sexta-feira, 12 de junho de 2015

Sobre a Gula (ou A Megera, o Glutão e os Baldados)





Acostumou-se a ser assim. Sempre viveu cercada por tudo que desejava e a fazer birras quando não tinha o que queria na hora que lhe convinha. O pai, um contador aposentado e frustrado, dava-lhe tudo; a mãe, uma dona de casa frustrada, lhe cercava de todos os mimos. Se queria uma boneca que falava, andava e soltava pum, ela possuía, mas logo enjoava e deixava de lado assim que via outra coisa que lhe apetecia.

Fora sempre assim durante a infância, piorara na adolescência, insuportável como adulta. Tanto que os pais começaram a preocupar-se. Ela um dia casaria? “Quem seria o louco?”, perguntavam-se todos. A cidade era pequena e todos conheciam-se muito bem. Casar com a filha do contador era algo que ninguém almejava, nem que os pais encontrassem um tolo e o pagassem, a fama da filha endiabrada era conhecida e ninguém ousava enfrentar a besta-fera. Uma vizinha cochichou no ouvido da mãe que o rapaz podia ser de outra cidade, de preferência uma cidade distante, dessa forma não corria o risco de casar com o monstro. Mas havia um problema, eles não conheciam ninguém de tão longe que pudesse ser a vítima. Coitados, estavam na lama.

Não muito longe dali, apenas um pouco mais afastado da cidade, já próximo ao rio que circundava o município, morava uma senhora e seu irmão. A mulher ganhava vida lavando as roupas dos moradores mais abastados e, dizem que por isso, acabava sempre por saber o segredo de muitos deles. Entretanto, mexericos à parte, iria levar para o túmulo todos eles, porque já bastava o irmão glutão que tinha que carregar. O pobre homem comia tudo que via pela frente e já não saía de casa porque já nem andava direito de tão gordo,  se arrastando pelos cômodos da residência, catando as migalhas que ele mesmo deixava cair.

Fora um homem tão lindo na adolescência. Sempre ativo, sorridente, prestativo. Estava sempre ajudando os pais nos afazeres do pequeno sitio que possuíam. Os pais faleceram num terrível acidente e, desde aquele dia, nunca mais fora o mesmo. A vontade de viver se foi. Parecia que achava que precisava comer para morrer estufado de tão gordo. Mal falava e quando assim fazia eram apenas pedidos de comida. A irmã desconfiava que ele andava a comer o estofado do velho sofá, porém, se resignava em satisfazê-lo como podia, esperando que um dia as coisas mudassem entre uma lavagem e outra.

Foi então que os tais segredos que guardava serviram para algo. Ela escutou de uma mulher para qual trabalhara lavando roupas que a vizinha precisava casar a filha que era um demônio o mais rápido possível. Era praticamente a única solteira de sua idade, as outras moças ou estavam a noivar ou já casadas. Os pais nem se importavam com quem fosse, mas precisavam apagar as gozações na cidade sobre a filha solteirona. Quem sabe assim os pais recolhiam suas frustrações. O velho contador poderia concorrer a um cargo político na cidade e sua esposa poderia frequentar o pequeno clube de senhoras. Foi então que a tal velha senhora teve um estalo, um lampejo, um clarão. Quem sabe o irmão glutão não se casaria com ela? Quem sabe uma mulher mesmo sendo um diabo poderia dar o fogo que lhe faltava e acabaria então com a gula maldita que enfiava o irmão naquela condição de inerte. Não demorou muito e foi procurar os tais pais e lhe propor um negócio.

A tal ideia foi muito bem aceita pela mãe da Megera, que a essa altura só queria casar a filha com quem quer que assim fosse. O pai relutou no início. Esperava que a filha encontrasse alguém melhor, mas rapidamente percebeu que não existiria ninguém melhor. Seria o glutão mesmo e não se falava mais nisso. Começaram os preparativos. Deu-lhe um banho de água de colônia, quem sabe assim, o cheiro de gordura diminuiria um tanto. Há muito custo reformou o antigo paletó do pai. Sorte que o pai tivera sido um homem extremamente alto, porque o que poderia sobrar em pano, acabou servindo para envelopar o irmão naqueles velhos trajes a cheirar naftalina e ainda ficara um tanto apertado.  Não faz mal, estava apresentável. Os sapatos engraxados, cabelo bem penteado. Passara uma banha para que ele ficasse e fincasse os fios desgrenhados no lugar. Como o irmão não saía nunca, o jeito fora fazer o jantar em vosso pequeno sítio.

Para entrada iria servir um caldo verde com batatas, couve e rodelas de chouriço. Para o prato principal, prepara um suculento leitão assado recheado com folha de louro, alho picado, cebola e salsa, polvilhado por pimenta a gosto e sal. A gosto. Durante a hora em que estava no forno, o pincelou com óleo, virando de vez em quando o leitão retirando o líquido que sobrara. O mesmo serviu para cozinhar o arroz. Para sobremesa, caprichara no bolo de nozes. Fizera dois aquele dia. O primeiro para amansar o irmão e o segundo seria para mantê-lo entretido enquanto discutiria o futuro dele com os tais sonhadores pais.

E eles chegaram cedo e pontualmente junto com a filha, deveras antipática, a tiracolo. Ela olhou para a casa humilde e fez cara de entojo. Não era rica, mas queria acreditar nisso. Sentaram. Enquanto a velha senhora servia o licor de pitanga, o glutão entrara na pequena sala, não tinha cara de pretende. Chegou de cabeça baixa, sem olhar para ninguém, seu olhar estava na mesa posta à sua frente, mas seus pensamentos estavam distantes. Pensara no quanto a comida o fazia lembrar dos pais e como ela o levaria para junto deles. Ele não iria desistir de comer até morrer. Algumas pessoas bebem até morrer, ele escolhera comer, faria de tudo nem que seja terminar de comer o estofado do sofá, pensara.

A irmã o apresentou aos convidados. Ele não saíra da posição em que estava. Ela precisou implorar em seu ouvido que se aproximasse e dissesse algo. Ele andou lentamente, chegou perto da entojada e perguntou:

- Tu sabes cozinhar?
- Eu? Cozinhar? Jamais!

Subitamente, ele não pensou duas vezes. Deu-lhe as costas, agarrou o pote do caldo verde com os dentes, segurou a bandeja com o leitão com a mão direita, a acomodando bem em cima de sua imensa barriga, com com a mão esquerda segurou o prato onde estava bolo de nozes cuja calda já lhe escorria pelos braços. A irmã correu atrás para saber o que acontecera. Os pais ficaram apreensivos. A megera, enojada com a tal cena. Arrancou-lhe a bandeja das mãos:

- Mas o que se passa? Que falta de educação foi aquela? Esqueceste o que te pedi? Porque agiste assim? Porque ela não cozinha e é muito magra?

A senhora vociferava de ódio, ele podia ver o quanto ela estava zangada e frustrada. Entretanto, ele não disse nada, mas era o suficiente para ela entender o que estava a passar.

- Mas se tu queres morrer, então que morra de fome, homem de Deus! Mas antes, tu casas e deixas que eu usufrua o restante dos meus anos.
- Prefiro morrer entalado a comer do que a morrer de fome. É essa a minha sina e essa será. E dê cá este leitão! 

Foi refastelar-se, para desgosto da irmã que não conseguira se livrar do irmão nem tampouco demovê-lo da infeliz ideia de morrer pela boca.

Quanto aos pais da Megera, tiveram que aceitar que a filha havia sido rejeitada até pelo maior glutão da cidade. Raios!

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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