quinta-feira, 11 de junho de 2015

Toda Soberba Será Castigada




Por muitos anos meu marido viveu para o trabalho. E agradeço ao Jaime, meu querido irmão e organizador desse evento, pela chance e ao convite de poder dizer algumas palavras em uma noite tão especial. Conforme os anos vão passando você acaba por esquecer certas coisas e detalhes que se vive na vida a dois. Nem sempre o Facebook tudo sabe e tudo vê. Eu não quero enganar ninguém, viu? Aos mais jovens aqui presente, infelizmente essa é a vida real de um casal. 

Você pode esquecer quando foi que se conheceram, mas lembrará muito bem do primeiro bolo que recebeu por conta de uma reunião de negócios da empresa. Também vai saber de cor quando foi a última vez em que os dois saíram para jantar ou então quando seu marido não chegou em casa com cheiro de bebida. Muita bebida. Existem momentos que ficam grudados na gente, na nossa memória, e, infelizmente, vão ocupando todo o espaço das outras coisas que se vive junto. Do pedido de casamento feito no segundo natal que se passa junto. Da felicidade em descobrir o sexo do primeiro filho e também da falta de um tapinha nas costas e de ouvir um “tudo vai ficar bem”, quando se aborta espontaneamente o segundo. 

Mas hoje é uma noite de festa e feita para homenagear esse homem tão importante, não é mesmo? Para não dizer que não lembro de muita coisa de quando nos conhecemos, lembro exatamente do dia em que o conheci, Marco. Após uma rápida troca de olhares eu sabia que passaria o resto dos meus dias ao seu lado. E não da forma romântica e sensível que vocês podem estar pensando. Eu sabia que ali, naquele momento, esse homem nunca mais me deixaria escapar. Eu, uma menina recém-chegada e que tinha acabado de terminar um relacionamento longo, estava vulnerável. E mesmo assim sabia que aquele sorriso que recebia não era de graça. Nada que fosse vir daquele homem com sorriso enigmático e olhos caramelados seria de graça. E também não vinha de uma maneira educada e nem despretensiosa para, quem sabe, iniciar alguma coisa no futuro. 

Futuro? Não existia tempo para as possibilidades de um futuro. E hoje acredito que também não teve destino. O que existiu foi uma combinação da ambição dele e da minha disponibilidade. Acho que pode sim ter o fator sorte no meio disso tudo. Sorte dele que meu namorado decidiu me largar por não se achar um bom “partido” pra mim (sim, meninas, sou da época que desculpas assim eram dadas.) Hoje eu penso em como foi que você conseguiu fazer isso, heim? O Otávio, que dizia me amar tanto, pensar que não era o cara certo? Bem, isso não importa, não mais e não agora. 

No fim, você me quis porque eu era um bom partido ou a vítima perfeita, mas o que importa relatar aqui é que você me quis e me teve. Aliado a tudo isso, inúmeras portas se abriram. O estágio na empresa em que hoje você é o homenageado. Empresa essa que meu pai era o sócio majoritário. Se coincidências existem, deixei de acreditar tem um bom tempo. Foi mais ou menos na época em que descobri sua segunda amante e seu filho com ela. Filhos acabam sendo consequências não planejadas e não tenho nada contra eles, que descansem em paz, não é mesmo? 

Mas voltando ao assunto principal, você conseguiu a filha do dono, conseguiu a empresa e conseguiu muito mais. A Márcia do financeiro, sim, a esposa do Arthur e que curiosamente estão sentados ao seu lado nessa mesma mesa. Mas você não foi a primeira e nem a única, Marcinha, também teve e tem a Rebecca, sua secretária, que é uma fofa e sempre soube escolher bem os presentes que você paga pra mim. Ah, sim, se for possível deixar uma dica para vocês que irão se casar, com toda certeza é: tenham boas secretárias para o companheiro ou companheira de vocês. Metade de toda a felicidade do casamento virá da criatividade delas. 

Esse é o meu momento, Jaime, meu momento de homenagear o meu marido. Não se atreva a vir aqui tirar isso de mim. Ainda mais que falta pouco para o gran finale. Eu venho de uma época diferente, meninas. Uma época em que ter um bom casamento era sinônimo de felicidade. Não vou mentir que fui muito feliz no início. Afinal, estava casada e com um filho pequeno, o que mais poderia querer? Mas existe o mais. Existe o além do que é permitido ter. A mulher antigamente tinha que dirigir uma casa e o homem, marido, uma empresa. Hoje, vocês podem mais, nós podemos mais. Ainda não é o ideal, mas é muito se comparado ao que era possível. Não se limitem ao homem ou com quem você se relaciona. Os tempos são outros e sei bem que os homens não são os únicos castradores que existem. Para algumas pessoas, a palavra relação significa aprisionar. Então, por favor, muito cuidado com quem está ao lado de vocês. Com quem vocês dividem os sonhos e a cama. Seja homem ou mulher, não deixe que o sentimento por eles seja maior que o amor por vocês mesmos.

Durante muito tempo eu via tudo acontecer e não sabia como agir, nem o que poderia fazer. A única certeza que tinha era a de esperar. E esperei. Esperei dia após dia. Vi todas as trapaças. Assisti de camarote todo o planejamento para fazer um caixa dois, assim como entendi que você estava armando para mandar todo o dinheiro desviado para uma única conta em um paraíso fiscal. Eu vi você elaborar cada puxada de tapete em cada uma das pessoas aqui. E se os homens querem aprender uma lição muito valiosa na noite de hoje, eu digo: Não fiquem confortáveis demais. Não sejam arrogantes. Nem toda marionete é cega ou burra.

Acho que finalmente chegou o momento. Bem, senhoras e senhores eu chamo ao palco o meu marido, a pessoa mais mesquinha que já conheci: Marco Brandão. Esse troféu é por todo o seu legado e saiba que esse é o seu único bem valioso no momento. Limpei a sua conta e mais algumas outras que você acreditava que eu não sabia a respeito. Acho que não preciso dizer que estou deixando você. E, ah, todas as suas roupas estão passadas, engomadas e guardadas em alguns sacos plásticos no lado de fora do salão, eu mesma trouxe, então, não se preocupe, querido. E que hoje você comece a receber tudo o que sempre mereceu, com todo o meu amor.

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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