quarta-feira, 3 de junho de 2015

Sobre a Crise Que Não Veio




Oi, 30 anos. Faz quase um ano que eu estou com você. E sabe aquele lance da crise que diziam que a gente teria junto? Passou longe! Eu não tive vergonha em nenhum momento de dizer que eu tinha você. Nem mesmo fazer piadinhas de que a idade estava pesando. De fato, ser um pouco velho sempre fez parte da minha personalidade; logo, me tornar mais maduro na carteira de identidade nunca foi um problema.

É bem verdade que uma série de coisas fez com que sua chegada em minha vida não se tornasse uma experiência traumática: eu já tinha um relacionamento estável, feliz, correspondido e de muita compreensão de quase dez anos; tinha uma família linda, que cresceu com a chegada de uma sobrinha mais linda ainda, que sempre me apoiou e demonstrou amor em todos os seus gestos; tinha uma carreira consolidada, estando uma ótima posição profissional, na mesma empresa havia quase sete anos, tendo experiências anteriores que me realizaram bastante também; tinha um livro lançado de minha autoria e um em conjunto com outros autores – e como já tinha plantado uma árvore, agora só falta o filho; tinha minha casa que, ainda que não própria na escritura, era o meu lar, o qual eu tenho o orgulho de manter junto ao meu companheiro; tinha uma experiência religiosa muito recompensadora, feliz e equilibrada; tinha amigos queridos por toda a parte, os quais mesmo sem muito contato, às vezes, sempre pude contar nos momentos de mais aperto ou aflição.

Soma-se a isso que, desde que você chegou, muitas experiências ótimas aconteceram na minha vida. Presenciei uma Copa do Mundo no quintal de casa, podendo ver a final ao vivo no Maracanã (sempre foi um sonho meu); ganhei uma filhota canina que é um dos meus maiores amores hoje em dia; finalizei o meu segundo livro solo; completei dez anos de relacionamento e fiz viagens incríveis e agradabilíssimas. Ganhei novos amigos, daquelas pessoas que você, às vezes, até tenta entender como não tinha conhecido antes! Tornei-me dirigente dentro da minha instituição religiosa e aumentei minha responsabilidade sobre a fé dos outros. Descobri o prazer de correr na rua, participando de provas mesmo num domingo chuvoso às 8h da manhã. Passei a escrever no Barba Feita e, através dele, soube mais sobre o Leandro, que já era meu amigo, mas também conheci o Glauco, o Silvestre, o Serginho e o Esdras.

Sabe, 30 anos, tentaram explicar científica e astrologicamente que você não seria um bom momento na minha vida. Falaram de um tal retorno de Saturno, que leva 29 anos para dar uma volta completa no Sol e que traria desestabilidade perto dos 30. Mas Saturno nem fez cosquinha. Nem uma possível desaceleração do metabolismo e outros blablablás de que o meu corpo nunca mais seria o mesmo. Estamos nessa vida pra isso mesmo: pra sermos outros, diferente do que éramos, e não voltarmos atrás.

Estou cheio de planos. Cheio mesmo. Tenho pelo menos mais cinco livros em mente. Quero filho(s). Quero mais viagens, com roteiros incríveis. Quero uma vida com mais qualidade. Quero correr mais quilômetros do que já corro. Quero muitas outras coisas que não cabem nessas linhas.

Semana que vem me despeço de você, 30 anos. Na verdade, você estará lá, acompanhado de outros números. Mas não será mais você, puro e simples. Cravado e redondo.

Obrigado por ter sido gentil e amável. Você vai deixar saudades.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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