enroscar na minha -, mas algo diferente. Menos grave. Talvez uma chance? Uma chance pra você gostar de mim. Eu sou até legal de vez em quando, sabe?

Calma que eu já já explico o 0. Uma mania que eu tenho é a de achar que o problema sou eu. Faço isso no trabalho, com os amigos, na vida. E eu cheguei a flertar com essa ideia em relação à gente (“a gente”), pensando que talvez eu fosse ou muito boba, ou muito agressiva, ou muito assertiva, ou muito enrolada, ou muito chata, ou muito espalhafatosa, ou muito gorda pra você. Como você nunca fez questão de esconder suas preferências de mulher, em certo momento me convenci de que talvez não fosse bonita o suficiente pra estar do seu lado. Continuo pensando que talvez fosse o caso, já que acho que você nunca me achou bonita. Talvez tenha sido o resto. Talvez tenha sido tudo junto. Mas acho que se você quisesse gostar de mim nada disso teria feito muita diferença. O problema nunca fui eu, fui? Você não sabe dividir. Não quer abrir mão do que tem, nunca, seja lá o que isso for. Todo mundo me falava a mesma coisa desde o começo, embora sem muito alarde. Eles sabiam que não sou de me entregar a paixonites ou sofrer por ninguém, então você me magoar não era uma preocupação. Melhor assim. Sem climão. 

Nunca tive que te ver com outra garota, o que era bom e ruim ao mesmo tempo. Era bom não ter que te ver com outra garota. Acho que ficaria chateada. Por outro lado, eu sabia que não estava sendo trocada por uma alternativa melhor. Eu estava sendo trocada pelo nada. O nada era melhor que eu. Doía. Mas hoje vejo que o eu não era eu, saca? E aí que entra o 0. Não sei o que você tem aí dentro. Talvez exista carinho e compaixão e a disposição para se fazer de bobo de vez em quando. Talvez exista uma parte de você capaz de botar palitos de comida japonesa acima da gengiva e se fazer de morsa durante um jantar (acho que você nem come comida japonesa?). Talvez exista um pedacinho de você que ache muito lindo e triste quando a Meryl Streep fica no carro e deixa o Clint ir embora em As Pontes de Madison. Talvez uma parte de você em algum momento tenha desejado que eu não fosse embora no meio da noite, ou tenha pensado em me beijar ainda razoavelmente sóbrio, ou talvez você tenha tido que conter um impulso de afastar minha franja quando ela estava caindo no olho. Isso tudo parece meio legal quando eu penso a respeito, mas a verdade é que não importa mais. Se o que tem aí dentro é 1 ou 10 eu nunca vou saber, porque o que você está disposto a doar sempre foi nulo. Nunca pedi muito, na verdade foi até bem pouco, mas até o mínimo é demais pra quem não quer dar nada. 

Às vezes eu gosto de pensar que você vai se arrepender um dia. Meio feio, eu sei, não me orgulho de falar assim. Eu sinto isso, mas passa. E aí penso que, mesmo que você se arrependa, eu esqueço rápido e tendo a desgostar de quem não gosta de mim. Já já vai acontecer contigo, antes do que você imagina. Na verdade, eu nem sei se eu gostei de você. Convenhamos, você consegue ser bem detestável quando quer. E ainda faz de propósito, pra parecer legal pro pessoal de fora. O que é ainda mais irritante. Esse seu personagem pro mundo é desapegado e sozinho, e você está fazendo um excelente trabalho em mantê-lo. Mas, de qualquer forma, acho que você merece mais que isso. Gosto de pensar que não há fachada que resista a uma grande paixão, e talvez seja exatamente isso que te falta. Talvez alguma garota mexa tanto contigo algum dia que as coisas surjam naturalmente. Não fui eu. Então, em vez de desejar que você mude de ideia em relação a mim, vou desejar que você mude de ideia em relação a todas. Ou que talvez encontre uma garota disposta a doar o 2 que compense seu zero. Essa, definitivamente, não sou eu. Quem quer que seja ela, linda, magra, gorda, gentil ou grosseira, eu espero que ela consiga tirar algo daí de dentro, ainda que pouco a pouco, ainda que não tudo. Mas o suficiente. 

O mundo aqui fora dói mas, às vezes, quando ele te pega desprevenido, pode ser bem bonito. Tira os óculos escuros e dá uma olhada, baby. Pega um sol. Vai te fazer bem. Não vou te esperar. Inclusive, já fui embora. Mas logo vem alguém atrás. Tenta não deixar ela passar também?

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Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso.
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