quarta-feira, 17 de junho de 2015

Saindo do Armário




Se há algo de positivo na onda de intolerância que temos verificado recentemente, seja no relativo protecionismo das redes sociais ou na evidente exposição das ruas, é que o Brasil está, mesmo que aos poucos, saindo do armário. Não me refiro somente aos homossexuais que se assumem para si mesmos ou publicamente. Mas principalmente àqueles que sempre preferiram, por algum tipo de comodismo, manterem-se em cima do muro e que agora começam a demonstrar suas posições de forma mais clara.

Desde o advento das mídias sociais as opiniões se recrudesceram. Os que sempre tiveram suas “pequenas” homofobias do dia-a-dia (coisas como “isso tem que ser feito só entre quatro paredes” ou “com o meu filho isso não acontece porque não falta educação”) passaram a sentirem-se mais aptos a destilarem seus ódios, independentemente do fundamento. E os que sempre foram simpatizantes à causa começam a abandonar o silêncio e demonstrar seu apoio, realizando uma autêntica onda de respeito à individualidade humana.

Minha mãe, sábia que é, sempre me disse: “não cuspa para cima porque cai na cara”. Lembro da primeira vez que ela me falou isso; foi quando eu, com meus seis, sete anos, fiz alguma piadinha sobre um menino ser “viado”. Perguntei o que ela quis dizer com aquilo e ela contou que eu não sabia o dia de amanhã; que eu poderia ter um filho que seria hostilizado da mesma forma ou mesmo que passasse pela mesma questão sexual. Acabou que aconteceu justamente uma geração antes a cusparada metafórica a que ela se referia...

O processo de sair do armário para um gay pode ser comparado ao de ficar careca: é muito pior enquanto você está no processo. Depois que você aceita que é um caminho sem volta, raspa tudo e assume a calva definitiva, tudo fica mais fácil. Até porque aquele É você. Não, eu não sou careca – e espero não ser no curto prazo. Mas já ouvi o sofrimento de amigos que passaram por isso.

É difícil acreditar que alguém ainda pense que ser gay é uma mera questão de “pouca vergonha” ou uma “opção”. Para muitos gays, se assumir, principalmente para si mesmo, passa por muito sofrimento. Negação, medo de decepcionar, medo de ser abandonado. É uma fase tenebrosa na maioria das vezes, que pode envolver agressões (físicas e verbais), expulsão de casa e até assassinatos.

Não, não é uma opção. Opção é viver ou não dentro do armário. E por mais que convivamos em uma sociedade ainda intolerante e muitas vezes agressiva, agradeço por presenciar esse momento de transformação. Em que as pessoas estão tomando seus partidos. Em que só vejo amor nas postagens que coloco sobre o meu relacionamento. Em que mais de uma centena de pessoas foi ao meu casamento para simplesmente celebrar o amor entre dois seres.

O Brasil está saindo do armário. E espero que nunca mais volte.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Homem, Homossexual e Pai disse...

Concordo com vc! se a homofobia ganhou espaço nas redes sociais as afirmações e as defesas tb ganharam, todo mundo de um jeito ou de outro teve que sair do armario, ou para se demonstrar preconceituoso ou para se mostrar defensor das pessoas! Excelente texto!